Moradores do Golfo do México com sinais de intoxicação

Orange Beach, Estados Unidos, 17/11/2010 – Cada vez é maior o número de pessoas doentes na costa norte-americana do Golfo do México devido ao vazamento de petróleo da Britsh Petroleum (BP), que usou dispersantes tóxicos para enfrentar o desastre.

Crianças na praia de Orange Beach, no Estado norte-americano do Alabama. - Erika Blumenfeld/IPS

Crianças na praia de Orange Beach, no Estado norte-americano do Alabama. - Erika Blumenfeld/IPS

“Tenho um dolorosa urticária na altura do estômago”, disse à IPS Denise Rednour, de Long Beach, no Estado do Mississippi. “Parece que sangra por dentro”, acrescentou.

Denise vive perto da praia, por onde caminha quase diariamente desde que explodiu a plataforma petroleira da BP, no dia 20 de abril. Segundo ela, há cada vez menos animais silvestres e, em muitos dias, o cheiro de produtos químicos inunda o ar. Seus atuais problemas de saúde se juntam aos que padece há meses, como dor de cabeça, dificuldades respiratórias, resfriado, náuseas e hemorragia nos ouvidos.

Para enfrentar o vazamento de pelo menos 4,9 milhões de barris de petróleo, a BP reconheceu que usou 7,18 milhões de litros do solvente Corexit, proibido em 19 países, para degradar o petróleo. Os dispersantes contêm químicos que, segundo muitos cientistas e toxicologistas, são perigosos para a saúde humana, a vida marinha e a silvestre.

“As graves consequências neurotóxicas da exposição a solventes orgânicos sobre trabalhadores e animais de laboratório são narcose, anestesia, depressão do sistema nervoso central, dificuldades respiratórias, inconsciência e morte”, diz o estudo “Neurotoxidade do solvente orgânico”, divulgado em março de 1987 pelo Instituto Nacional de Saúde e Segurança Ocupacional. Vários compostos químicos que figuram no documento, como estireno, tolueno e xileno estão presentes no Golfo do México.

“Doem todos os meus músculos”, disse à IPS a capitã Lori DeAngelis, que costuma comandar excursões para avistamento de golfinhos em Orange Beach, no Estado do Alabama. “Quando subo escadas, tenho espasmos musculares. Tusso, a garganta coça o tempo todo, e tenho a voz rouca”, acrescentou. “Além disso, esqueço muitas coisas importantes. Tenho de andar com lápis e papel e escrever tudo para não esquecer”, prosseguiu.

A química Wilma Subra analisou, em outubro, o sangue de oito pessoas que vivem e trabalham na faixa costeira buscando sinais voláteis de solventes. “As três mulheres e os cinco homens tinham etilbenzeno e m,p-xileno no sangue”, diz o relatório de Wilma. “São substâncias químicas orgânicas voláteis presentes no petróleo da BP”, explicou.

Problemas de saúde como os de Lori e Denise são comuns agora no Golfo do México, do Estado da Louisiana ao da Flórida. “No começo de setembro, o governo local deu luz verde para que os surfistas voltassem à água”, disse à IPS o diretor da Associação Oriental de Surfistas, Chuck Barnes, responsável por organizar competições esportivas. “Contudo, em seguida, muitos começaram a ter dores de cabeça e problemas nas vias respiratórias, entre outros. Então, decidi que era necessário analisar a água”, contou.

As análises feitas na água da área de Orange Beach mostraram que estava tudo contaminado, disse Chuck. “Preocupa o fato de todos darem luz verde e ninguém fazer uma análise honesta da qualidade da água. Transformaram o Golfo do México em um experimento científico. Somos observados com lupa e esperam para ver o que nos acontece”, acrescentou.

“Agora tenho uma nova urticária no peito, depois das bolhas que me deixou o anterior. Fiz um exame em Pensacola, na Flórida, e descobriram que tinha seis dos nove produtos químicos utilizados pela BP”, contou Jose Overstreet, comerciante da localidade de Fairhop, no Alabama. Jose, que trabalhou para a equipe de resposta ao desastre da BP, também fez um exame de sangue. “Quase todas as noites tomo um analgésico para acordar sem dor de cabeça. Há pouco começou a me incomodar o lado direito e sinto dores muito fortes. Quando a dor chega tenho de parar com tudo que estou fazendo. Isso acontece diariamente”, acrescentou.

Acostumado a trabalhar com substâncias perigosas, Jose disse que ele e seus vizinhos “podem sentir o cheiro do benzeno que chega à baía. Trabalhei na praia e quando a maré estava baixa podíamos sentir o aroma das ameijoas. Costumavam ser brancas, e agora são negras”, contou. “Ninguém parece dar atenção ao que está ocorrendo. Vivi aqui toda minha vida e sei que as coisas não estão certas”, acrescentou. A falta de respostas por parte das autoridades locais o deixa desconcertado.

Lori se preocupa com os golfinhos e a população costeira. “É devastador”, disse. “Minha identidade depende de ser a capitã Lori, mas não sei se poderei voltar à água e cuidar de meus bebês. Ninguém nos diz o que acontece. Não sei como descrever. É o pior que o governo pode fazer com a gente”, acrescentou. Envolverde/IPS

Dahr Jamail

Dahr Jamail is the IPS lead writer on Iraq. In that capacity he has covered Iraq directly and extensively on the ground, and at other times organised reporting out of Iraq. Several of his breaking news stories could not be covered by any other media organisations. Jamail is author of the eye-opening book ‘Beyond the Green Zone: Dispatches from an Unembedded Journalist in Occupied Iraq’. Besides reporting from within Iraq for eight months, he has been covering the Middle East for five years. A regular correspondent for IPS, Jamail has also contributed to The Independent, The Guardian, the Sunday Herald, and Foreign Policy in Focus, among others. His reporting has been translated into French, Polish, German, Dutch, Spanish, Japanese, Portuguese, Chinese, Arabic and Turkish.

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