China quer erradicar escravidão moderna

Pequim, China, 17/01/2011 – O caso, na China, de um grupo de homens com problemas mentais vendidos pelo dono de um asilo e obrigados a trabalhar em uma fábrica da província de Xinjiang trouxe à tona o lado mais obscuro do rápido crescimento econômico deste país: a escravidão. No mês passado, a polícia prendeu Li Xinglin, chefe de uma fábrica de materiais para construção na Região Autônoma de Xinjiang Uighur. Ele havia tentado fugir depois que a imprensa estatal expôs as condições de trabalho no lugar, segundo informou a agência de notícias Xinhua.

As notícias indicam que pelo menos uma dezena de trabalhadores, oito deles com problemas mentais, foram vendidos à fábrica e trabalhavam sem receber nenhum pagamento. As autoridades disseram que os trabalhadores não contavam com nenhuma proteção no inverno, quando outras indústrias suspenderam suas operações, e recebiam a mesma comida que o chefe da fábrica dava ao seu cachorro. Alguns estiveram escravizados por quatro anos.

O filho de Li Xinglin, Li Chenglong, também foi preso em Chengdu, capital da província de Sichuan. Ele havia fugido levando outros 12 trabalhadores com problemas mentais, que foram resgatados e colocados sob custódia do governo. Neste mês, mais três pessoas foram detidas com ligação ao caso, segundo noticiários oficiais. Zeng Lingquan e sua mulher administravam um abrigo para mendigos na região de Quxian, em Sichuan, e supostamente vendiam deficientes para fábricas desde 1993. Autoridades vinculadas ao caso perderam seus cargos.

Zeng, agricultor que integrou a Federação de Indústria e Comércio de Quxian, vendeu vários trabalhadores para a Fábrica de Materiais Químicos para Construção Jiaersi Green, de Xinjiang, e recebeu os salários que supostamente eles ganhariam. Funcionários do governo disseram que o abrigo de Zeng era o primeiro elo da cadeia de tráfico de pessoas. Histórias de escravidão moderna ocupam regularmente o noticiário na China, que no ano passado superou o Japão como segunda economia mundial, atrás dos Estados Unidos.

Embora as condições de trabalho e os salários, no geral, tenham melhorado nas fábricas em todo o país graças ao crescimento econômico, especialistas dizem que a escravidão de crianças e adultos com problemas mentais é uma questão persistente. Em maio de 2009, a polícia da província de Anhui prendeu dez homens acusados de escravizar mais de 30 deficientes mentais, vários deles crianças, que eram obrigados a trabalhar com fornos de tijolos. Houve notícias sobre casos de escravidão em dez províncias desde 2007, segundo a Associação de Pessoas Portadoras de Problemas Mentais, e também 20 casos de escravos que morreram.

Meng Weina, fundador da Comunidade Huiling de Serviços para a População com Dificuldades de Aprendizagem, disse que as pessoas com problemas mentais são especialmente vulneráveis na China, onde a rede de assistência social é pequena e a atenção, em geral, recai sobre as famílias. Quando os pais morrem, muitas não têm quem cuide delas. Em áreas rurais, onde vivem 70% das pessoas com limitações intelectuais, praticamente não há organizações que ofereçam apoio. “Vimos muitos casos de sequestro, mas quando são denunciados ninguém se importa”, contou Meng à IPS.

Liu Kaiming, que pesquisa sobre relações trabalhistas e é diretor-executivo do Instituto de Observação Contemporânea, com sede em Shenzhen, disse que as principais causas do problema são as imperfeitas redes sociais, as leis inadequadas e a falta de regulações para proteger as pessoas com limitações intelectuais. Também destacou que é necessária uma política mais firme contra os funcionários envolvidos. “Não creio que o governo central e os locais estejam fazendo algo para proteger os trabalhadores com problemas mentais”, disse Liu à IPS. Envolverde/IPS

Mitch Moxley

Mitch Moxley is a freelance journalist based in Beijing writing for the Atlantic, The Wall Street Journal, The Globe and Mail and others. He writes widely about culture, travel and current affairs from across Asia and is currently writing a book about his China adventures.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *