Cristãos de Gaza com saudades de Belém

Gaza, Palestina, 07/01/2011 – “Tentamos ficar alegres e comemorar com nossas famílias, mas o clima não é de felicidade como em outras partes do mundo”, lamenta Hossam Tawwil, morador de Gaza, enquanto se prepara para o Natal cristão ortodoxo, festejado hoje.

 - Eva Bartlett/IPS

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“Somos da Palestina, e nossa vida não é simples: estamos sob ocupação, sob sítio, e somos impedidos de visitar a cidade santa de Belém”, acrescentou este parlamentar de Gaza. “Não sentimos que estamos verdadeiramente celebrando dias sagrados, não da forma como gostaríamos”, acrescentou.

Bendali Tarazi é um cristão que vive na Cidade de Gaza. “Celebramos o Natal como podemos. Pela manhã, minha família e eu rezamos na igreja, e depois visitamos nossos familiares e, em seguida, vamos para casa comer juntos”, contou. Como a maioria dos moradores de Gaza, Bendali sofre na própria carne o sítio israelense e a ameaça constante de ataques. “Tudo aqui é difícil, para todos os palestinos, não apenas os cristãos. Estamos como em uma grande prisão, não apenas trancados, mas sob completo cerco, onde virtualmente nada nem ninguém pode passar pela fronteira, e há constantes bombardeios e demolições israelenses”, acrescentou.

As autoridades israelenses anunciaram a entrega de autorizações de saída para 500 moradores de Gaza cristãos que quisessem ir neste Natal a Belém, na Cisjordânia. Contudo, Hossam explicou que isso não é suficiente. “Desses 500, há cristãos ortodoxos e católicos. Os católicos celebram o Natal em 25 de dezembro, e os ortodoxos em 7 de janeiro. Os que comemoram neste mês receberam permissão para ir a Belém antes de seu dia sagrado, mas os católicos não conseguiram autorização”, afirmou. Belém e Jerusalém são as cidades mais sagradas da Palestina, mas estão fora do alcance de muitos cristãos e muçulmanos.

“As autoridades israelenses ocupantes impedem que cristãos em Gaza e na Cisjordânia ocupada viajem a Belém no Natal, bem como impedem que os muçulmanos visitem Al Quds (Jerusalém) durante o mês sagrado do Ramadã”, disse Hossam. Conseguir uma autorização não é fácil. “É preciso ter mais de 35 anos, o que imediatamente elimina a maioria dos moradores de Gaza”, explicou. “A ocupação israelense decide arbitrariamente quem pode sair e quem não pode, sem importar a idade ou mesmo se tem uma permissão. Nunca explicam as razões”, disse. Segundo Hossam, embora 500 palestinos de Gaza tenham recebido autorizações, nem todos puderam sair.

Bendali conhece pessoalmente as dificuldades. “No ano passado, recebi uma autorização para viajar a Belém, e quando soube que minha mulher não recebeu a dela, não pude deixá-la, por mais que quisesse visitar Belém no Natal. É nossa cidade santa, nossa terra, mas não podemos visitá-la no momento mais importante do ano”, ressaltou. Isto é comum, disse Hossam. “Às vezes, os pais conseguem autorização, mas seus filhos não, então, ninguém viaja. Ou apenas um membro de um casal consegue autorização, ou ninguém a obtém”, acrescentou.

As famílias também sofrem outras consequências da guerra. “Praticamente, cada família perdeu algum de seus membros. Talvez tenham um filho em uma prisão israelense, ou morto em ataques de Israel, ou ainda que esteja doente ou morreu por falta de tratamento adequado em razão do sítio”, disse Hossam. “Nas festividades, as famílias recordam seus entes amados que faleceram. Qualquer dia festivo, sem os seres queridos, não é um bom dia festivo”, acrescentou.

Enquanto isto, cresce o temor de novos ataques. “Muitos acreditam que uma nova guerra israelense se aproxima de Gaza. Já há bombardeios aleatórios”, disse Hossam. O sítio e o desastre financeiro de Gaza aumentam os obstáculos para que famílias cristãs comemorem o Natal como faziam antes. “Sem trabalho nem dinheiro, não podemos comprar presentes nem os alimentos especiais que fazem desta comemoração algo mágico. Os muçulmanos têm os mesmos problemas que os cristãos em Gaza. Vivemos juntos, somos vizinhos, sob o mesmo sítio, a mesma ocupação e os mesmos ataques de Israel”, disse Hossam.

Ahmed Mahdi, um muçulmano da Cidade de Gaza, tem vizinhos cristãos. “Somos bons amigos e eles nos visitam nas festividades islâmicas. Sentimos e agimos como uma família”, contou. Muitos cristãos de Gaza compartilham das comemorações muçulmanas. “Estamos com eles para festas islâmicas. Celebramos com eles como se fosse nossa festa. Não sentimos diferença entre muçulmanos e cristãos em Gaza”, disse Hossam.

“A ocupação não permite liberdade para nenhuma outra religião além do judaísmo. Além de nos impedirem de visitar nossos lugares sagrados, os israelenses atacam nossas igrejas e mesquitas”, disse Ahmed. Sua mensagem é simples: “Só desejo que este ano seja melhor para os cristãos palestinos, e que os cristãos de todos os lados celebrem e desfrutem seu dia sagrado”. Envolverde/IPS

Eva Bartlett

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