Laboratórios estrangeiros usam latino-americanos com cobaias

Cidade do México, México, 04/02/2011 – Leonor, como outros habitantes do México, participou em 2006 de um teste clínico de um remédio criado por um laboratório farmacêutico multinacional para combater problemas renais. “Uma amiga enfermeira me avisou do teste e decidi participar. Por várias semanas me aplicaram uma dose e comprovaram sua eficácia”, contou à IPS Leonor, vendedora de 30 anos que sofre de insuficiência renal. Sua história é mais uma do compêndio de testes que cada vez mais são feitos em países como México e Brasil, por uma série de razões que vão desde custos mais baratos até uma supervisão menos rígida.

“Os laboratórios precisam de pacientes em um período determinado e o mais rápido possível. Dependendo da empresa, os custos podem ser baixos, mas talvez o México seja mais caro”, explicou à IPS a especialista norte-americana Lorna Speid, autora do livro “Clinical trials: What patients and healthy volunteers need to know” (Ensaios clínicos: O que os pacientes e voluntários saudáveis precisam saber). Esta obra, publicada no ano passado pela editora Oxford University Press, é um guia sobre a natureza das pesquisas e dos direitos de quem se submete a elas.

O México foi base de 1.310 estudos, atrás do Brasil, com 2.090, e à frente da Argentina, com 1.099, segundo dados dos institutos nacionais de saúde. O número de testes fora dos Estados Unidos cresceu nos últimos anos. Em 1990, apenas 271 eram realizados em outros países sobre medicamentos dirigidos ao mercado norte-americano, segundo dados de seu Departamento de Saúde e Serviços Humanos. Em 2008, esse número saltou para 6.485. Os institutos de saúde detectaram quase 60 mil testes em 173 países desde o ano de 2000.

A Agência de Alimentos e Medicamentos (FDA), dos Estados Unidos, só revisa os resultados dos estudos, mas não seu desenvolvimento. Algo semelhante ocorre com a mexicana Comissão Federal para a Proteção contra Riscos Sanitários (Cofepris), que em 2010 concedeu registro a 155 remédios alopatas. Por isso, a transparência é um tema fundamental sobre estas pesquisas científicas. Nesse sentido, a Rede Cochrane Iberoamericana, formada por pesquisadores da região, propôs a criação de um registro latino-americano ad hoc, que não aconteceu.

“A colaboração reconhece a importância de registrar prospectivamente os testes para garantir que a evidência obtida seja válida e integral e para minimizar o risco de um vício na publicação e no informe”, diz o artigo “O registro latino-americano de testes clínicos”, feito por 14 pesquisadores da Rede e publicado em 2006 na Revista Panamericana de Saúde Pública. O grupo promove a divulgação de informação sobre intervenções sanitárias, para que os usuários tenham em mãos todos os elementos sobre essas práticas.

A Organização Mundial da Saúde recomendou, em 2005, uma total transparência nos registros desse tipo de testes, um protocolo que não é aplicado totalmente na região. Por isto, não surpreende o surgimento de casos como o do Celebrex, um anti-inflamatório para aliviar a dor de problemas como artrite e tensão pré-menstrual, produzido pela multinacional Pfizer. Essa empresa fez pelo menos 290 testes com o Celebrex, 183 deles em solo norte-americano e o restante presumivelmente em outros lugares, segundo o registro do instituto nacional de saúde. Pelo menos oito foram realizados no México, seis na Costa Rica e Colômbia e dez no Brasil.

Depois de a Pfizer gastar mais de US$ 1 bilhão em sua promoção, em 2004 começaram a surgir denúncias de que os pacientes eram mais inclinados a sofrer ataques do coração e embolia. Além disso, a revista especializada Journal of the Royal Society of Medicine informou em 2006 outros efeitos negativos. Em setembro do ano passado, a FDA revelou que os resultados preliminares de um estudo feito no México concluíram que o Rotarix, uma vacina infantil contra o rotavírus, apresentava um risco de obstrução intestinal.

Contudo, esse medicamento continua no mercado, à falta de dados conclusivos. A vacina, aprovada para consumo norte-americano em 2008, é produzida pela multinacional britânica GlaxoSmithKline. “Apareceram manchas roxas no meu corpo, e os médicos estão examinando o motivo”, contou Leonor, que se identifica com um nome fictício porque assinou um documento de confidencialidade sobre o teste. “Os pacientes estão na obscuridade sobre o processo, não sabem como se proteger, ninguém cuida de seus interesses”, disse Lorna, que investiu cerca de dois anos para escrever o livro, baseado em sua experiência e pesquisas.

Em geral, as empresas farmacêuticas subcontratam laboratórios locais para realização dos testes. Nos Estados Unidos, os médicos que participam das pesquisas devem antes se inscrever na FDA. Entretanto, esse registro diminuiu 5,2% nesse país entre 2004 e 2007, embora tenha aumentado 10% na América Latina, 12% na Ásia e 16% na Europa oriental, regiões onde a supervisão é menos rigorosa. “Espera-se que o registro de testes clínicos fortaleça a confiança do público na ciência médica e na indústria farmacêutica”, diz o artigo da Rede, que tem extensões no Brasil e na Venezuela. Envolverde/IPS

Emilio Godoy

Emilio Godoy es corresponsal de IPS en México, desde donde escribe sobre ambiente, derechos humanos y desarrollo sustentable. En el oficio desde 1996 y radicado en Ciudad de México, ha escrito para medios mexicanos, de América Central y de España.

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