REPORTAGEM: Combustíveis fósseis impunes em Cancun

CANCUN, México, 07/12/2010 – (Tierramérica).- Na cúpula mundial sobre o clima não há censura a nenhum país que amplie seus planos de explorar combustíveis fósseis.

Renée Leahy/IPS - Uma reunião de ativistas no Klimaforum 2010

Renée Leahy/IPS - Uma reunião de ativistas no Klimaforum 2010

O principal motor da mudança climática é a queima de combustíveis fósseis. Então, por que continuam sendo investidos milhares de milhões de dólares na procura e extração de mais petróleo, carvão e gás? A pergunta foi feita por delegados de povos indígenas do Canadá no Klimaforum, a cúpula da sociedade civil paralela à conferência da mudança climática de Cancun.

“A exploração das areias de alcatrão do Canadá lança na atmosfera 40 milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano, e os ambiciosos planos de crescimento elevarão esse número para quase 140 milhões de toneladas até 2020. Toda a Dinamarca emite apenas 52 milhões de toneladas por ano”, disse Melina Laboucan-Massimo. A ativista procede da comunidade cree do Lago Lubicon, na província canadense de Alberta. Ali são explorados milhares de quilômetros quadrados de areia de alcatrão existentes em prístinos bosques e pântanos.

Os países partes da 16ª Conferência das Partes (COP 16) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que acontece até o dia 10, no balneário mexicano de Cancun, não censuraram o Canadá por esta flagrante desconsideração com o clima mundial, afirmou Melina. A COP 16 busca estabilizar as emissões de gases causadores do efeito estufa para mitigar a perigosa mudança climática, embora não haja muitas esperanças de êxito. De fato, em Cancun não há censura a nenhum país que amplie suas operações com petróleo, carvão ou gás natural.

A queima de apenas um quarto das reservas desses três combustíveis fósseis aumentará a temperatura média mundial acima dos dois graus, segundo a comunidade científica. “Não deveríamos esquecer que um aumento mundial de dois graus significa que o aquecimento nos levará muito além das variações naturais que a vida terrestre experimenta desde que os seres humanos existem”, disse no ano passado ao Terramérica Malte Meinshausen, do Instituto Potsdam para a Pesquisa do Impacto Climático, da Alemanha.

“Em Alberta, a região canadense com mais Sol, não há investimento em energia solar”, disse Melina, do Greenpeace Canadá, ao falar perante representantes da sociedade civil sob um toldo plástico no El Rey Polo Country Club. O encontro aconteceu no Klimaforum, a cúpula da sociedade civil que tenta “promover e debater soluções sustentáveis e socialmente mais justas” para enfrentar a mudança climática.

Realizado nesse clube em meio a bosques costeiros, a 20 quilômetros da sede da COP 16, os jogadores de polo galopavam em torno do encontro, em um enorme campo de jogo, enquanto Melina falava aos participantes sobre os danos da extração de petróleo em Alberta. Não se trata apenas do maior projeto industrial do mundo, mas do mais destrutivo, pois gera entre três e cinco vezes mais emissões de carbono do que a produção petrolífera convencional, alertou Melina.

Milhões de litros de água doce são fervidos com gás natural para extrair alcatrão da areia. Esta água está tão contaminada que mata os pássaros que pousam sobre os lagos que cobrem mais de 50 quilômetros quadrados, acrescentou. “É uma loucura. Realmente, dá medo ver quanta terra mudou ao longo da minha vida, e nem mesmo tenho 30 anos”, enfatizou.

A maior parte dos 2,7 milhões de barris de petróleo produzidos diariamente vão para os Estados Unidos. Por isto que, tanto este país quanto o Canadá, pressionam e intimidam outras nações para impedir que proponham nestas reuniões uma moratória à expansão e exploração de combustíveis fósseis, disse Clayton Thomas-Muller, da nação cree de Mathias Colomb, no Norte do Canadá, e organizador da Rede Ambiental Indígena.

“Estes e outros países industrializados preferem acertos tecnológicos como a iniciativa REDD (Redução de Emissões de Carbono Causadas pelo Desmatamento e a Degradação das Florestas), carvão vegetal e mecanismos de captura e armazenamento de carbono em lugar de reduções reais das emissões”, disse Clayton ao Terramérica. Se o mecanismo REDD for aprovado, os países mais ricos poderão pagar para manter florestas em regiões tropicais como forma de compensar suas emissões contaminantes.

Assim, esses países obterão “créditos de carbono” que os ajudarão a provar que reduziram seus gases causadores do efeito estufa. “Estes mecanismos de mitigação baseados no mercado são alarmantes para os povos indígenas”, afirmou Clayton. São “falsas soluções” para a mudança climática e ameaçam direitos, terras e culturas dos povos originários, que reclamam uma suspensão de novas atividades petroleiras. Se a maioria das pessoas opõe-se naturalmente à privação de água, por que se deveria admitir a privatização da atmosfera mediante mercados de carbono?, perguntou.

A Bolívia tentou propor uma moratória junto a outros países signatários do “Acordo dos Povos”, de Chochabamba. Cerca de 35 mil pessoas reuniram-se em abril nessa cidade boliviana para realizar a Conferência Mundial dos Povos sobre a Mudança Climática e os Direitos da Mãe Terra. Ali concordaram em reclamar a moratória e exigir dos governos do mundo que reconheçam os direitos da Mãe Terra.

Os aspectos medulares da plataforma de Cochabamba estavam incluídos no texto de negociação para um novo acordo vinculante, entre colchetes, como outros tantos aspectos nos quais ainda não há consenso. Porém, a chanceler mexicana, Patricia Espinosa, que preside a COP 16, submeteu à consideração dos negociadores uma proposta de rascunho que excluía os temas de Chochabamba.

Apesar de, após a reclamação da Bolívia, ter sido informado que esse texto era apenas uma iniciativa pessoal e não o texto oficial de negociação, “aqui, na COP 16, as coisas são como sempre”, disse Clayton. Também funcionam como de costume os negócios da multinacional British Petroleum (BP), que anunciou o início de seu primeiro projeto nas areias de alcatrão do Canadá.

Junto com um sócio chinês, a BP, empresa responsável pelo desastroso vazamento de petróleo deste ano no Golfo do México, espera extrair três bilhões de barris de petróleo com seu projeto “Sunrise”, que tem investimento superior a US$ 3 bilhões e consumirá três anos. “Se queimamos o petróleo das areias de alcatrão, temos poucas possibilidades de impedir uma catástrofe climática”, disse Jess Worth, da UK Tar Sands Network (Rede Britânica pelas Areias de Alcatrão). “A BP sabe disso, e não dá importância”, afirmou Jess em um comunicado.

* O autor é correspondente da IPS.

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

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