México, 13/07/2005 – Pelo menos uma dúzia de grupos se proclamam guerrilheiros atualmente no México, além dos zapatistas de Chiapas. O governo afirma que não representam nenhum perigo, mas observadores advertem que estão ativos nas sombras e que a qualquer momento podem causar uma surpresa. Uma dessas guerrilhas, da qual não se tinha notícia antes, é a chamada Comando Armado Popular Revolucionário a Pátria Primeiro, que acaba de reivindicar o assassinato de um ex-promotor no Estado de Guerrero. A vítima era apontada como suposto autor intelectual de um massacre de camponeses ocorrido em 1995.
"Convocamos o povo do México a restituir o princípio de justiça, para por fim à impunidade e castigar os responsáveis do modelo neoliberal da guerra suja, passada e presente", afirmou esse grupo em um comunicado divulgado no último dia 9, dois dias depois da execução que, segundo disseram, não foi a última a cometerem. Entre 2000 e maio passado foram detidas 23 pessoas ligadas a grupos armados, segundo informes do Ministério da Defesa. Mas o governo do presidente Vicente Fox afirma que a presença dessas organizações não coloca em risco a segurança desse país, onde quase a metade de seus 103 milhões de habitantes vive na pobreza.
De acordo com o especialista em guerrilhas Marcelo Riofrío, os grupos rebeldes existem e podem ser perigosos. "Não se trata de invenções ou elucubrações, mas de organização e preparação. Falamos de gente armada que maneja um discurso de esquerda radical e que se encontra em uma fase ativa", disse à IPS o especialista. Por sua vez, Jorge Fernández, jornalista conhecedor do tema, coincide com essa idéia. São grupos que têm um "potencial desestabilizador", pois contam com armas e recursos econômicos, obtidos principalmente por seqüestros, afirmou. A Agência Federal de Investigações indicou que desde 2002 até o mês passado foram cometidos 549 seqüestros no México, mas esse número pode ser multiplicado por 10 na realidade, pois somente um décimo destes crimes são denunciados á polícia, segundo diversos acadêmicos e organizações sociais.
Assim, vários desses seqüestros, talvez os menos conhecidos, poderiam ter sido realizados por grupos armados. Em 2001, a direção do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) pediu publicamente às "outras" guerrilhas liberdade de movimento e apoio às suas estratégias para exigir a aprovação de leis reconhecendo a autonomia indígena. Apesar das diferenças que existem entre as distintas organizações guerrilheiras e o EZLN, "vocês compartilham a luta pelos direitos dos povos indígenas e atenderão, na medida de suas possibilidades, a respeitosa solicitação", disse o grupo naquela ocasião. A guerrilha zapatista, que apareceu em janeiro de 1994 exigindo justiça para os indígenas, ganhou caráter de força beligerante com apenas 12 dias de combates.
Hoje esse grupo, que mantém uma trégua armada graças a uma lei de pacificação, lida com iniciativas políticas pacíficas e, segundo anunciou, logo realizará uma marcha pelo país buscando alianças com a "verdadeira" esquerda. Os guerrilheiros de Chiapas têm sua origem nas Forças de Libertação Nacional, grupo de cunho marxista-leninista dissolvido no início dos anos 80, segundo diversas investigações. Mas não somente eles, nessa organização militaram vários dos que agora seguramente comandam, ou foram a inspiração, de outros grupos armados, afirmou Riofrío, professor de "movimentos sociais" em vários centros educacionais do México.
Alguns dirigentes das FLN, às quais o subcomandante zapatista Marcos teria pertencido, se cindiram e outros se instalaram em diferentes pontos do país com o objetivo de fazer um levante armado nacional, afirmam historiadores. Um estudo do Centro de Pesquisas Históricas dos Movimentos Armados indica que representantes de todos os grupos armados teriam se reunido em 1993 no Estado de Puebla para definir uma estratégia de luta conjunta. Nesse encontro teriam ocorrido discrepâncias que levaram a EZLN a decidir sua solitária aparição em cena.
Um dos grupos que discordou dos zapatistas seria o Exército Popular Revolucionário (EPR), que surgiu em 1996 com ações de propaganda e alguns ataques a destacamentos militares e policiais. Este grupo critica o EZLN por considerar que errou o caminho ao abandonar a luta armada e manter negociações com o governo. Além disso, afirmou que o subcomandante Marcos, o porta-voz do EZLN, mais que um guerrilheiro é um escritor e um especialista no manejo dos meios de comunicação. Em 2002, o EPR se dividiu em meio a uma luta interna e assim nasceu o Exército Popular do Povo Insurgente e outros pequenos grupos, todos com um discurso focado em fazer a guerra contra o "capitalismo e o imperialismo" e favorecer a "luta popular".
O número de membros desses grupos, que nos últimos anos sofreram a prisão de vários de seus dirigentes, não se conhece com exatidão, embora se saiba que em sua maioria são camponeses de zonas pobres dos Estados de Guerrero e do vizinho Oaxaca, na fronteira de Chiapas. O escritor Rogelio Montemayor, que é um admirador declarado do EZLN ,não descarta uma arremetida futura de organizações insurgentes, devido ao fato de continuarem existindo as causas os originaram, como pobreza, violência e repressão, especialmente nesses três Estados do sul do México. Com diferentes ações, nenhuma de grande envergadura, nos últimos nove anos fizeram suas apresentações as Forças Revolucionárias do Povo, o Comitê Clandestino Revolucionário dos Pobres, Tendência Democrática Revolucionária e Coordenadora Guerrilheira Nacional José Maria Morelos.
Também surgiram o Comando Jaramillista Morelense, o Exército Villista Revolucionário do Povo, as Forças Armadas Clandestinas de Libertação Nacional, o Comando Armado Revolucionário do Sul, o Movimento Popular Revolucionário, e com sua última ação, o assassinato de um ex-promotor de Guerrero, o Comando Armado Popular Revolucionário a Pátria Primeiro. "Não se descartaria que muitos desses grupos existem de verdade e que a qualquer momento, e mais ainda agora com a aproximação das eleições, decidam realizar ações importantes", afirmou Riofrío. As eleições presidenciais no México para escolher o sucessor de Vicente Fox estão previstas para julho do próximo ano. (IPS/Envolverde)

