Cairo, Egito, 11/02/2011 – Enquanto a maior parte da imprensa internacional cobre quase exclusivamente o que acontece na Praça Tahrir, na capital do Egito, poucos sabem que os protestos contra o regime de Hosni Mubarak, agora em sua terceira semana, chegaram praticamente a cada rincão do país.
Mubarak fez um discurso ontem, anunciando a transferência de alguns poderes ao seu vice-presidente, Omar Suleiman, mas afirmando que não renunciará antes das eleições de setembro. Isto provocou uma irada reação dos manifestantes reunidos na Praça Tahrir. Nos últimos dias, também foram informados grandes protestos contra o governo nas cidades de Alexandria, Damanhour, Mansoura, Suez e Porto Said, no norte, bem como em Assiut, Luxor e Aswan, no sul. Mais de oito milhões de pessoas foram às ruas em todo o Egito em alguns dias de protesto, isto é, cerca de 10% da população do país.
Inclusive El-Kharga, um isolado povoado 500 quilômetros a sudoeste de Cairo, foi cenário de distúrbios. Testemunhas contaram que cerca de três mil manifestantes, exigindo a renúncia de Mubarak e do chefe de polícia local, entraram em prédios públicos e puseram fogo. “Os manifestantes incendiaram os escritórios locais do partido governante, da autoridade de regulação do tráfego, do tribunal de justiça e uma delegacia”, informou à IPS por telefone Mansour Osman, um inspetor local de antiguidades.
A polícia respondeu com gás lacrimogêneo e disparos, matando cinco pessoas e ferindo dezenas. Também teriam sido soltos detentos de uma prisão próxima de máxima segurança, uma tática já usada em outras cidades para aterrorizar os cidadãos. “A polícia pode ser mais brutal fora do Cairo, já que praticamente não há jornalistas estrangeiros nessas áreas”, disse Hussein. Organizações internacionais como a Human Rights Watch disseram, no começo desta semana, que pelo menos 297 pessoas morreram desde o começo da rebelião em 25 de janeiro. O número, porém, foi obtido apenas com informação sobre visitas a sete hospitais no Cairo, Alexandria e Suez.
Enquanto as manifestações contra o regime continuam se espalhando por todo o Egito, trabalhadores descontentes com seus baixos salários e as más condições de trabalho realizam uma série de greves para pôr em xeque a débil economia. Mais de 20 pequenas greves estouraram de forma simultânea em todo o país no dia 9. Cerca de 1.500 funcionários de um hospital cruzaram os braços, três mil ferroviários exigiram melhores incentivos e 750 trabalhadores de uma engarrafadora protestaram pelos baixos salários.
Além disso, centenas de trabalhadores de uma empresa filiada à Autoridade do Canal de Suez cruzaram os braços diante da sede central da companhia em Ismailia, 120 quilômetros a leste do Cairo. O canal de Suez é uma das mais importantes fontes de renda do Egito. No ano passado gerou US$ 4,8 bilhões. Grupos pelos direitos trabalhistas disseram que o surgimento de greves em todo o país foi uma reação espontânea a novas investigações sobre as fortunas ocultas de Mubarak e outros funcionários do governo.
“Não houve plano para coordenar estes protestos”, disse Tamer Fathy, porta-voz do Centro de Sindicatos e Serviços a Trabalhadores. “Os empregados estavam descontentes com as notícias na imprensa sobre milhares de milhões de dólares roubados por empresários corruptos do regime, e então começaram a fazer uma campanha por seus direitos econômicos”, explicou.
Fathy disse que muitos trabalhadores assistiram as manifestações contra Mubarak de forma individual, pois as organizações trabalhistas ainda não expressaram abertamente sua solidariedade com a rebelião. Se a força trabalhista do país, estimada em 22 milhões de pessoas, unir-se às manifestações contra Mubarak, poderá haver uma tormenta perfeita que acabaria com o regime.
Há indícios de que o movimento de trabalhadores se politizou. Funcionários do setor de trânsito do Cairo fizeram uma marcha ontem exigindo aumento salarial e melhor representação. Em uma declaração, pediram a dissolução do parlamento e a saída de Mubarak. Em Mahalla El-Kubra, 24 mil trabalhadores de fábricas têxteis realizam greves em protesto contra os baixos salários e as deterioradas condições de trabalho. Foi uma greve nessa cidade industrial do norte do país que, em 2008, levou à criação do Movimento Juvenil 6 de Abril, força principal na atual rebelião. Envolverde/IPS


