Washington, Estados Unidos, 10/02/2011 – Há apenas alguns dias, os Estados Unidos sugeriam estar do lado das centenas de milhares de manifestantes no Egito que exigiam a saída do presidente Hosni Mubarak. Agora parece reconhecer que uma continuidade do regime é inevitável. Uma continuidade pelo menos até as próximas eleições presidenciais de setembro, às quais Mubarak prometeu não se candidatar depois de governar por três décadas.
E mais, a administração de Barack Obama estaria apoiando o vice-presidente egípcio, Omar Suleiman, ex-chefe de inteligência e confidente de Mubarak, bem como outros altos chefes militares para que controlem o “novo” governo e supervisionem a “transição ordenada” que vem sendo pedida nos últimos dias. Isto ficou claro quando a secretária de Estado, Hillary Clinton, disse, no dia 5, na Conferência sobre Segurança em Munique, que Washington e seus aliados deveriam “enviar uma mensagem consistente de apoio à transição ordenada”.
“Há forças trabalhando em qualquer sociedade, e particularmente uma que enfrenta este tipo de desafios, que tentarão descarrilar ou adiantar o processo para perseguir sua própria agenda, por isso penso ser importante apoiar o processo de transição anunciado pelo governo egípcio, a partir de agora encabeçado pelo vice-presidente Suleiman”, afirmou Clinton.
A secretária de Estado fez essa declaração pouco antes de o enviado especial de Washington ao Cairo, o ex-embaixador Frank Wisner, falar aos jornalistas em Munique por videoconferência de sua residência em Nova York, para onde regressou após passar vários dias no Egito. Wisner, que foi conselheiro de uma empresa norte-americana que representa o regime de Mubarak, afirmou que “é necessário um consenso nacional sobre as condições para dar o próximo passo. O presidente deve permanecer no cargo para conduzir estas mudanças. Creio que a continuação da liderança de Mubarak é fundamental”.
Embora o Departamento de Estado e o próprio Wisner tenham insistido mais tarde que ele dera apenas sua opinião pessoal, não falando em nome do governo, suas declarações, e o fato de que acabava de voltar de uma missão no Egito em nome de Washington, significaram um revés em qualquer progresso que os Estados Unidos tivessem conseguido para convencer os manifestantes no Cairo de que estavam do seu lado. De fato, no dia 7, ouviu-se pela primeira vez os manifestantes gritarem “Abaixo os Estados Unidos” na Praça Tahrir, ocupada pelos manifestantes, segundo a agência de notícias Associated Press.
Mesmo antes das declarações do final de semana, especialistas diziam que a forma como Washington se manifestava sobre o tema não inspirava confiança nem no Egito nem no resto do norte da África. “A Casa Branca não ajudou nada mudando sua política quase diariamente, criando confusão e, portanto, dilapidando a credibilidade dos Estados Unidos e sua limitada, mas preciosa, influência”, disse Leslie Gelb, presidente emérito do influente Conselho de Relações Exteriores.
As colunas de Gelb no site Daily Beast se concentram, em geral, nos temores de que a islâmica Irmandade Muçulmana – sem dúvida, o grupo ao qual Hillary Clinton se referia quando mencionou “forças” que poderiam “descarrilar” a transição – possa tomar o controle do país se o processo for feito “desordenadamente”. Porém, outros analistas em Washington, particularmente os que simpatizam mais com as exigências dos manifestantes, estão cada vez mais preocupados com a possibilidade de a força a descarrilar o processo esteja, na realidade, representada pelos altos chefes militares da reserva, não muito inclinados a reformas democráticas.
“Em temas que importam, há pouca diferença entre Mubarak, seu vice, Suleiman, ou o ministro da Defesa, Muhammad Hussein Tantawi”, escreveu Jon Alterman, especialista em Oriente Médio no Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais. “Todos eles passaram suas carreiras em organizações de segurança defendendo o Estado. Todos desconfiam dos instintos do povo egípcio”, acrescentou.
Analistas acreditam que Suleiman e os altos chefes militares, de fato, já estão assumindo o controle e resistem fortemente em compartilhá-lo, embora não desejem reprimir violentamente os manifestantes com medo de desagradar Washington ou se arriscar a uma insubordinação por parte de militares de baixa patente.
Inclusive, “antes que começasse o levante no Egito, os militares governavam dos bastidores”, escreveu Joshua Stacher, especialista em regimes árabes na Universidade Estadual de Kent, em um artigo para o site Foreign Affairs. “Essa espécie de ‘transição ordenada’ em um Egito pós-Mubarak é mais provável que prepare o retorno a uma situação repressiva e não que leve a uma época com maior participação popular”, disse Stacher.
*O blog de Jim Lobe sobre política externa dos Estados Unidos pode ser acessado em http://www.lobelog.com.

