Cairo, Egito, 04/02/2011 – Não está claro se conseguiram seu objetivo numérico, mas sua mensagem foi inequívoca. “Fora Mubarak”, gritava, ontem, a multidão no centro da capital egípcia na chamada Marcha do Milhão
Foi o oitavo dia consecutivo de protestos pedindo a renúncia do presidente Hosni Mubarak, no poder há 30 anos. No começo desta semana, o governante, de 83 anos, designou um vice-presidente e mudou seu gabinete para aplacar a crescente ira popular. “Você pode mudar o gabinete o quanto quiser, Mubarak, mas nós não vamos parar até que você tenha ido embora”, disse o carpinteiro Ahmed Refaat.
Ahmed queixou-se do alto desemprego, do aumento do custo de vida e da corrupção endêmica. Como a maioria dos manifestantes, acusou Mubarak e seus partidários de acumularem riquezas à custa do povo egípcio. “O Egito recuperará seu orgulho quando Mubarak tiver partido”, afirmou.
O lugar escolhido para as manifestações de ontem não poderia ser mais adequado, Midan Tahrir, ou Praça da Libertação, é o epicentro do Cairo, e fica à sombra do emblemático edifício Mogamma, centro nevrálgico da burocracia estatal. Também foi ali que começaram as manifestações do Dia da Ira, em 25 de janeiro, que terminaram em sangrentos enfrentamentos entre polícia e opositores do regime.
Desta vez, a força policial antidistúrbios ficou claramente ausente da manifestação contra o governo. Mubarak cumpriu sua promessa de manter a polícia fora da Praça Tahrir e não ordenar a interferência dos soldados postados nos acessos a esse lugar contra as manifestações. “Mubarak retirou toda a polícia do Egito durante 48 horas e conduziu o país à anarquia”, disse Fatma Ibrahim, que trabalha em uma loja. “Agora, não pode mandar a polícia para bater nos manifestantes. Precisamos que os policiais capturem todos os criminosos e assassinos que ele deixou sair da prisão para criar problemas”, protestou.
A promessa sem precedentes de segurança para os manifestantes criou um ambiente festivo que atraiu jovens e idosos, homens e mulheres, de toda filiação política. Liberais, nasseristas, marxistas e islâmicos se reuniram lado a lado. As pessoas falavam com uma franqueza incomum. “Tenho 52 anos e nunca vi eleições reais em minha vida”, disse o professor Mohammad Hassan. “Queremos que Mubarak deixe o poder, queremos eleições livres e limpas. Neste país, temos médicos e engenheiros que trabalham como motoristas de fábricas, e a maioria de meus alunos ainda vive com seus pais depois de dez anos de formados. Mubarak e sua família roubaram tudo do Egito, inclusive sua dignidade”, acrescentou.
A manifestação de ontem coincidiu com uma greve geral nacional. Os estabelecimentos comerciais não abriram e os empregados das fábricas disseram que não voltarão a trabalhar enquanto Mubarak não renunciar. Todos os serviços de trens foram cancelados e milhares de passageiros estão perdidos no aeroporto do Cairo. A greve se soma à crescente crise econômica que atinge o país. Todos os bancos estão fechados e a bolsa de valores fez o mesmo após cair 16% em dois dias, antes que os funcionários interrompessem as atividades na semana passada.
A maioria dos supermercados foi saqueada ou está ficando sem mercadorias. “Sofreremos até que Mubarak parta, mas queremos que nosso sangue signifique algo”, alertou Ahmed. Segundo organizações de direitos humanos, mais de cem egípcios morreram em manifestações desde 25 de janeiro. Também disseram que o número real pode ser muito mais alto, já que a suspensão parcial das comunicações imposta pelo governo limita a coleta de dados.
Não surgiu nenhum líder claro do levante popular egípcio, inspirado em fatos semelhantes ocorridos na Tunísia, onde, no dia 14 de janeiro, foi derrubado o ditador Zine el Abidine Ben Ali. Os egípcios estão unidos por sua convicção de que Mubarak deve renunciar, mas não chegam a um acordo sobre quem deveria assumir a condução do país até a realização de eleições. “É muito importante que os manifestantes escolham quem falará por eles. Devem ter uma só voz que articule as reclamações perante o regime de Mubarak e que estabeleça uma agenda para uma transição política”, disse o analista político Amr Hashem Rabie.
Uma planejada marcha até o palácio presidencial de Heliópolis, a sete quilômetros da Praça Tahrir, não aconteceu. Alguns opositores disseram que ficou para o dia 4, se até lá Mubarak estiver no poder. “Neste exato momento, ele está em seu palácio nos vendo pela televisão. Levaremos nossos protestos até sua porta”, disse um manifestante. Envolverde/IPS


