Dacar, Senegal, 11/02/2011 – Embora com menos participação do que em anos anteriores, o Fórum Social Mundial (FSM) que acontece em Dacar serve para ativistas de toda África conhecerem a situação em que vivem seus colegas em diversas partes deste amplo e diverso continente.
O número de pessoas presentes ao FSM cresceu nestes anos, de 20 mil para 150 mil. Em Nairóbi, o número caiu para 70 mil, o que levou alguns observadores a anunciarem “o fim do movimento antiglobalização”. Porém, “é preciso comparar maçãs com maçãs”, disse o brasileiro Chico Whitaker, um dos fundadores do Fórum.
“A maioria dos participantes é do país ou da região onde acontece o encontro. O Senegal tem apenas 12 milhões de habitantes, comparado com os 190 milhões do Brasil. Portanto, este ano não haverá uma grande participação”, disse Whitaker. “Nossa intenção original não era criar um novo movimento que mudasse tudo, mas incrementar a possibilidade de as pessoas se conhecerem entre si e se reunirem. Em nível político, precisávamos mudar nossos métodos. Em lugar de criar uma pirâmide baseada no poder, decidimos lançar redes”, acrescentou.
Os organizadores do FSM ainda estão preocupados pelas dominantes premissas neoliberais. “Dizem que o mercado é a solução e que precisa estar livre. Mas o mercado não resolve o problema das desigualdades”, afirmou Whitaker. O FSM começou formalmente no dia 6 com sua tradicional marcha. Milhares de pessoas caminharam pelo centro de Dacar, capital senegalesa, reclamando soberania alimentar, alívio da dívida, igualdade comercial, direitos para as mulheres, acesso à saúde, liberalização das migrações e muitas outras causas por uma globalização mais inclusiva.
“O número total de participantes ainda não sabemos”, disse à IPS Taoufik Ben Abdallah, coordenador do FSM e um dos principais organizadores do encontro deste ano. Ele pertence ao grupo Enda Tiers Monde, com sede em Dacar, dedicado a promover o desenvolvimento. “Veio gente de 130 países. Muitos grupos chegaram de toda a África, em geral de ônibus. A participação da Ásia é menor, o que se deve principalmente ao custo da viagem”, acrescentou.
Ben Abdallah recebeu os participantes na Universidade Chiekh Anta Diop dizendo: “A África seria uma região rica se fosse dado aos países determinarem suas próprias políticas”. Consultado pela IPS sobre se a Revolução do Jasmim, na Tunísia, pode se propagar para o resto do continente, Ben Abdallah respondeu que “a forma como a delegação tunisiana foi recebida mostra que o ocorrido ali foi muito significativo”.
Os debates do FSM começaram no dia 7 com alguma confusão. A maioria dos paineis agendados no prédio da Universidade foi cancelada porque estudantes assistiam as aulas normalmente em suas salas como se o Fórum não existisse. O ex-reitor havia prometido que o prédio estaria livre durante toda a semana, mas o reitor atual decidiu não suspender as aulas.
Os organizadores do FSM negociaram com as autoridades universitárias enquanto do lado de foram rapidamente foram instaladas barracas. Vários paineis foram realizados assim. Muitos participantes disseram que o governo senegalês não fazia esforço algum para apoiar o Fórum, mas Ben Abdallah garantiu aos jornalistas que se tratou apenas de um problema de organização. Os debates daquele dia foram dedicados à África, e houve centenas de paineis espontâneos sobre diversos temas até o dia 9.
Para Anna Dramé, do Conselho Nacional de Organizações da Sociedade Civil de Guiné, “realizar o FSM é algo bom porque proporciona a possibilidade de trocar ideias e encontrar soluções para problemas comuns. Para mim, foram motivadores os paineis sobre violência contra mulheres e sobre apropriação de terras”, disse à IPS. “Não conhecia a situação na Mauritânia e em Mali. Ao voltar ao meu país, vou compartilhar a informação”, acrescentou.
Para Sidibe Abou, da organização Covire, dedicada a atender vítimas da repressão na Mauritânia, “a unidade é fortaleza, e realizar o FSM na África dará visibilidade aos problemas dos desempregados, das viúvas, dos órfãos e outros excluídos. Discutir problemas comuns pode nos ajudar a encontrar soluções”.
Por sua vez, Nama Sidiki, da Diobass, organização de pequenos fazendeiros em Burkina Faso, disse estar preocupado com a expropriação de terras. “Gera conflitos. Em Burkina Faso, muitos ricos e alguns membros do governo, em lugar de estrangeiros, se apropriam de terras. O FSM ajuda a conscientizar o povo”, afirmou. Nos últimos dias do Fórum, que termina hoje, os delegados tentariam alcançar posturas comuns, embora, como é habitual, sem apresentação de nenhum documento final.
“O FSM tem um enfoque em nível de bases. Não queremos fazer com que todas as pessoas pensem da mesma forma”, explicou Whitaker. Envolverde/IPS


