Washington, Estados Unidos, 16/03/2011 – Diante do avanço das forças do governo da Líbia sobre a cidade de Bengasi, reduto dos rebeldes, acaba o tempo para uma intervenção militar dos Estados Unidos e seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). O conflito na Líbia foi o centro das atenções do encontro de chanceleres do Grupo dos Oito países mais ricos, em Paris, e foi tema de discussão do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, reunido no dia 14 a portas fechadas para examinar um pedido da Liga Árabe para impor uma zona de exclusão aérea em algumas áreas.
A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, se reuniu, no mesmo dia, na capital francesa com representantes líbios, que, aparentemente, pediram que Washington os reconheçam como governo interino e solicitaram ajuda imediata com a criação da zona de exclusão aérea. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, reiterou que o líder líbio, Muammar Gadafi, “deve partir”, mas não ofereceu nenhuma pista sobre as medidas que tomará para proteger os rebeldes e deter o avanço das forças governamentais.
“É muito importante para nós avaliarmos várias opções e pressionar mais Gadafi”, afirmou em breve entrevista na Casa Branca por ocasião da visita do primeiro-ministro da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen. “Continuaremos coordenando com Otan, ONU e outros fóruns internacionais as opções que nos permitam alcançar um resultado melhor para o povo líbio”, acrescentou Obama.
As forças de Trípoli, com tanques, infantaria e helicópteros, recuperaram a cidade de Zawiyah, perto da capital, e se acantonaram em Misurata. A única do Oeste do país nas mãos dos rebeldes na semana passada. Também recapturaram Ras Lanuf, onde fica uma importante refinaria de petróleo, e a maior parte de Brega, 110 quilômetros a Leste. Moradores de Ajdabiya disseram, no dia 14, que a cidade, que fica 160 quilômetros ao Sul de Bengasi, foi atacada por ar e com artilharia.
“Logo o debate será estéril porque as forças de Gadafi parecem recuperar terreno a um ritmo que impedirá a comunidade internacional reverter a situação”, disse Charles Kupchan, especialista da organização Council on Foreign Relations (Conselho sobre Relações Exteriores). A discussão sobre uma possível intervenção internacional surgiu tão logo ficou claro que Gadafi, ao contrário dos presidentes da Tunísia, Zine el Abidine Ben Ali, e do Egito, Hosni Mubarak, daria uma resposta militar aos rebeldes que querem sua saída.
Como na década de 1990, quando foi discutido intervir na região dos Bálcãs, desta vez o debate também colocou de um lado neconservadores e liberais e, de outro, “realistas”. No grupo intervencionista está o ex-presidente Bill Clinton, que apoiou a zona de exclusão aérea; o secretário de Defesa do ex-presidente George W. Bush, Paul Wolfowitz, e a diretora de planejamento político da chancelaria, Anne-Marie Slaughter.
Em uma cúpula realizada no dia 11, em Bruxelas, Slaughter criticou o governo Obama e a União Europeia por não chegarem a um acordo sobre ações militares, apesar de pedirem a saída do líder líbio. Se o Conselho de Segurança não autorizar uma zona de exclusão aérea, Washington terá de reconhecer o regime de Bengasi como governo legítimo, como fizeram França e Portugal na semana passada, e trabalhar com a Liga Árabe para lhe dar toda a ajuda necessária.
Contudo, os realistas, entre os quais figura o general da reserva Wesley Clark, que comandou a campanha da Otan em Kosovo, em 1999, consideram que uma zona de exclusão, ou mesmo o fornecimento de ajuda militar direta, pode ser um “terreno escorregadio” que empurraria Washington para uma intervenção que não pode assumir por causa de suas responsabilidades no Afeganistão e no Iraque. “Uma zona de exclusão aérea pode parecer simples, mas como Gadafi continua avançando, logo será necessário recorrer à aviação e aos efetivos em terra, uma exigência maior para uma força com muitas frentes”, escreveu Clark, no dia 13, no The Washington Post.
“Se não levarmos a sério a questão de dar aos rebeldes a possibilidade de derrotar e destituir Gadafi, será preciso muito mais do que acabar com a aviação Líbia e adotar meias medidas, que podem acabar causando mais mal do que bem”, disse Kupchan. “Creio que a cautela impera nos dois lados do Atlântico e que as vozes favoráveis a uma intervenção são significativas, mas perdem o debate”, afirmou.
A aprovação da Liga Árabe é significativa, mas não inclinará a balança para Washington ou a União Europeia a menos que os países-membros estejam dispostos a oferecer mais apoio diplomático e político, além de ações militares. O argumento mais contundente dos intervencionistas, ou pelo menos o de maior ressonância no âmbito local, é que a vitória de Gadafi pode diminuir, ou mesmo reverter, o crescimento de movimentos democráticos que nos últimos dois meses se espalharam pelo mundo árabe.
“Se sobreviver, o vírus da autocracia pode regressar à região”, disse o colunista do The Washington Post, Jackson Diehl. “Seria um retrocesso definitivo para os movimentos democráticos”, concordou Kupchan. Obama demonstrou certa ambivalência sobre os movimentos rebeldes árabes, especialmente no Bahrein e no Iêmen, cujos líderes, apoiados por Washington, rechaçam há várias semanas o clamor popular por reformas radicais.
“Diante dos conselhos contraditórios sobre os passos a seguir, a moeda lançada do lado da falta de ação para a Casa Branca, pode significar que não fazer nada seja a forma de minar a força dos reformistas e da oposição”, disse Wayne White, ex-analista sobre Oriente Médio do Departamento de Estado. “Os Estados Unidos, no fim das contas, são uma potência do status quo”, acrescentou. Envolverde/IPS

