Áreas marinhas protegidas combatem espiral de morte

Uxbridge, Canadá, 17/09/2010 – Os pescadores de Belize, que em 1996 foram contra a criação de uma área protegida que proibia pescar em águas do Parque Nacional Laughing Bird Caye, agora se beneficiam da abundância de peixes e do auge do turismo que essa medida provocou. Os múltiplos benefícios de declarar áreas marinhas protegidas são destacados em uma série de informes apresentados ontem pela organização Conservation International (CI). “O oceano está em crise, mas não podemos ver com nossos próprios olhos, por isso não estamos conscientes do que está ocorrendo”, afirmou Leah Bunce Karrer, coautora e diretora do Programa de Áreas Marinhas Protegidas na CI. “As áreas marinhas protegidas oferecem uma solução que pode reduzir de modo significativo a degradação oceânica, enquanto beneficia as comunidades locais”, ressaltou Leah à IPS.

Um terço de todas as espécies de tubarões, arraias e corais correm o risco de extinção. “A maior parte das pessoas não se dá conta disso. Na medida em que as espécies desaparecem, ecossistemas inteiros sofrem alterações”, disse Gregory Stone, cientista oceânico que trabalha para a CI. Apenas uma fração de 1% dos oceanos está efetivamente protegida, embora haja cada vez mais consenso científico sobre a necessidade de proteger pelo menos 20% dos mares.

Em um esforço por mostrar que proteger partes dos oceanos tem sentido social, econômico e ecológico, a CI analisou estudos de 23 países, principalmente pobres, e concluiu que as áreas marinhas protegidas conseguem aumentar a população de peixes e melhorar os meios de sustento, informou Leah. As áreas marinhas protegidas se definem como zonas oceânicas de múltiplos usos em torno de áreas menores, entre elas áreas onde é proibida a pesca, onde há restrição a determinadas atividades ou outras dedicadas a usos específicos, como o ecoturismo, a pesca comercial ou a recreação.

Quando são protegidas as zonas de arrecifes e mangues se proporciona às comunidades costeiras proteção contra as tempestades. Estas áreas também têm um papel importante na regulação climática, já que os mangues e os pastos marinhos absorvem grandes volumes de dióxido de carbono da atmosfera, disse Leah. Contudo, cada vez que se sugere alguma restrição à pesca, há hostilidade e resistência, em parte devido à errônea crença de que a prodigalidade dos mares é infinita e que essas restrições farão com que alguém fique com os peixes.

Essas atitudes levaram à situação atual, na qual a pesca em excesso está esvaziando os oceanos e destruindo ecossistemas marinhos, matando a galinha dos ovos de ouro. O adequado manejo das reservas pesqueiras poderia ter impedido a desnutrição de quase 20 milhões de pessoas em países pobres e gerado até US$ 36 bilhões a mais com produtos comercializados, segundo uma nova série de estudos econômicos recopilados nos últimos três anos e publicados esta semana em uma edição especial do Journal of Bioeconomics. Estas estimativas refletem que a sobrepesca causa uma espiral de morte na qual cada vez há menos peixe.

Para oferecer uma nova perspectiva, o economista Rashid Sumaila, do Centro de Pesca da Universidade de Columbia Britânica, no Canadá, e seus colegas decidiram investigar qual poderia ser o máximo rendimento dos oceanos em caso de ser praticado um manejo sustentável em seus recursos pesqueiros. Os pesquisadores analisaram as capturas mundiais em 2000 e calcularam que, sem sobrepesca, 20 milhões de pessoas desnutridas poderiam ter ingerido as proteínas vitais que necessitavam. Também determinaram que os peixes capturados em mar aberto proporcionam entre US$ 225 bilhões e US$ 240 bilhões anuais à economia mundial.

O uso que os mergulhadores fazem dos ecossistemas oceânicos, bem como os observadores de baleias e os que se dedicam à pesca esportiva, contribui anualmente com US$ 47 bilhões para as economias nacionais em todo o mundo, gerando quase 1,1 bilhão de postos de trabalho. Estas atividades de impacto relativamente baixo são as de mais rápido crescimento. Por exemplo, o turismo dedicado ao avistamento de baleias aumentou 10% por ano nos últimos anos.

A cada ano, os governos pagam US$ 27 bilhões em subsídios à pesca. A maior parte – US$ 16 bilhões – vai diretamente para a sobrepesca, segundo os estudos. “Estes subsídios são ruins para as existências pesqueiras, maus para a economia, para a segurança alimentar e para o negócio da pesca no longo prazo”, alertou Rashid. Entretanto, isso significa que no sistema há dinheiro que poderia ser destinado ao manejo das reservas pesqueiras de modo sustentável. Manter os bancos de pesca sadios é bom para a economia, mas a pesca excessiva “simplesmente é um mau negócio”, acrescentou.

As comunidades locais são as mais beneficiadas por um adequado manejo de seus recursos marinhos costeiros, concluíram os cientistas da CI em seus estudos, que se centraram em Belize, Brasil, Fiji, Panamá e Equador. Outra descoberta das pesquisas é que as áreas marinhas protegidas podem ajudar a pesca esgotada e os ecossistemas degradados a se recuperarem

Os corais das ilhas Phoenix e Line, no Oceano Pacífico, sofreram um grave descoloramento entre 1997 e 1998. Os cientistas descobriram que as ilhas que estavam melhor protegidas criaram um entorno que permitiu que os arrecifes se regenerassem “com um vigor extraordinário”, segundo o informe. “Assim, a mensagem para as comunidades costeiras é que, se querem ter acesso a esses recursos amanhã, têm de cuidar de seu quintal hoje”, disse Gregory, da CI. Envolverde/IPS

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

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