Cidade do Cabo, África do Sul, 04/10/2010 – A obesidade já não é um problema confinado às nações ricas. Na África, um crescente número de pessoas também sofre dessa enfermidade. Segundo pesquisas, a tendência vai contra as frágeis economias do continente. Zandile Mchiza, do Conselho de Pesquisa em Ciências Humanas (HSRC), da África do Sul, descobriu que tanto a falta como o excesso de alimentos são evidentes em comunidades pobres africanas, e que os dois fenômenos estão interrelacionados. “A obesidade pode causar todo tipo de doenças crônicas, como diabetes, hipertensão, artrite, problemas cardíacos e vários tipos de câncer. Isto pode ter diversas implicações nas economias dos países”, explicou Zandile. A especialista liderou um projeto que estudou o alcance do problema da obesidade na África.
“Um trabalhador agrícola obeso não será tão produtivo como um com nível de peso saudável. Essa pessoa não será capaz de se deslocar por longas distâncias ou ficar parado em um lugar por um período longo de tempo enquanto faz suas tarefas. A falta de produtividade devido à obesidade pode, portanto, prejudicar a economia de um país”, disse Zandile.
A enfermidade também pode causar falta no trabalho, acrescentou a especialista. “Se alguém é obeso, provavelmente irá ao médico mais vezes em comparação com as pessoas sãs, especialmente se sofrer de doenças relacionadas. Isto também afeta a produtividade, e afetará a economia se ocorrer em grande escala”, ressaltou.
Para determinar se alguém é obeso ou tem sobrepeso utiliza-se o índice de massa corporal (IMC), que é calculado dividindo o peso, em quilograma, de uma pessoa por sua altura, em metros, ao quadrado. Uma pessoa tem sobrepeso quando seu IMC passa de 30. Uma alta prevalência da obesidade pode exercer pressão extra sobre os já sobrecarregados sistemas de saúde pública do continente, alertou Zandile. Muitas nações africanas sofrem escassez de pessoal médico e dinheiro para hospitais e clínicas.
“Se mais pessoas usarem o sistema sobrecarregado de saúde por problemas relacionados com obesidade, os governos poderiam ser forçados a gastar mais em tratamentos de doenças para as quais há prevenção. Isto poderia levar a ter menos dinheiro para moradias, educação e outras prioridades”, segundo Zandile.
Não se sabe exatamente o número de africanos obesos, já que não são feitas muitas pesquisas a respeito. “A maior parte da informação existente tem a ver com a situação da África do Sul. Isto se deve à boa qualidade da infraestrutura das comunicações e da tecnologia desse país, e como se organizam os diferentes departamentos do governo”, disse.
“Este não é o caso da maioria dos outros países, onde é difícil obter informação sobre obesidade”, disse Zandile. Sua pesquisa, feita em 2008 e 2009, se baseou principalmente em uma revisão das pesquisas sobre demografia e saúde nos países africanos publicadas entre 2003 e 2007. Zandile descobriu que a obesidade é mais comum entre as mulheres e as adolescentes. “São muito mais vulneráveis a serem obesas, já que os corpos grandes são associados com a beleza e com o status em muitas culturas africanas”, explicou.
Segundo a informação disponível, o Egito é o país africano com maior problema de obesidade (35,7% das mulheres adultas), seguido por África do Sul (27,4%), Suazilândia (23,1%), Mauritânia (16,4%), Lesoto (16,1%) e Namíbia (11,7%). Mais abaixo aparecem Gana (9,3%), República do Congo (7,5%) e Zimbábue (7,2%).
Os crescentes níveis de obesidade têm a ver, em parte, com a mudança dos padrões de vida diante da influência da cultura ocidental, como a opção pela chamada “comida rápida” em lugar dos pratos tradicionais. Os preços dos alimentos também são fator importante. “Um prato de batata frita é, em geral, mais barato do que uma refeição equilibrada”, disse Zandile. “Os africanos se afastam das dietas tradicionais para se dedicar aos alimentos de conveniência (de fácil preparo) e ao fast food”.
Um dos países onde a obesidade é um problema, apesar de não estar na lista de Zandile, é Botsuana. Segundo estudo da Universidade de Botsuana, cerca de 20,3% dos adolescentes do país, entre 11 e 19 anos, são obesos ou têm sobrepeso. “Cerca de 21,5% dos estudantes classificados como obesos ou com sobrepeso eram mulheres”, disse Segametsi Maruapula, conferencista no Departamento de Educação na Economia do Lar da Universidade e diretora da pesquisa. “Apenas 18% eram homens”, acrescentou.
A indústria alimentícia é parcialmente responsável pelo problema em Botsuana, explicou Segametsi. “Hoje, as pessoas comem alimentos mais refinados, ricos em gordura e açúcar. Não falamos apenas de fast food, como hambúrguer e cachorro-quente, mas também de salgadinhos e alimentos comprados em lojas de conveniência”. “Metade dos jovens que entrevistamos disseram que consumiam esse tipo de comida regularmente. Cerca de 26% afirmaram que a comiam uma vez por dia e 18% uma vez por semana. O problema com esses alimentos e os de conveniência é que são muito acessíveis, divulgados e baratos”, acrescentou.
Segametsi disse que a indústria do fast food deveria assumir a responsabilidade pela esmagadora obesidade na força trabalhista. “A indústria precisa trabalhar mais de perto com profissionais da saúde para ver como fazer com que seus produtos sejam mais saudáveis”, disse. “A saúde não é apenas uma tarefa para trabalhadores do setor. Também é responsabilidade da indústria alimentícia”, afirmou. Zandile reconheceu que a comida fast food é um fator do problema, mas não o único. “É o consumidor que escolhe. Empresas como o McDonald’s apresentam novos produtos mais saudáveis, mas muitas pessoas preferem os mais gordurosos”, afirmou. Envolverde/IPS

