Lisboa, 28/06/2005 – Os meios de comunicação dedicados à juventude podem ajudar a detectar, monitorar e responder às tendências emergentes no consumo de drogas nessa faixa etária, diz um informe apresentado na União Européia. Na indústria de revistas, a chamada imprensa jovem é um negócio rentável. Editores e publicitários "apostam na pesquisa com o propósito de conhecer a fundo seus leitores e elaboram os produtos para que reflitam os interesses, estilos de vida e modas de seu público", diz o estudo do Observatório Europeu da Droga e da Tóxico-Dependência (OEDT).
Porta-vozes desse organismo da União Européia com sede em Lisboa citam os meios de comunicação dedicados à juventude como possíveis fontes de informação sobre novos "modismos" em termos de substâncias narcóticas e destacam seu potencial como forma de prevenção de danos relacionados ao consumo de drogas entre os jovens. Devido à natureza "clandestina" do consumo dessas substâncias ilícitas, existe normalmente um lapso entre o surgimento de uma nova tendência em seu uso e a produção e divulgação de dados (consolidados) sobre essa droga, diz o informe apresentado domingo, por ocasião do Dia Internacional da Luta Contar o Uso Indevido e o Tráfico Ilícito de Drogas.
No parágrafo seguinte, admite-se que freqüentemente, em alguns países, a "imprensa jovem" percebe as novas tendências de consumo de droga "muito antes de os analistas começarem a divulgar dados". Cita como exemplo os primeiros relatos sobre o uso de ecstasy (droga sintética que produz alucinações) em ambiente recreativos e de danças, inicialmente publicados, em meados dos anos 80/90, por jornalistas que trabalhavam para revistas dedicadas à juventude, à música e a estilos de vida. Entretanto, foi somente na década seguinte que "as agências de informação sobre droga iniciaram a coleta e divulgação de dados sobre essa sustância", afirma o estudo.
A esse respeito, o diretor-executivo do OEDT, Wolfgang Goetz, garante que "a novidade e os estilos de vida são tão importantes para compreender os padrões de consumo de drogas ilícitas quanto o são para a investigação sobre os consumidores em geral. As revistas para jovens que contêm referências a drogas ou ao álcool podem revelar muito sobre os hábitos de consumo destas substâncias entre a juventude e completar o quadro que elaboramos a partir de fontes de rotina", ressaltou Goetz. A pesquisa o OEDT inclui cinco Estados-membros da UE, Finlândia, Grã-Bretanha, Grécia, Irlanda e Portugal, e está centrada em revistas de grande circulação destinadas ao público jovem, entre os 13 e 30 anos, que gosta de sair e se divertir e é interessado em modismos, analisando atitudes diante de diferentes drogas e o contexto e local de consumo.
A análise inclui um total de 1.763 referências textuais e visuais (como imagens de uma folha de maconha em uma camiseta) a drogas provenientes de 26 publicações diferentes. O relatório inclui entre seus resultados mais notórios o destaque para a forma muito negativa com que são apresentados a heroína e o crack, enquanto esta percepção muda quando se trata de outras drogas, mais usadas pelos jovens, apresentando nestes casos tanto benefícios quanto os riscos. O relaxamento, a diversão e o aumento da energia física são indicados pelo estudo como as referências mais positivas, enquanto entre as negativas se destacam os graves riscos físicos e psicológicos do consumo de drogas.
O ecstasy é a droga mais mencionada no tocante ao grave perigo físico e a maconha a mais citada em relação ao dano psicológico, seguido pelo álcool e pela cocaína. Na análise das revistas juvenis dos cinco países escolhidos, em geral as drogas representam 19% de todas as referências. As duas mencionadas com maior freqüência são maconha, com 17% de todas as drogas citadas, e o ecstasy, com 13% o que, segundo estudos do OEDT, sugere que "estas são as substâncias que mais despertam o interesse dos jovens leitores". A cocaína representa 9% de todas as referências, a heroína e outros derivados do ópio 8%, os alucinógenos 5% e a gama-hidroxibuitirato (GHB) 2%.
No entanto, 10% das menções diziam respeito à combinação com álcool e 17% resultam da soma de pequenas quantidades de outras drogas, como anfetaminas e tranqüilizantes. Nas revistas sujeitas a análise, as referências a drogas aparecem de maneira regular ao longo do ano, mas é registrado um aumento significativo em julho, quando se intensifica a vida social dos jovens por causa do início do período de férias no hemisfério Norte. Estes resultados são corroborados pelas estimativas que prevalecem na estatística contida no informe anual de 2003 sobre a evolução do fenômeno da droga na UE e na Noruega (http://annualreport.emcdda.eu.int).
A grande maioria das menções a drogas surge nestas revistas através de relatos na forma de reportagens e entrevistas, incluindo declarações de celebridades do mundo da música, levando o OEDT a ressaltar sua preocupação sobre "a potencia influência que músicos e outras celebridades, que expressam opiniões positivas sobre drogas, podem exercer sobre os jovens". Entretanto, esta preocupação se reduz quando o estudo conclui que somente 10% das referências eram opiniões de músicos famosos. Mais da metade dos artigos com menções a droga eram de repórteres, 9% de peritos como médicos e pesquisadores científicos e 6% tinham origem entre os próprios jovens.
Alguns dos editores entrevistados para o estudo se mostraram convencidos de que suas revistas desempenham um papel na redução de danos, ao fornecer informação equilibrada sobre drogas. Em geral, não duvidam que suas publicações, mais do que moldar os leitores, refletem seus interesses. O OEDT conclui que as publicações para jovens constituem uma fonte de informação útil e de baixo custo para monitoração e compreensão das tendências do consumo de drogas entre círculos de leitores definidos, ao refletir estilos de vida que revelam mais do que as estatísticas oficiais sobre o comportamento e as atitudes dos jovens nesse âmbito.
Por esse motivo, "estas revistas poderiam ser aproveitadas para ajudar a preparar estratégias de resposta ao problema da dependência de drogas", diz o informe. Segundo Goetz, "fica bastante claro que os meios de comunicação dedicados aos jovens ajudam a entender seus estilos de vida, mas, ainda não há certezas sobre como podem, realmente, influenciar seu comportamento". Por essa razão, o diretor do OEDT recomenda no futuro um aprofundamento do estudo para determinar "como se pode trabalhar construtivamente com os editores no sentido de explorar o papel da imprensa voltada aos jovens como uma maneira de transmitir informação factual sobre drogas aos seus leitores". (IPS/Envolverde)

