Nações Unidas, 24/09/2010 – Depois que o presidente Barack Obama apresentou sua tão esperada Política Global de Desenvolvimento na sede da Organização das Nações Unidas, permanecem as dúvidas sobre como será aplicada. “Essencialmente, entendo que: a Política Global de Desenvolvimento representa uma grande e cara vitória”, disse à IPS Noam Unger, diretor de políticas no centro de pesquisa independente Instituição Brookings e especialista em ajuda estrangeira e desenvolvimento. “Agora deve ser executada”, disse. Em seu discurso na Cúpula Mundial dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, no dia 22, Obama disse que ajudar o progresso dos países não é só uma questão moral, mas também essencial para os interesses estratégicos e econômicos de Washington. “Para dizer de forma simples: os Estados Unidos estão mudando a forma de fazer negócios”, disse o mandatário.
Legisladores e líderes da sociedade civil pedem insistentemente uma revisão da estrutura de assistência externa dos Estados Unidos que, com suas cerca de 30 agências, é considerada ineficiente, descoordenada e caduca. Isto se deve, em parte, segundo eles, à falta de uma definida estratégia de Washington. Por isso, a Política Global de Desenvolvimento foi tão bem recebida.
Porém, Obama apenas identificou os pilares do novo plano: ir mais além da ajuda puramente monetária, eliminar em seguida a dependência dessa ajuda, promover o crescimento econômico de ampla base e garantir a responsabilidade mútua. Portanto, cresce a expectativa pela Revisão Quadrienal de Diplomacia e Desenvolvimento do Departamento de Estado, esperada para o próximo mês, que incluirá detalhes da nova estratégia.
“Deixemos para trás o velho e estreito debate sobre quanto dinheiro gastamos e nos concentremos nos resultados, se de fato melhoram a vida das pessoas. Rechacemos o cinismo que diz que certos países estão condenados à pobreza perpétua”, ressaltou Obama.
O economista Jeffrey Sachs, para quem os países pobres estão quase sempre presos em uma “armadilha de pobreza” a menos que recebam substanciais ajudas no contexto de enfoque mais completo de desenvolvimento, lamentou a falta de detalhes no anúncio de Obama. “Houve um pouco de decepção e confusão na sala”, disse à IPS. “A maioria das pessoas coçava a cabeça no final se perguntando o que era o novo, porque tudo parecia propaganda antecipada”, completou.
Entretanto, Jeffrey Sachs, assessor especial sobre ODM do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, reconheceu que a política ainda está em suas etapas iniciais. “Creio que as intenções são boas: garantir que o desenvolvimento tenha um lugar adequado na política externa dos Estados Unidos”, afirmou o economista. Mas “não ouvi muitas inovações”, disse.
A Política Global de Desenvolvimento foi muito elogiada. A organização Save the Children a qualificou de “fórmula ganhadora”, enquanto o presidente da Oxfam America, Raymond Offenheiser, disse que é um “verdadeiro avanço”. Porém, também expressaram dúvidas sobre sua execução.
“Precisamos que Obama explique a forma como converterá suas palavras em ação nas numerosas agências e departamentos”, disse Raymond. “O tripé de defesa, diplomacia e desenvolvimento ainda cambaleia um pouco. Ainda não está claro como Obama pensa equilibrá-lo”, acrescentou, prevendo que “será uma batalha política”.
Um aspecto primordial da nova política é a seletividade: identificar setores que já mostraram resultados favoráveis – Obama mencionou saúde, educação e potencialização das mulheres –, bem como outros promissores. Segundo o discurso do presidente, seriam apoiados países que abrirem o comércio e promoverem as instituições democráticas, além dos que estão saindo de conflitos bélicos.
“O que poderiam fazer é se concentrar nos países impulsionadores do desenvolvimento, os chamados polos de desenvolvimento, para que sirvam de modelo em cada região”, sugeriu Raymond. Nações que são “sítios cinéticos de conflito”, como Afeganistão e Iraque, também poderiam ser tomadas como objetivo, disse à IPS.
E o que ocorre com os países que estão no meio? “O presidente deu no cravo: não podemos fazer tudo em todos os lados e fazer bem”, explicou Noam Unger à IPS, afirmando que é mais efetivo e eficiente se concentrar em áreas onde houver mais probabilidades de êxito. Envolverde/IPS

