FRANÇA: O manipulador das crises africanas

Paris, França, 04/02/2011 – A França mantém significativos laços econômicos e estreitos vínculos políticos e militares com a Costa do Marfim, Níger e Tunísia, atualmente envoltos em crises institucionais e crescentes protestos populares contra as elites nacionais acusadas de abusos e corrupção. Cerca de 1.250 empresas francesas constituem o motor da economia da Tunísia, onde uma mobilização social provocou este mês a queda e posterior fuga do presidente Zine El Abidine Ben Ali, que liderava o regime desde 1987.

As empresas cobrem praticamente todos os setores, do têxtil e vestuário, passando por microeletrônica, automóveis e aeronáutica, até o de serviços. O investimento francês nesse país atingiu US$ 191 bilhões em 2009, o que converteu a França no principal sócio econômico da região do Magreb. Muitas dessas companhias têm estreitos vínculos com a família Ben Ali. Por exemplo, 49% da operadora de telecomunicações Orange Tunisie pertencem ao outrora monopólio francês France Telecom. Os outros 51% são da Investec, a companhia de investimento do genro de Ben Ali, Marwan Mabrouk, acusado de corrupção.

A participação econômica e a conivência de empresas francesas com o regime da Tunísia podem explicar porque Paris, desde François Mitterrand (1981-1995) até Nicolas Sarkozy adotava uma conduta complacente com Ben Ali, apesar das acusações fundadas da corrupção generalizada e de graves violações de direitos humanos. A complacência francesa alcançou seu ponto máximo no dia 14, véspera da fuga de Ben Ali do país.

Dois dias antes, em meio à sangrenta repressão à mobilização popular contra o regime que deixou mais de cem mortos, a ministra francesa das Relações Exteriores, Michèle Alliot-Marie, ofereceu ajuda policial e militar ao governo da Tunísia para pacificar o país. Também destacou que o direito de manifestação deve ser respeitado tanto quanto o de segurança. Várias fontes disseram que, com apoio expresso do presidente Sarkozy, ofereceu ajuda. “Dizer que na Tunísia há uma ditadura é um exagero”, disse o ministro francês da Cultura, Frédéric Mitterrand.

Essa e outras declarações envergonharam a diplomacia francesa quando Ben Ali teve que abandonar o país. Um grupo de intelectuais franceses encabeçados por Etienne Balibar, professor emérito de filosofia política da Universidade de Nanterre, noroeste de Paris, recordou que a política externa da França “se caracterizou pela desonrosa tradição de complacência com a ditadura tunisiana”.

Após a fuga de Ben Ali, a França deveria apoiar as reclamações legítimas do povo tunisiano, disse Etienne, acrescentando que os argumentos utilizados por Paris para apoiar a ditadura na Tunísia na chamada guerra contra o terrorismo foram errôneos. Quando Sarkozy visitou a Tunísia, em abril de 2008, elogiou a repressão do governo à oposição islâmica. Ben Ali sufocou os muçulmanos e a oposição em geral, mas, na verdade, o Islã radical nunca foi uma ameaça nesse país.

Informes dos serviços secretos franceses, divulgados pelo jornal Le Monde, confirmaram essa situação. Também mostraram um “otimismo prudente” a respeito do Islã radical na Tunísia. A França também mantém importantes vínculos econômicos em Níger, onde uma junta militar expulsou em fevereiro de 2010 o presidente Mamadou Tandja, alegando que pretendia violar a Constituição e que seu governo se corrompera com as divisas recebidas pela concessão de minas de urânio à companhia estatal francesa Areva.

No final de 2009, Tandja convocou um referendo para poder apresentar-se para um terceiro mandato presidencial. O urânio representa 70% das exportações do país. A Areva é a principal companhia investidora em Níger. Além disso, a presença militar e econômica da França na Costa do Marfim podem ter influenciado o comportamento de Paris em relação ao presidente Laurent Gbagbo, que, segundo observadores internacionais, perdeu as eleições de 2010.

Cerca de 700 companhias francesas controlam a economia marfinense, desde a lucrativa exploração dos campos de cacau e as exportações, até a infraestrutura e as telecomunicações. Essas empresas pagam cerca de 50% do total de impostos do país, segundo dados oficiais. Atribui-se a Gbagbo, que assumiu a presidência no final de 2000 depois de controvertidas eleições, o mal-estar que afeta este país da África ocidental desde então.

A Costa do Marfim, desde 2002, está praticamente dividida em duas. Um grupo armado ocupa o norte do país, enquanto no sudoeste, especialmente a capital, Yamoussoukro, e o centro econômico de Abidjan, estão em mãos de Gbagbo. Uma força de paz da Organização das Nações Unidas, liderada por franceses, garante a divisão do país e protege a área controlada por Gbagbo e a delicada reconciliação entre o governo e os rebeldes.

As eleições previstas para 2005, inicialmente, e depois para 2008, foram adiadas, o que permitiu a Gbagbo continuar controlando o país. Porém, desde a eclosão da guerra civil, as empresas francesas investiram US$ 370 bilhões no país, o que prova que a instabilidade não foi prejudicial para os negócios. Não surpreende que Gbagbo não esteja pronto para aceitar sua derrota eleitoral. A indignação da comunidade internacional pela sua permanência no governo não é tão efetiva quanto o apoio militar da França e de suas companhias. Envolverde/IPS

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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