Washington, Estados Unidos, 16/03/2011 – A incursão da Arábia Saudita no Bahrein é uma medida de risco que pode inflamar o descontentamento interno que suportam os dois governos e favorecer a propaganda do Irã entre as populações xiitas de seus vizinhos árabes.
Porém, alguns analistas disseram que não existia uma ameaça aparente à infraestrutura e que a intervenção parece ser uma tentativa torpe de intimidar os manifestantes que construíram uma cidade com barracas de campanha na Praça Perla, na capital, impondo controles nas ruas do centro financeiro de Manama. “Não entendo. Não creio por um minuto que esta seja uma resposta coletiva a uma decisão dos chanceleres do Conselho de Cooperação do Golfo”, disse o especialista saudita Thomas Lippman, do Council on Foreign Relations (Conselho sobre Relações Exteriores).
A medida parece refletir o pânico dos sauditas e da família muçulmana sunita que governa o país, os Khalifa, diante da persistência dos protestos populares. O rei declarou estado de emergência por três meses, após semanas de manifestações contra o governo. A população do país é predominantemente xiita e durante muito tempo se queixou de discriminação no governo e na economia.
Nos últimos dias também houve manifestações na saudita Província Oriental, majoritariamente xiita e ligada ao Bahrein por uma passagem elevada de 26 quilômetros. Ali está a maior parte das instalações petroleiras sauditas. “Os sauditas temiam que as manifestações no Bahrein contagiassem os xiitas da Província Oriental. Assim, simplesmente tiveram que avançar”, disse Simon Henderson, analista de temas do Golfo no Washington Institute for Near East Policy.
Henderson disse ser possível que as forças sauditas, que pareciam incluir tanto unidades da Guarda Nacional quanto do Exército, foram usadas para dispersar barricadas armadas pelos manifestantes em torno do centro financeiro de Manama, pontal da economia do país. Ontem já foram registrados confrontos e as mortes de dois manifestantes e um saudita, em circunstâncias pouco claras.
Henderson disse que a intervenção saudita poderá dificultar ainda mais que o Bahrein chegue a uma solução política. Enquanto os xiitas denunciam discriminação, outros cidadãos também têm queixas sobre as mudanças políticas que reduziram o poder do parlamento e sobre o fato de a família Khalifa dominar os principais postos ministeriais. O primeiro-ministro, tio do rei Hamad, está no cargo desde a independência do país, em 1971.
Os meios de comunicação sauditas acusam o xiita Irã de fomentar os protestos nos dois países, mas os analisas afirmam que há poucas provas disso. “O Irã não é a força-guia nessas ações”, disse Afshin Molavi, especialista em temas do Irã na New American Foundation em uma audiência no Woodrow Wilson International Center for Scholars. Molavi disse que a imprensa estatal iraniana que se dirige aos cidadãos de fala persa, praticamente não menciona a situação no Bahrein.
No entanto, o canal via satélite iraniano Al-Alam, que transmite em idioma árabe, se centra muito nos protestos e na incursão saudita. As dez principais matérias cobertas no dia 14 pela emissora tiveram a ver com o Bahrein, disse Molavi. E, segundo Lippman, “o Irã pode se beneficiar disto cruzando os braços” para ver como age a ira no mundo árabe com a intervenção saudita.
Um funcionário iraniano, que pediu para não ser identificado, disse à IPS que o Irã condenou a ação saudita e que, provavelmente, orquestrará suas próprias manobras militares, mas não enviará forças ao Bahrein. Fazendo eco a outras declarações regionais, o funcionário disse acreditar que o Bahrein havia obtido aprovação dos Estados Unidos para que sauditas e efetivos dos Emirados Árabes Unidos entrassem em seu território quando o secretário da Defesa, Robert Gates, visitou o Bahrein na semana passada.
O governo de Barack Obama negou essa afirmação, mas não condenou a medida da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, apesar de ter pedido urgência às tropas estrangeiras e às autoridades do Bahrein a se conterem. “Esta não é a invasão de um país”, disse, no dia 14, Jay Carney, porta-voz da Casa Branca.
Além de afirmar que se preocupa com os “direitos universais” do meio milhão de cidadãos do Bahrein, Washington se mostrou preocupado em proteger sua base nesse país árabe, onde estaciona a quinta frota dos Estados Unidos. Cerca de três mil militares vigiam 30 embarcações e 30 mil navegantes do Bahrein. Estas forças norte-americanas têm por objetivo proteger do Irã os Estados do Golfo. A base também é usada para apoiar os soldados norte-americanos no Iraque e no Afeganistão. Envolverde/IPS
* Com colaboração de David Elkins.


