Washington, Estados Unidos, 26/11/2010 – A última coisa que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, precisava, três semanas depois de o opositor Partido Republicano vencer nas eleições legislativas, era um agravamento da crise na península coreana. A revelação de que a Coreia do Norte conseguiu construir uma instalação de enriquecimento de urânio capaz de fabricar armas nucleares, e o bombardeio norte-coreano contra uma ilha da Coreia do Sul esta semana, que matou dois soldados e dois civis, catapultou Pyongyang para o topo da já sobrecarregada agenda de Washington em matéria de política externa.
O bombardeio, respondido pelas forças sul-coreanas, aumentou as tensões na península ao seu máximo nível em décadas, talvez desde o próprio fim da Guerra da Coreia, há mais de 50 anos. Esta crise também pode complicar as delicadas relações entre Estados Unidos e China. Pequim é vista em Washington como única aliada da Coreia do Norte, cujo apoio econômico e diplomático é o que mantém a dinastia Kin governando os norte-coreanos.
A China teme, há tempos, que um colapso do regime de Kim Jong II derive em um caos e provoque o deslocamento de milhões de norte-coreanos para seu território, bem como uma possível intervenção sul-coreana ou norte-americana a poucos metros de sua fronteira.
O anúncio feito por Washington, no dia 24, de que enviava seu porta-aviões USS George Washington para participar de operações militares conjuntas perto da costa norte-coreana a partir deste fim de semana, sem dúvida, aumenta a preocupação em Pequim e Pyongyang, sobretudo considerando a sensibilidade chinesa dos últimos meses em relação a certas reclamações territoriais, incluindo uma sobre o Mar Amarelo.
O envio do porta-aviões tem o objetivo de demonstrar solidariedade com a Coreia do Sul, e também pode ser visto como uma provocação à China. Segundo analistas em Washington, os exercícios podem ser presságio de um fortalecimento da capacidade militar dos Estados Unidos na região, com mais de 25 mil soldados estacionados na Coreia do Sul neste momento.
“Imagino que nas próximas semanas e nos próximos meses se verá maior presença norte-americana”, disse o analista Alan Romberg, do Stimson Center, ex-conselheiro sobre Ásia oriental no Departamento de Estado norte-americano. “Os chineses não vão gostar. Veem isso como algo dirigido contra eles. Mas isto é parte do custo de deixar a Coreia do Norte seguir adiante e agir com o que consideramos impunidade”, afirmou. Por seu lado, o porta-voz do Departamento de Estado, P. J. Crowley, disse que “esperamos que a China seja clara, como nós, em determinar sobre quem recai a responsabilidade pela atual situação, pela atual tensão”.
Os acontecimentos dos últimos dias complicaram a agenda de Obama, cuja política externa se concentra em conseguir a ratificação no Senado do novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas com a Rússia até o final do ano. Além disso, sua administração realiza uma grande revisão da estratégia no Afeganistão e se prepara para a visita de seu colega chinês, Hu Jintao, em janeiro, na qual, sem dúvida, a Coreia do Norte será um dos mais importantes temas a serem discutidos, bem como a “guerra de divisas”.
Os “falcões” (ala mais belicista) em Washington exigem que, tanto os Estados Unidos como a Organização das Nações Unidas, adotem sanções contra Pyongyang. Também propõem que o governo de Obama faça demonstração de seu poder militar perto da fronteira norte-coreana, aumente as transmissões via satélite para esse país a fim de promover o descontentamento popular e redobre a pressão contra Pequim para que deixe de apoiar o regime norte-coreano, que estaria enfraquecido em momentos de transição do poder de Kim Jong II para seu filho, Kim Jong Eun.
“Trabalhando com Coreia do Sul e Japão, os Estados Unidos deveriam chamar uma unificação das duas Coreias em termos aceitáveis para o Sul”, escreveu Henry Sokolski, diretor do Centro de Educação sobre Não Proliferação, na publicação direitista National Review. “Deveriam convidar a China a participar, se quiser. Qualquer esforço sério exigirá que a Coreia do Sul peça empréstimos para financiar a transição e que a China concorde em permitir a entrada de refugiados”, acrescentou.
Entre as “pombas” (ala menos belicista), destaca-se a voz do ex-presidente Jimmy Carter (1977-1981), que propôs o começo de conversações com Pyongyang, tanto de forma bilateral quanto no contexto da instância conhecida como Seis Partes, presidida pela China e que inclui também Coreia do Norte, Coreia do Sul, Estados Unidos, Japão e Rússia.
Até agora, a administração Obama, que se orgulha de levar adiante uma “paciente estratégia”, nega-se a aceitar estas sugestões, e exige como condição para qualquer aproximação que Pyongyang desmantele completamente seu programa de armas nucleares. Também exige do governo norte-coreano que peça desculpas a Seul, ou ao menos expresse seu pesar, pelo disparo de um torpedo contra um navio de guerra sul-coreano, em março deste ano, que matou 46 marinheiros. Com o apoio da China a Coreia do Norte nega terminantemente sua responsabilidade nesse episódio.
“Para além das declarações e condenações (pelo último incidente), no final das contas não temos muitas opções”, segundo John Feffer, especialista em península coreana e que dirige o escritório Política Externa em Foco, do Instituto de Estudos Políticos, em Washington. “A paciência estratégica de Obama só conseguiu que o Norte faça tudo para demonstrar sua impaciência e que quer voltar à mesa de negociação, com os Estados Unidos em particular. E as sanções não conseguiram muito, como demonstra a sofisticação da nova usina de enriquecimento de urânio da Coreia do Norte”, acrescentou. Envolverde/IPS
*O blog de Jim Lobe sobre política externa está em http://www.lobelog.com.

