Tecido social grego se desfaz

Atenas, Grécia, 29/09/2010 – No centro de Atenas se tornou comum encontrar gente dormindo ou inconsciente nas ruas. Na praça de Omonia, no centro da capital grega, ficam patentes a segregação e deterioração social, desconhecidas há uma década. Uma grande quantidade de imigrantes sem documentos sobrevive com o mínimo. Moças da África ou Europa oriental, e também da Grécia, se prostituem ou são obrigadas a integrar redes organizadas. Também pode ser vistos viciados comprando drogas abertamente. A combinação de grave crise econômica e grande quantidade de imigrantes sem documentos em ordem disparou nos últimos três anos a quantidade de pessoas pobres. A situação se agravou com o progressivo desaparecimento das instituições de assistência social do Estado, que poderiam ter criado uma rede de contenção, se também não tivessem sido prejudicadas pela crise econômica. A deterioração da qualidade de vida se tornou importante tema da campanha para as eleições locais de novembro.

“Não há nenhum mecanismo de apoio para os imigrantes que dele necessitam”, contou Daniel Ezras, diretor do escritório da Organização Internacional para as Migrações (OIM), em Atenas. “Só umas poucas pensões baratas no centro da cidade, que raramente aceitam estrangeiros. As pessoas se ajeitam como podem”, disse. “A crise não só desumanizou os excluídos, como golpeia duro os imigrantes integrados. Os estrangeiros que antes podiam conseguir um trabalho mal pago ou sem seguro agora têm dificuldade para encontrar algo”, acrescentou.

Em poucos meses, a OIM recebeu mais de mil pedidos de repatriação voluntária, e o número está aumentando, disse Daniel. “As pessoas se viram presas em complicações legais e prejudicadas pela crise econômica. Quando descobrem que sua viagem para o Ocidente não foi o que imaginaram, optam por regressar”, acrescentou.

Em maio, a Grécia implementou um rígido plano de ajuste estrutural criado pelo Fundo Monetário Internacional e pela União Europeia (UE), em troca de um pacote de US$ 146 bilhões para evitar que o país caia em cessação de pagamentos. A economia local se deteriora com rapidez. Teve contração de 3,8% este ano e é provável que a tendência continue no próximo.

O Instituto do Trabalho da Confederação Geral dos Trabalhadores Gregos, o maior sindicato do país, alertou que o desemprego afetará mais de 20% da população economicamente ativa em 2011. O desemprego registrado entre pessoas de 15 a 29 anos é de 30,8%, acima da média europeia de 19,8%.

O risco de recessão diminuiu o consumo, o que complica a tarefa do governo, que depende da arrecadação de impostos mais do que do restante das medidas, para alcançar os indicadores previstos no plano do FMI e da UE. O Estado dá o pior de si em uma tentativa de erradicar as irregularidades e melhorar o equilíbrio fiscal.

“Além da redução horizontal de 20% no orçamento de cada Ministério, o que afetou diretamente os benefícios sociais, nos últimos meses, o Estado, cada vez mais agressivo, desfecha duros golpes em um setor sensível da população”, disse Olga Antoniou, trabalhadora social da governamental Organização contra as Drogas.

“Há alguns dias chegou uma notificação oficial para confiscar algo de uma das pessoas do programa onde trabalho, por duas multas não pagas por embarcar no metrô sem passagem. Pode parecer insignificante, mas não o é, no estado de vulnerabilidade dessas pessoas”, afirmou.

“Os viciados em drogas que sofrem de hepatite C recebem uma ajuda de mais de US$ 730 a cada dois meses. Desde maio, é cada vez mais difícil tramitar esse beneficio porque são solicitados mais documentos. Isso faz com que tenham de se arranjar sem recursos por um tempo indefinido”, acrescentou.

Para as pessoas que dependem da ajuda ou socialmente excluídas significa sofrer penúrias porque não é fácil conseguir trabalho. “Para muitos é impossível garantir até sua renda básica com a atual taxa de desemprego”, insistiu Olga.

A ausência das instituições estatais e das organizações de bem-estar social deixa um vazio para oportunistas e aproveitadores. O controle policial no centro da cidade aumentou nos últimos tempos, o que só ressalta a dimensão do problema. Mais de cinco mil pessoas foram detidas entre janeiro e agosto deste ano, a maioria imigrantes sem os documentos em dia.

Foram confiscados mais de 220 mil produtos trazidos da Ásia. A polícia disse que a mercadoria pertencia à máfia organizada, que tem depósitos e conexões em grandes portos, para que imigrantes africanos as vendam nas ruas. Também foram evacuadas e fechadas 60 pensões.

“A classe média não quer reconhecer o que é cada vez mais óbvio no centro de Atenas. De certa forma, reflete o que ocorre no resto da Grécia. Mas, sobretudo, é uma imagem do que se pode esperar com a chegada do duro inverno”, escreveu Nikos Xidakis, em um artigo no jornal Kathimerini. Envolverde/IPS

Apostolis Fotiadis

Apostolis Fotiadis writes for IPS from Athens. He has been covering political issues, particularly migrants’ rights as well as ethnic conflict and population movement in the Balkans. Since 2004, Fotiadis has also written for the national Greek daily Kathimerini and been published in various other regional newspapers. He received his education in history at Aberdeen University and has an interdisciplinary master’s degree in nationalism.

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