BAHREIN: Intervenção saudita traz mais perigos que soluções

Washington, Estados Unidos, 16/03/2011 – A incursão da Arábia Saudita no Bahrein é uma medida de risco que pode inflamar o descontentamento interno que suportam os dois governos e favorecer a propaganda do Irã entre as populações xiitas de seus vizinhos árabes.

Polícia do Bahrein dispara em manifestante desarmado. - YouTube

Polícia do Bahrein dispara em manifestante desarmado. - YouTube

Autoridades sauditas e funcionários dos Emirados Árabes Unidos (país que enviou 500 policiais para apoiar os mil soldados sauditas) disseram que entraram no reino no dia 14 a pedido do próprio governo do Bahrein para proteger a infraestrutura da nação e dar espaço para uma solução política.

Porém, alguns analistas disseram que não existia uma ameaça aparente à infraestrutura e que a intervenção parece ser uma tentativa torpe de intimidar os manifestantes que construíram uma cidade com barracas de campanha na Praça Perla, na capital, impondo controles nas ruas do centro financeiro de Manama. “Não entendo. Não creio por um minuto que esta seja uma resposta coletiva a uma decisão dos chanceleres do Conselho de Cooperação do Golfo”, disse o especialista saudita Thomas Lippman, do Council on Foreign Relations (Conselho sobre Relações Exteriores).

A medida parece refletir o pânico dos sauditas e da família muçulmana sunita que governa o país, os Khalifa, diante da persistência dos protestos populares. O rei declarou estado de emergência por três meses, após semanas de manifestações contra o governo. A população do país é predominantemente xiita e durante muito tempo se queixou de discriminação no governo e na economia.

Nos últimos dias também houve manifestações na saudita Província Oriental, majoritariamente xiita e ligada ao Bahrein por uma passagem elevada de 26 quilômetros. Ali está a maior parte das instalações petroleiras sauditas. “Os sauditas temiam que as manifestações no Bahrein contagiassem os xiitas da Província Oriental. Assim, simplesmente tiveram que avançar”, disse Simon Henderson, analista de temas do Golfo no Washington Institute for Near East Policy.

Henderson disse ser possível que as forças sauditas, que pareciam incluir tanto unidades da Guarda Nacional quanto do Exército, foram usadas para dispersar barricadas armadas pelos manifestantes em torno do centro financeiro de Manama, pontal da economia do país. Ontem já foram registrados confrontos e as mortes de dois manifestantes e um saudita, em circunstâncias pouco claras.

Henderson disse que a intervenção saudita poderá dificultar ainda mais que o Bahrein chegue a uma solução política. Enquanto os xiitas denunciam discriminação, outros cidadãos também têm queixas sobre as mudanças políticas que reduziram o poder do parlamento e sobre o fato de a família Khalifa dominar os principais postos ministeriais. O primeiro-ministro, tio do rei Hamad, está no cargo desde a independência do país, em 1971.

Os meios de comunicação sauditas acusam o xiita Irã de fomentar os protestos nos dois países, mas os analisas afirmam que há poucas provas disso. “O Irã não é a força-guia nessas ações”, disse Afshin Molavi, especialista em temas do Irã na New American Foundation em uma audiência no Woodrow Wilson International Center for Scholars. Molavi disse que a imprensa estatal iraniana que se dirige aos cidadãos de fala persa, praticamente não menciona a situação no Bahrein.

No entanto, o canal via satélite iraniano Al-Alam, que transmite em idioma árabe, se centra muito nos protestos e na incursão saudita. As dez principais matérias cobertas no dia 14 pela emissora tiveram a ver com o Bahrein, disse Molavi. E, segundo Lippman, “o Irã pode se beneficiar disto cruzando os braços” para ver como age a ira no mundo árabe com a intervenção saudita.

Um funcionário iraniano, que pediu para não ser identificado, disse à IPS que o Irã condenou a ação saudita e que, provavelmente, orquestrará suas próprias manobras militares, mas não enviará forças ao Bahrein. Fazendo eco a outras declarações regionais, o funcionário disse acreditar que o Bahrein havia obtido aprovação dos Estados Unidos para que sauditas e efetivos dos Emirados Árabes Unidos entrassem em seu território quando o secretário da Defesa, Robert Gates, visitou o Bahrein na semana passada.

O governo de Barack Obama negou essa afirmação, mas não condenou a medida da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, apesar de ter pedido urgência às tropas estrangeiras e às autoridades do Bahrein a se conterem. “Esta não é a invasão de um país”, disse, no dia 14, Jay Carney, porta-voz da Casa Branca.

Além de afirmar que se preocupa com os “direitos universais” do meio milhão de cidadãos do Bahrein, Washington se mostrou preocupado em proteger sua base nesse país árabe, onde estaciona a quinta frota dos Estados Unidos. Cerca de três mil militares vigiam 30 embarcações e 30 mil navegantes do Bahrein. Estas forças norte-americanas têm por objetivo proteger do Irã os Estados do Golfo. A base também é usada para apoiar os soldados norte-americanos no Iraque e no Afeganistão. Envolverde/IPS

* Com colaboração de David Elkins.

Barbara Slavin

Barbara Slavin is a non-resident senior fellow at the Atlantic Council's South Asia Center. Barbara is an expert on U.S. foreign policy and the author of a 2007 book on Iran entitled ‘Bitter Friends, Bosom Enemies: Iran, the U.S. and the Twisted Path to Confrontation’. A contributor to AOLNews.com and ForeignPolicy.com among other media outlets, she was assistant managing editor for world and national security at the Washington Times from Jul. 2008 through Dec. 2009. Prior to that, she served for 12 years as senior diplomatic reporter for USA TODAY where she covered such key issues as the U.S.-led war on terrorism and in Iraq, policy toward "rogue" states and the Arab-Israeli conflict. She accompanied three secretaries of state on their official travels and also reported from Iran, Libya, Israel, Egypt, North Korea, Russia, China, Saudi Arabia and Syria. Barbara, who has lived in Russia, China, Japan and Egypt, has also written for The Economist and The New York Times. She is a regular commentator on U.S. foreign policy on National Public Radio, the Public Broadcasting System and C-Span. She wrote her book on Iran, which she has visited seven times, as a public policy scholar at the Woodrow Wilson International Centre for Scholars in 2006 and spent Oct. 2007 to Jul. 2008 as senior fellow at the U.S. Institute of Peace, where she researched and wrote a report on Iranian regional influence, entitled ‘Mullahs, Money and Militias: How Iran Exerts Its Influence in the Middle East’.

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