Ambiente: Falta consenso sobre mudanças climáticas no G-8

Londres, 17/06/2005 – Três semanas antes da sua cúpula, o Grupo dos Oito países mais poderosos está muito longe de um consenso sobre mudanças climáticas, segundo um documento oficial reservado sobre o atual estado das negociações a respeito desse assunto. Esta é a segunda vez que um rascunho de acordo nessa área entre representantes do G-8 vaza nas últimas semanas. O texto conhecido no final de maio mostrava coincidências muito frágeis e de caráter muito geral. O novo rascunho evidencia um conflito desde suas primeiras quatro palavras: "Nosso planeta está esquentando". Essa frase figura entre colchetes que indica que não há consenso sobre sua formulação.

Este documento foi elaborado pelo governo britânico, e observadores garantem que a objeção parte dos Estados Unidos. Londres confirmou sua autenticidade, embora ressaltando que se trata de uma versão preliminar do acordo final. O primeiro parágrafo também inclui as seguintes frases entre colchetes: "As academias de ciência afirmaram em junho de 2005 que existe forte evidência de que está ocorrendo um significativo aquecimento global e que esse aquecimento já causa mudanças no clima da Terra. Sabemos que o aumento se deve, em parte, à atividade humana". Portanto, não consenso entre os governo do G-8 nem mesmo sobre a origem humana da mudança climática.

A maioria dos cientistas concorda que o atual ciclo de aquecimento do planeta é causado pelos gases que provocam o efeito estufa, derivados, sobretudo da queima de combustíveis fósseis, como carvão, petróleo e gás. "O novo texto também não menciona nada sobre quanto dinheiro deve ser gasto" para minimizar o aquecimento do planeta, disse à IPS Catherine Pearce, da organização ambientalista Amigos da Terra. Esta instituição, uma das mais importantes do mundo na matéria, vê o documento como uma confirmação da falta de compromisso de Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia na luta contra o aquecimento global. "O texto anterior reconhecia que se deveria gastar determinada quantia em dinheiro, marcada como um X, mas agora nem mesmo há referência sobre o dinheiro", afirmou Pearce.

Para a ativista, é particularmente preocupante a referência à energia nuclear como "zero carvão" e a ausência de "objetivos, prazos e novos compromissos". O documento, intitulado "Plano de Ação de Gleneagles", tem a data de terça-feira. Faltando apenas três semanas para a cúpula nessa localidade escocesa, os ambientalistas vêem pouca esperança de um acordo significativo. A cúpula acontecerá entre 6 e 8 de julho. A mudança climática será um dos principais temas do encontro, bem como o desenvolvimento da África. "Qualquer previsão de que a visita do G-8 à Escócia produziria algo relevante contra a mudança climática se evapora rapidamente", disse o diretor-executivo da Amigos da Terra nesse país, Duncan McLaren.

"O primeiro rascunho deste documento era ruim. O segundo é ainda pior. Os países do G-8 concentram apenas 13% da população mundial, mas respondem por 45% das emissões de gases causadores do efeito estufa", advertiu McLaren. De acordo com a formulação do documento, nada consta quanto a "agir com resolução e urgência agora para cumprir com nossos múltiplos objetivos compartilhados de reduzir as emissões de gases que provocam o efeito estufa, melhorar o meio ambiente global, fortalecer a segurança energética e reduzir a poluição do ar em conjunto com nossos vigorosos esforços para reduzir a pobreza". Mas a seguir os colchetes marcam uma discrepância: "Os países desenvolvidos têm a responsabilidade de mostrar liderança".

Tampouco o parágrafo seguinte apresenta consenso: "Embora sempre haverá certa incerteza, não podemos nos dar ao luxo de adiar ações se queremos manejar o risco de uma grande mudança irreversível". A Amigos da Terra reclama ao G-8 que inclua em seu plano de ação um acordo sobre a evidência científica que atribui a mudança climática em andamento à ação humana, e sobre a necessidade de reduzir as emissões desses gases. Além disso, exige metas específicas, substanciais e com prazos estabelecidos para que os oito países reduzam suas emissões. A declaração indica que os países do G-8 que são parte do Protocolo de Kyoto sobre mudança climática devem cumprir seus compromissos em matéria de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa. Os Estados Unidos não são parte desse tratado.

O Protocolo de Kyoto, que entrou em vigor em fevereiro, obriga as nações industriais a reduzirem suas emissões desses gases. Mas o governo de George W. Bush repudiou o documento em 2001 e retirou a assinatura colocada por seu antecessor, Bill Clinton (1993-2001), alegando que afetaria gravemente a economia nacional. Os Estados Unidos, com 4% da população mundial, emitem um quarto dos gases que provocam o efeito estufa no planeta. Somente o Estado do Texas, que foi governado por Bush (que pertence a uma família com interesses na indústria do petróleo) supera as emissões anuais da França. (IPS/Envolverde)

Sanjay Suri

Sanjay Suri has been chief editor since December 2009. He was earlier editor for the Europe and Mediterranean region since 2002. His responsibilities through this period included coverage of the Iraq invasion and the conditions there since. Some other major developments he has covered include the Lebanon war and continuing conflicts in the Middle East. He has also written for IPS through the period on issues of rights and development. Prior to joining IPS, Sanjay was Europe editor for the Indo-Asian News Service, covering developments in Europe of interest to South Asian readers, and correspondent for the Outlook weekly magazine. Assignments included coverage of the 9/11 attacks from New York and Washington. Before taking on that assignment in 1990, he was with the Indian Express newspaper in Delhi, as sub-editor, chief sub-editor, crime correspondent, chief reporter and then political correspondent. Reporting assignments through this period included coverage of terrorism and rights in Punjab and Delhi, including Operation Bluestar in Amritsar, the assassination of Indira Gandhi and the rioting that followed. This led to legal challenge to several ruling party leaders and depositions in inquiry commissions. Other assignments have included reporting on cases of blindings in Rajasthan, and the abuse of children in Tihar jail in Delhi, one of the biggest prisons in India. That report was taken as a petition by the Supreme Court, which then ordered lasting reforms in the prison system. Sanjay has an M.A. in English literature from the University of Delhi, followed by a second master’s degree in social and organisational psychology from the London School of Economics and Political Science. He has also completed media studies at Stanford University in California. Sanjay is author of ‘Brideless in Wembley’, an account of the immigration experiences of Indians in Britain.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *