EL CARDONAL, México, 04/02/2011 – (Tierramérica).- A produção de derivados do ancestral cultivo do maguey por cooperativas se converteu na principal fonte de renda de comunidades otomíes no centro do México.

O processamento do néctar de maguey permite que indígenas de San Andrés Daboxtha aumentem sua renda - Emilio Godoy/IPS
Hortencia é uma das fundadoras da cooperativa Milpa de Maguey Tierno de La Mujer, formada por 22 mulheres e um homem que colhem esta cactácea na comunidade de San Andrés Daboxhta, em uma área de 73 hectares desta localidade que fica 120 quilômetros a nordestes da capital mexicana. O cultivo de maguey e a obtenção de seus derivados se converteram na principal fonte de renda dos indígenas otomíes no central Estado de Hidalgo, que a complementam com o plantio de milho, a criação de ovinos e projetos de ecoturismo.
“Foi um processo muito longo, aprendido em muitos campos. A organização se capacitou e se fortaleceu. Elas mesmas fazem a comercialização”, disse ao Terramérica Jocelyne Soto, delegada da organização não governamental Enlace Rural Regional (Errac), surgida em 1988 para impulsionar iniciativas produtivas em áreas marginalizadas. A Errac, também presente nos Estados de Querétaro, no centro do México, e Oaxaca, no Sul, apoia a cooperativa desde 1989, quando começaram a reflorestar com maguey e serralha branca (Agave lechuguilla) esta região caracterizada pela carência de água.
O maguey, que não precisa de muito liquido para crescer, é plantado principalmente em Hidalgo e no vizinho Estado de Tlaxcala, em uma área de seis mil hectares com cerca de 12 milhões de plantas, segundo o Ministério da Agricultura e o Instituto Nacional de Estatística e Geografia. O xarope de agave, feito com hidromel extraído da planta, é um adoçante 1,4 vezes mais efetivo do que o açúcar refinado, rico em fibras e proteínas. Além disso, a frutose que contém não estimula a secreção de insulina digestiva, como outros adoçantes.
O néctar citado foi o mais consumido pelos povos originários antes da chegada dos conquistadores espanhois ao território que o México ocupa atualmente, também por ser considerado um remédio energético. Os indígenas usavam a maior parte do hidromel para fabricar a bebida, substituído pelos espanhois pelo açúcar de cana. “Há muitos anos, o maguey é uma fonte importante de renda”, disse ao Terramérica o acadêmico Francisco Luna, da estatal Universidade Tecnológica do Valle do Mezquital.
No México existem cerca de cinco milhões de famílias que trabalham na economia camponesa, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Geografia. Até 1995, os agricultores buscaram melhores opções produtivas porque o pulque, uma bebida tradicional feita a partir da fermentação do suco extraído da raspagem do coração do maguey, cedeu lugar a outros elixires. Assim, se capacitaram e aprenderam a extrair hidromel e preparar o xarope.
Com personalidade jurídica desde 2000 e um selo ecológico da Certification of Environmental Standards, da Alemanha, as mulheres trabalham em uma unidade com capacidade instalada de uma tonelada semanal, cujas estufas são aquecidas com paineis solares e gás. Seu principal destino de venda é a região central do país e o Estado de Sonora, no norte. O suco pode ser extraído a partir do momento em que a planta atinge dez anos de vida e pode ser raspada diversas vezes ao dia. O néctar da manhã se transforma em xarope e o da tarde é destinado à produção de pulque.
De cada dez litros de hidromel se obtém um de xarope. Diariamente, as cooperativas cozinham entre 400 e 500 litros de matéria-prima. “Nos últimos dias, não temos recebido pedidos, mas já temos produto engarrafado para enviar quando for solicitado”, disse Hortencia, que também planta milho, aveia e feijão. Em Hidalgo surgiram várias cooperativas de produtores de maguey, que se focam na geração de valor agregado e em aproveitar um mercado crescente. A vantagem o maguey é ser totalmente aproveitado, desde as longas folhas, conhecidas como pencas, até o hidromel.
“Precisamos de mais infraestrutura. Apesar dos esforços, o projeto ainda não é sustentável”, disse Jocelyne. Este ano, a cooperativa quer ampliar a fábrica, e para isso precisa de US$ 13 mil. A organização suíça Globosol concedeu um crédito brando em 2006 de 15 mil euros (US$ 20,13 mil) para instalação de paineis solares, com os quais a cooperativa se converteu na primeira a usar energia solar para o processo alimentar. “As iniciativas industriais são poucas. O apoio governamental é insuficiente e o mercado pode ser melhor aproveitado”, disse Francisco.
* O autor é correspondente da IPS.

