Beirute, Líbano, 11/02/2011 – A onda de protestos populares que sacode vários países do norte da África chegou ao Reino Hachemita da Jordânia. As mobilizações locais, que começaram após a Revolução do Jasmim, na Tunísia, reclamam uma reforma política. O movimento de protesto surgiu pela alta nos preços, no começo de janeiro, na cidade de Theiban, ao sul de Amã. Cerca de 200 pessoas reclamaram maior controle do governo e mais medidas para combater a corrupção. A mobilização ganhou força com as manifestações organizadas em Karak e Irbid.
No final de janeiro, 3.500 pessoas marcharam em Amã, lideradas por organizações islâmicas, de esquerda e sindicatos, para denunciar as políticas do primeiro-ministro, Samir Rifai. A economia jordaniana tem déficit de US$ 1,6 bilhão. Depende da ajuda estrangeira e de investimentos para financiar o déficit orçamentário, enquanto aumenta a pobreza e o desemprego.
O anúncio de Rifai sobre a criação de um pacote de US$ 550 milhões para subsidiar o combustível e os alimentos básicos, como arroz e açúcar, não conseguiu dissipar a insatisfação popular. Imediatamente foi destituído e o governo dissolvido pelo rei Abdullah II. “Existe um sentimento crescente de disparidade contra a elite econômica, corrupta, e o restante da população”, afirmou Mohammad Al Masri, pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos da Universidade da Jordânia. A pobreza rural é flagrante, enquanto os empresários vivem com abundância em Amã, ressaltou.
Os protestos dos manifestantes nas últimas semanas se referem a uma reforma política significativa. “Queremos um governo eleito pela maioria dos jordanianos e um equilíbrio de poder”, disse Hamzah Mansour, secretário-geral da Frente de Ação Islâmica (FAI), braço político da Irmandade Muçulmana deste país, ao jornal Jordan Times.
A oposição, liderada pela FAI, pediu a dissolução do parlamento formado em 2009, alegando que foram eleições fraudulentas. Além disso, reclamam uma reforma da lei eleitoral, para que seja respeitada a representação proporcional, e da lei sobre reuniões públicas. “Também querem a reativação da lei fundamental de 1952, que dá mais poderes ao Legislativo para controlar o Executivo”, disse Masri.
Atualmente, o poder está nas mãos do rei, que nomeia o primeiro-ministro e pode dissolver parlamento e governo. As demandas da FAI ecoaram em diferentes blogs políticos. Jadder, autor de “Jordan Issues”, se perguntou como é possível o rei poder destituir tão facilmente um primeiro-ministro que recebeu “95% dos votos do parlamento”. Também questionou o papel das instituições estatais e sua legitimidade.
Um problema que aviva a insatisfação popular é a falta de representação legislativa dos palestinos jordanianos, cerca de 40% da população. “A representação palestina no parlamento fica abaixo dos 18%”, afirmou Masri. Os palestinos chegaram à Jordânia, exilados de sua terra, após a criação de Israel, em 1948. A lei eleitoral, que divide as diferentes regiões do país, é questionada por favorecer os beduínos leais à monarquia, em detrimento dos palestinos jordanianos.
Em uma tentativa de aliviar as tensões, o rei substituiu Rifai por Maarouf al Bakhit. Abdullah prometeu, no começo desta semana, que o novo governo lançará um diálogo nacional sobre reforma política, combaterá a corrupção e revisará a restritiva lei eleitoral para incluir uma ampla variedade de facções políticas. Além disso, o monarca teve um gesto incomum ao se reunir com líderes islâmicos da FAI e da Irmandade Muçulmana. “A reunião foi extremamente significativa do ponto de vista simbólico, porque era algo que não ocorria há mais de nove anos”, destacou Masri.
O primeiro-ministro Bakhit disse aos legisladores que mudariam a Lei de Reuniões Públicas para deixar de ser necessário solicitar autorização do Ministério do Interior e dos governadores. Bakhit também estendeu a mão à Irmandade Muçulmana e ofereceu ministérios em seu governo, mas a organização não aceitou. O xis da questão é saber se, apesar das promessas de reformas políticas, a Jordânia seguirá pelo mesmo caminho de Egito e Tunísia.
“A Jordânia é fundamentalmente diferente da Tunísia”, afirmou o professor Hilal Jashan, da Universidade Americana de Beirute, que não acredita que este país siga o mesmo caminho. “É improvável que ocorra uma revolta popular porque as diferenças entre jordanianos e palestinos são muito grandes”, explicou. Os protestos foram contra o governo do primeiro-ministro Samir Rifai e evitaram atacar o rei Abdullah II, ressaltou. Por sua vez, para Masri, “o exemplo do Egito, onde muçulmanos vivem junto com cristãos coptos, mostra que os movimentos de protesto podem prosperar mesmo em sociedades fragmentadas”. Envolverde/IPS

