África: Saúde reprodutiva em campos de refugiados em estado de alerta

Nairóbi, 21/06/2005 – A história de Mariam, uma somaliana que realizou abortos em compatriotas suas no Quênia, deixa evidente a penosa situação de saúde reprodutiva nos acampamentos de refugiados. "Não queria fazê-lo, mas as mulheres vinham a mim chorando. Algumas tinham 10 filhos ou mais. Uma inclusive ameaçou se enforcar em minha palhoça se eu continuasse me negando a atendê-la", disse à IPS Mariam, que entre 1992 e 1998 viveu no acampamento de Daddab, no norte do Quênia. Ela fez mais de 20 abortos, em geral sem receber nenhum pagamento. "Usava ferramentas de madeira, varas de ferro e inclusive cabides. Às vezes, se tratava de gestações de quatro meses. Não era fácil, mas felizmente nenhuma mulher morreu", contou Marian, que em 1999 se radicou em Nairóbi, onde hoje trabalha como vendedora ambulante.

No acampamento de Dadaab vivem 140 mil refugiados, dos quais 69 mil são mulheres, informou no mês passado o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). A ajuda humanitária nesse e em outros acampamentos se concentra no fornecimento de alimentos, água, abrigo e saneamento. A necessidade de dar anticoncepcional às mulheres freqüentemente fica fora de foco. E isso apesar de as mulheres serem mais vulneráveis do que os homens ao abuso sexual e às doenças sexuais, especialmente em um contexto de acampamento de refugiados. Além disso, são as que deverão arcar com uma gravidez não desejada.

A coordenadora da organização regional de direitos femininos, África Woman Communications, Florence Machio, disse que as refugiadas devem contar com "um completo equipamento de anticoncepcionais". "As grávidas podem ter pouco ou nenhum acesso a cuidados pré-natal e no parto. Isto sem dúvida converte a gestação em uma ameaça de morte", afirmou Machio. A existência de mais de 4,2 milhões de refugiados na África, segundo as últimas estimativas do Acnur, sugere que atender as necessidades das refugiadas será essencial para que o continente cumpra a quinta Meta de Desenvolvimento das Nações Unidas para o Milênio: reduzir em três quartos a mortalidade materna até 2015. As oito metas da Organização das Nações Unidas foram estabelecidas em 2000 como um guia para incentivar o desenvolvimento dos países pobres e acabar com a fome.

O sudanês Abraham Wol, que de seus 20 anos viveu durante sete no acampamento de refugiados queniano de Kakuma, advertiu que a campanha para melhorar o uso de anticoncepcionais nos acampamentos deve incluir os homens. As mulheres são 37 mil dos 90 mil residentes em Kakuma. "Quando saí desse acampamento, nos davam cinco preservativos a cada um ou dois meses, e certamente não eram suficientes", recordou Wol, que hoje trabalha para a agência oficial para o desenvolvimento internacional da Alemanha, a GTZ. A distribuição de preservativo deve ser acompanhada de iniciativas educacionais, disse á IPS nos escritórios da GTZ em Nairóbi. "Os homens recebem preservativos, mas não os usam. É preciso dizer a eles porquê e como usá-los", afirmou.

Quando os modernos métodos anticoncepcionais se chocam com a tradição, esta mensagem deve ser repetida e uma e outra vez, até que as pessoas a tenham dentro de si. "Quando se informa os refugiados das vantagens do planejamento familiar, muitos deles resistem. Dizem que fugiram da guerra deixando filhos perdidos para trás e que devem substituí-los", contou o médico coordenador da GTZ em Dadaab, Burton Wagacha. "Para esses refugiados, a quantidade de filhos realmente não importa", disse Wagacha. Firdoso Salam Adén, refugiada somaliana em Dadaab desde 1998, tem 21 anos e quatro filhos. "Nem eu nem meu marido acreditamos nos métodos de planejamento familiar. Ele já não usa preservativos. Não o questionamos e teremos mais", disse Adén à IPS.

Mas além das idéias conflitivas sobre planejamento familiar, paira sobre os acampamentos o espectro da aids. Wagacha disse á IPS que em Dadaab a proporção de portadores do vírus da deficiência imunológica humana (HIV), causador da aids, aumentou entre 0,5% e 0,7% em 2002 e entre 0,8% e 1,1% este ano. Como estão descobrindo os refugiados, a decisão de usar ou não preservativo diz mais respeito a impedir uma morte prematura do que prevenir uma gravidez indesejável. (IPS/Envolverde)

Joyce Mulama

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