Irã: Os conservadores se reinventam

Teerã, 28/06/2005 – A surpreendente vitória eleitoral no Irã do ultraconservador Mahmoud Ahmadinedjad faz com que seus críticos temam pelo fim do esboço de liberdade social surgido nos últimos oito anos, sob a presidência do reformista Mohamad Khatami. Depois de seu triunfo na sexta-feira, com quase 62% dos votos, muitos advertiram que Ahmadinedjad, um engenheiro laico de 49 anos desconhecido do público até chegar à prefeitura de Teerã, em 2003, levará a República Islâmica à radicalização, com sua pregação de rígido respeito aos valores islâmicos e às suas manifestações de intransigência em relação ao Ocidente.

Filho de um ferreiro e ex-membro da Guarda Revolucionária (o exército ideológico dos aiatolás que tomaram o poder na Revolução Islâmica de 1979), Ahmadinedjad surpreendeu o Irã e o mundo ao derrotar o moderado Akbar Hashemi Rafasanjani, uma figura do "establishment" apoiada pelos Estados Unidos, para transformar-se no novo Presidente deste país de 68 milhões de habitantes. Com a promessa "de combater a corrupção, a pobreza e a discriminação", Ahmadinedjad atraiu milhões de jovens desempregados e trabalhadores mal remunerados, embora alguns analistas alertassem que suas promessas encobriam a intenção dos radicais islâmicos de recuperar a presidência e consolidar o controle de todas as instituições eletivas e não-eletivas do país.

De todo modo, Ahmadinedjad derrotou o pragmático Rafsanjani, de 72 anos, um firme candidato que havia vencido o primeiro turno por estreita margem e pretendia recuperar o cargo que ocupou entre 1989 e 1997 apresentando-se como um liberal, promovendo um novo capítulo nas relações com os Estados Unidos e prometendo mais liberdades políticas e sociais. A campanha "Rafsanjani, versão 2005" tinha o estilo colorido das campanhas presidenciais norte-americanas. Seus educados partidários variavam da classe média até a alta e pretendiam maior liberdade cultural e vínculos mais fortes com o Ocidente.

Rafsanjani deu ênfase no reinício dos vínculos com Washington (rompidos depois da Revolução Islâmica de 1979), em particular para resolver a disputa a respeito do programa nucelar iraniano, e nos códigos de vestimenta e permissividade na sociedade em geral. Em contraste, a campanha de Ahmadinedjad foi manejada por voluntários, inclusive milícias "basij", professores e funcionários públicos. Suas palavras de ordem escritas dominavam os bairros pobres do centro e do sul de Teerã. Depois do primeiro turno, Rafsanjani atacou seu oponente conservador qualificando-o de "fanático, atrasado e hostil ao Ocidente", e ainda acusando-o de manipular a mente dos pobres.

O grupo de Ahmadinedjad respondia que Rafsanjani se valia de atores e intelectuais para conseguir seu objetivo e prometia "combater a máfia arraigada na elite governante". Em sua primeira declaração pública, Ahmadinedjad disse, no domingo, que seu país será um exemplo para o mundo islâmico e buscará estabelecer um modelo "moderno, avançado e islâmico" em relação com o mundo. Por outro lado, declarou que o Irã "não necessita realmente" de estabelecer relações com os Estados Unidos e reivindicou o direito de seu país desenvolver energia nuclear "com fins pacíficos". O Irã "segue o caminho do progresso e do desenvolvimento e não precisa de fato dos Estados Unidos", afirmou em entrevista coletiva.

O secretário norte-americano da Defesa, Donald Rumsfeld, replicou afirmando que o presidente eleito do Irã "não é amigo da democracia e das liberdades. Não sei muito sobre esse homem… Certamente, não é um amigo da democracia e da liberdade. Apóia com força os aiatolás e diz às pessoas como têm de viver", disse Rumsfeld sobre Ahmadinedjad. Intelectuais laicos e ativistas políticos pró-ocidentais acreditam que o calcanhar de Aquiles do presidente eleito é sua versão radical do Islã. Mas Shirin Ebadi, ativista dos direitos humanos e ganhadora do prêmio Nobel da Paz em 2003, e Shahla Lahiji, editora de livros sobre as mulheres iranianas, afirmaram em entrevistas a imprensa britânica e japonesa que o povo iraniano não permitirá a reversão das liberdades conquistadas, não importando que ocupa a Presidência.

"Um grupo de mulheres anunciou há 10 dias, em uma manifestação diante da Universidade de Teerã, que manterão sua luta por seus direitos, sem importar o presidente eleito. Depois de tudo, segundo a Constituição, o presidente não é um tomador de decisões com poder", recordou Ebadi. Outros críticos advertem que já não será valida a imagem de "reformistas versus conservadores" da sociedade iraniana e que surgirão novas facções. (IPS/Envolverde)

Saloumeh Peyman

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