Caracas, Venezuela, 17/11/2010 – Pontes, ferrovias, petroquímicas, siderurgia, eletricidade, aquedutos, agricultura, frigoríficos, estaleiros e até teleféricos: o potente braço empresarial brasileiro avança para o Caribe através da Venezuela, cujo governo se empenha em construir o que chama de socialismo do Século 21.
Historicamente, a Venezuela vincula a construção de infraestrutura a suas exportações de petróleo. O ciclo de altos preços internacionais do setor nesta década encontrou seu poderoso vizinho do Sul em condições vantajosas de oferecer serviços de engenharia e associações para a indústria pesada e o comércio.
“Há um interesse de empresas brasileiras por aproveitar o parque industrial e o mercado venezuelano, por adquirir empresas ou associar-se a elas, ao se apresentar como uma grande área de negócios o Norte de seu país, Venezuela e Caribe”, disse Fernando. Uma característica desta presença é que estas companhias não são tocadas pelo processo de estatização iniciado em 2007 pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez.
Essa política se aprofundou este ano com a estatização de 220 empresas, estrangeiras e venezuelanas, inclusive em setores onde também atuam como protagonistas as companhias brasileiras, como siderurgia, construção e química. Jornalistas que no dia 26 de maio de 2009 acompanhavam em Salvador, no Estado da Bahia, um encontro entre Chávez e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ouviram, quando ficaram abertos acidentalmente os microfones de uma reunião privada, o mandatário venezuelano dizer: “Estamos em uma fase de nacionalização de empresas, menos as brasileiras”.
Em tom de brincadeira, Chávez admitiu que pediu ao empresário brasileiro Emilio Odebrecht que aderisse à causa socialista. “Tentei conversar com don Emilio para que seguisse o socialismo. Ele riu e me disse que não”, contou o governante. Mas a Odebrecht conduz na Venezuela pelo menos 15 grandes obras de infraestrutura, no valor de milhares de milhões de dólares, e, “com Chávez ou sem ele, aqui tem trabalho para no mínimo dez anos”, disse à IPS o empresário venezuelano Luis Berlioz, da Comopa, empresa que trabalha com a brasileira em produtos de concreto.
A obra mais visível e emblemática é a segunda ponte rodoviária sobre o Rio Orenoco, de pouco mais de três quilômetros de comprimento, que com suas ligações e acessos foi construída entre 2001 e 2006, ao custo de US$ 1,28 bilhão. Só a ponte custou US$ 886 milhões, embora a estimativa original fosse US$ 480 milhões. Esta ponte beneficia dois milhões de habitantes no sudeste venezuelano e, por sua localização junto a Ciudad Guayana, cidade industrial a 500 quilômetros de Caracas, é o entroncamento para a conexão viária entre os dois países com portos do Caribe no nordeste da Venezuela.
Em milhões pode-se também contar os usuários de outras obras das quais a Odebrecht participa, como a represa Tocoma, com custo de US$ 3 bilhões que quando estiver concluída, em meados desta década, agregará dois mil megawatts aos quase 14 mil que já dispõe o sistema hidrelétrico do baixo Caroní, o sudeste venezuelano.
A Odebrecht constroi também linhas do metrô em Caracas e cidades vizinhas, o sistema combinado de trens subterrâneos e ônibus, bem como infraestrutura para tratamento de água a leste da capital e para a cidade de Maracaíbo, e o Metrocable (teleféricos) para bairros em colinas de Caracas. Também está encarregada de construir 11 mil moradias no sudeste, uma usina petroquímica, molhes e uma terceira ponte sobre o Orenoco.
“Uma característica da Odebrecht, que deixa bons resultados para a Venezuela, é sua exigência em questões como solvência de seus contratistas ou segurança para seus operários. E é difícil ajustar orçamentos quando há atraso no fornecimento de materiais ou lidar com até dez sindicatos, frequentemente rivais entre si”, segundo Luis.
A Camargo Correa, outra construtora, executa obras no Rio Tuy, que fornece água a Caracas, por US$ 476 milhões, parte de um projeto para saneamento hídrico e aumento da capacidade dos aquedutos. No Estado de Zulia, a brasileira Gerdau opera desde 2007 a siderúrgica Sizuca, que produz 300 mil toneladas anuais de aço cru e 200 mil toneladas de laminados, e a química Oxiteno tem ali uma usina de tensoativos, que são insumos para detergentes, cosméticos, pinturas e têxteis.
Na mesma área, a estatal Corpozulia, que explora minas de carvão, assinou com a brasileira Vale um convênio de exploração de mais minas na serra de Perijá, que é reivindicada como habitat por quatro etnias indígenas, e entre elas várias comunidades são contra o prosseguimento da exploração mineira.
Enquanto a presença brasileira se mostra em guindastes e concreto armado, o comércio bilateral floresce e, ao contrário do ocorrido nas últimas décadas do Século 20, a balança favorece esse país, cada vez menos dependente do petróleo importado e transformado em grande fornecedor dos alimentos consumidos na Venezuela. Em1999, o comércio bilateral foi de US$ 1,511 bilhão, dos quais US$ 974 milhões foram vendas venezuelanas. Em 2009, as exportações brasileiras foram de US$ 3,61 bilhões e suas importações da Venezuela de apenas US$ 581 milhões.
“Para este ano, a tendência se manterá, com cerca de US$ 600 milhões em exportações da Venezuela e US$ 3,5 bilhões do Brasil disse à IPS o chefe de promoção comercial na Legação brasileira, Carlos Santana. Os produtos que a Venezuela mais importa são carnes bovina e de frango, açúcar, telefone celular, pneus e peças de automóveis, óleo de soja, café e leite. O que o Brasil mais compra são insumos para petroquímica, coque, hulha e eletricidade (US$ 31,5 milhões em 2009), através de uma rede de linhas desde as represas do Rio Caroní.
No entanto, nem sempre tudo corre bem. A crise global, desatada nos Estados Unidos em 2008, levou a petroquímica Braskem a reformular a Propilsur, uma usina para produzir 450 milhões de toneladas anuais de polipropileno, que é construída no leste venezuelano, e na qual o Brasil já não investirá US$ 1 bilhão, mas US$ 500 milhões.
Do seu lado, a estatal Petroleos de Venezuela se viu em apuros para dar os 40% que lhe cabem no projeto da refinaria “Abreu e Lima”, no Nordeste brasileiro, com custo estimado de US$ 4 bilhões, que poderia refinar diariamente 230 mil barris de petróleo, principalmente venezuelano. Sua contraparte, a Petrobras, que captou em mercados internacionais US$ 70 bilhões para seus planos de expansão, desenvolve apenas os trabalhos de construção da refinaria, desde 2009.
Na Venezuela, “cerca de 36 projetos envolvendo empresas brasileiras estão à espera de melhores condições, como fluidez nos recursos ou que o país ingresse no Mercosul”, disse Fernando. A entrada no Mercosul, formado por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, como membro pleno – que aguarda a aprovação do parlamento paraguaio – “simplificaria os processos aduaneiros para mais comércio e daria maior segurança jurídica, permitindo a entrada de mais empresas brasileiras”, acrescentou. IPS/Envolverde


