Convenção contra bombas de fragmentação não seduz os Estados Unidos

Bangcoc, Tailândia, 04/11/2010 – A campanha mundial para eliminar as munições de fragmentação não consegue convencer os Estados Unidos, um dos maiores fabricantes desses explosivos, às vésperas de uma importante conferência no Laos. A paradoxal postura de Washington sobre o assunto, sem dúvida, incidirá na reunião, que acontecerá de 9 a 12 deste mês neste país do sudeste asiático, que ainda sofre com o legado das bombas lançadas por aviões de guerra norte-americanos há quatro décadas. Até agora, parece improvável que os Estados Unidos enviem uma representação para participar como observador.

“Esperamos que enviem uma delegação ainda que seja no último momento”, disse Thomas Nash, coordenador da Coalizão contra as Munições de Fragmentação (CMC, sigla em inglês), uma rede mundial de grupos da sociedade civil. A CMC promove a adesão universal e a completa implementação da Convenção sobre Munições de Fragmentação, que entrou em vigor dia 1º de agosto deste ano. “Washington está sabendo do problema no Laos”, disse Nash à IPS, às vésperas da primeira conferência que faz um acompanhamento do pacto.

As bombas de fragmentação são formadas por um recipiente contendo centenas de pequenas munições, que têm uma imprecisão inaceitável e são pouco confiáveis, segundo seus críticos. Uma vez lançadas por aviões, veículos terrestres ou marítimos, explodem e as munições se dispersam, antes de atingir o solo, sobre grandes áreas, que chegam a centenas de hectares. Entre 5% e 30% não explodem imediatamente, ficando dispersas no chão ou enterradas.

Até 2007, cerca de 5.500 pessoas morreram e 7.300 ficaram feridas por causa dos fragmentos que permaneceram ativos, segundo dados oficiais. Contudo, estima-se que a quantidade real de vítimas seja muito maior. Quase todas as que foram confirmadas eram de civis. Espera-se que a reunião inaugural dos estados partes em Vientián, capital do Laos, conte com a presença de delegados de mais de cem países e ativistas de quase 400 organizações não governamentais (ONGs).

A ausência norte-americana não surpreende à luz da distância no que diz respeito ao assunto. “Os Estados Unidos não participaram diretamente, nem como observadores, no Processo de Oslo em 2007e 2008 que deu origem à Convenção”, disse o “Monitor sobre Munições de Fragmentação 2010”, informe divulgado em Bangcoc às vésperas do encontro.

Washington “não participou do trabalho da Convenção em 2009 e 2010, nem da Conferência de Berlim sobre a Destruição de Munições de Fragmentação em junho de 2009”, acrescenta o documento, de 286 páginas, que procura acompanhar de perto a proibição de fabricar, comercializar, armazenar e usar tais artefatos, bem como seu impacto. Embora não seja signatário deste tratado de desarmamento, os Estados Unidos apoiam uma série de programas humanitários para eliminar o legado das bombas de fragmentação, segundo diversas ONGs.

Washington destina US$ 2 milhões por ano a iniciativas para eliminar as bombas de fragmentação, e o próprio Laos recebeu essa ajuda em meados dos anos 1990. “Os Estados Unidos são o maior contribuinte para eliminar as munições de fragmentação no Laos”, reconheceu o diretor-executivo da divisão de armas da organização Human Rights Watch, Stephen Goose. O governo de Barack Obama “insiste em usar as armas, mas também gasta dinheiro para limpar o estrago que causam”, afirmou.

Este paradoxo cria problemas para os Estados Unidos, disse Stephen, que também é editor do Monitor sobre Munições de Fragmentação 2010. “A maioria dos seus aliados na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) é parte da Convenção, e é proibido ajudar os Estados Unidos” manterem ou transportarem essas armas, explicou. Isto significa que os aliados militares europeus de Washington “não podem ajudar a abastecer com combustível caminhões ou aviões que transportem essas bombas”, acrescentou.

Contudo, os Estados Unidos não são os únicos produtores e possuidores dessas armas a não assinar a Convenção, que até agora foi assinada por 108 nações. China, Índia, Paquistão, Israel e Rússia estão entre os maiores fabricantes que ainda não apoiam o pacto.

O Laos está na vanguarda desta campanha e foi o primeiro na Ásia a ratificar a Convenção. Funcionários governamentais laosianos esperam que a Convenção ajude a atrair mais ratificações do sudeste asiático, uma das regiões mais afetadas pelas bombas de fragmentação devido às décadas de intervenções norte-americanas. Durante a guerra do Vietnã (1965-1975), os Estados Unidos lançaram mais de dois milhões de toneladas de bombas sobre o Laos. Isto, segundo a Organização das Nações Unidas, supera a quantidade de explosivos lançados sobre a Europa durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Envolverde/IPS

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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