Cairo, Egito, 04/02/2011 – Há 20 anos que Jalid Ibrahim al-Laisi é soldado do exército do Egito. mam a saída do presidente Hosni Mubarak, ele acredita que chegou a hora de “se rebelar contra a opressão”. Os manifestantes querem que Mubarak deixe o poder agora, e não alguns meses depois das eleições, como prometeu no dia 1º. A posição de Jalid, de 38 anos, não é única no exército, pelo contrário, a força se une aos protestos. “Ganho cerca de US$ 188 por mês e não é suficiente. Tenho outro trabalho no período da tarde”, disse o soldado à IPS.
Jalid e sua mulher se esforçam para criar os três filhos, de 13, nove e quatro anos, morando no bairro de Al-Zaytoum, no Cairo. “Ninguém pode viver com esse salário. Não se desfruta da vida. Uma pessoa coloca um filho no mundo para desfrutar da vida, não para sentir-se preso. Um quilo de carne custa US$ 10 no mercado. Se comermos uma vez por semana, gastaremos US$ 50 por mês. Não nos resta dinheiro para passear nem para nada”, lamentou. Jalid acaba de ser promovido em seu trabalho, o que aumentou seu salário em US$ 17. Mas a família destinou essa renda extra às aulas de apoio para o filho Mohammad, que custam US$ 51 por mês.
As manifestações são legítimas, disse Jalid. “A bala que não acerta, pelo menos faz barulho”, afirmou, repetindo um dito popular dentro do exército. “Nada acontece da noite para o dia. Mas vou reclamar porque minha vida, como a de outras pessoas, ficou intolerável”, acrescentou. O mal-estar entre os soldados do exército é o mesmo dos manifestantes que exigem a saída do presidente.
A declaração de Mubarak de que não disputará as eleições foi um triunfo para muitas pessoas, mas há outras que não estão satisfeitas com a decisão. O assunto dividiu a população. “Insistimos que deve sair agora”, disse o ativista Buthaina Kamel na Praça Al Tahrir, após o anúncio que Mubarak fez pela televisão no dia 1º. Muitos manifestantes interpretam seu êxito como uma revolução e não querem se render. “O presidente está brincando conosco”, disse o jovem engenheiro Mustapha al-Iraqi, acrescentando que não deixará a Praça e que deseja que haja mais manifestações esta semana.
Um alto oficial do exército confirmou que os soldados não dispararão contra os manifestantes. Os altos comandantes expressam o sentimento dos soldados, disse Jalid. “Contra quem vamos disparar? Contra nossos irmãos e irmãs?”, perguntou. Vários grupos de manifestantes pretendem protestar diante do palácio presidencial. Unidades do exército cercam o local, cuja segurança foi reforçada com arame farpado e postos de controle. Não se sabe até onde o exército deixará os manifestantes avançarem nem como os enfrentarão. “O exército e o povo são um, lado a lado”, gritava um grupo de manifestantes. Houve uma chuva de expressões de apoio a essa força.
Agora, o regime quer distender a situação. Yasmine al-Jayyoshi, entre outros organizadores dos protestos, teme que o governo castigue os manifestantes. Este é outro motivo pelo qual é necessário manter a mobilização, acrescentou. A violência é lamentável e “é preciso proteger as propriedades pública e privada”, disse Jalid. Mas, se os manifestantes forem muito pacíficos, as autoridades não compreenderão sua urgência. Envolverde/IPS

