MALAWI: Elogio ao saneamento a seco

LILONGWE, 17/03/2011 – No melhor dos casos, não usa água, é inodoro, eminentemente acessível, e produz um rico fertilizante como subproduto mas, contudo, para os residentes dos bairros de lata do Malawi, o saneamento a seco proporciona uma baforada não desejada. Pelo menos dois terços da população urbana do Malawi, composta por dois milhões de pessoas, vive em bairros degradados sem casas de banho adequadas. Nos bairros de lata de Lilongwe, densamente povoados, como Mtsiriza, Mgona ou Senti, frequentemente dezenas de pessoas partilham uma única casa de banho.

Alex Makande, do bairro de lata de Mgona, vive num complexo com 83 pessoas. “É uma situação terrível. As manhãs são piores. As pessoas fazem fila para ir à casa de banho e, às vezes, temos de pedir para usarmos as casas de banho em complexos vizinhos que não têm tanta gente.”

O acesso à água canalizada é limitado em zonas como esta, e geralmente não há canos de esgotos.

Monalissa Nkhonjera, especialista de comunicação e ensino que trabalha para a ONG internacional WaterAid, explica que um complexo médio nos bairros de lata tem oito famílias, mas normalmente há apenas uma única latrina.

A WaterAid trabalha nos bairros de lata de Lilongwe implementando uma solução adequada e sensível ao uso de água. “Promovemos a construção de latrinas de saneamento ecológico com placas para cobrir o fosso e com telhado de zinco ou de palha. As paredes são feitas de tijolos cozidos ou mal cozidos.

As latrinas de saneamento ecológico têm dois fossos. As cinzas usadas pelas famílias são espalhadas na latrina após cada visita à casa de banho para minimizar o cheiro e acelerar a decomposição. Depois de um fosso ficar cheio, usa-se o segundo fosso e os resíduos no fosso que está cheio têm tempo suficiente para se decomporem completamente num fértil e seguro estrume.

Instalações detestadas

Mas Manesi Phiri, de Senti, outro bairro de lata informal nos arredores de Lilongwe, onde a WaterAid está a promover os seus produtos, não está satisfeito.

“As sanitas com autoclismo são mais convenientes. Basta deixar correr a água para empurrar os excrementos após uma visita à casa de banho. As latrinas agravam o nosso baixo estatuto de pessoas pobres. São humilhantes,” disse à IPS.

As latrinas são um sinal de pobreza, ao passo que as sanitas com autoclismo são um símbolo de um estatuto mais elevado. Phiri explica também que as comunidades das zonas urbanas utilizam pouco o fertilizante produzido nas latrinas de saneamento ecológico.

“Não temos jardins nas nossas comunidades e também não cultivamos a terra e, por isso, não precisamos de fertilizantes. Não podemos vender estes fertilizantes aos habitantes da cidade, que usam adubos químicos nas suas hortas familiares, visto acharem que os fertilizantes das latrinas são repugnantes.”

Phiri admite que os fertilizantes das latrinas de saneamento ecológico não têm qualquer cheiro e que se assemelham a qualquer outro adubo, mas insiste que as pessoas ficam enojadas só de pensar na sua proveniência.

Nos bairros de lata de Lilongwe, as pessoas não rejeitam de modo algum o saneamento ecológico, embora Makande também prefira uma sanita com autoclismo. “Mas isso agora é só um sonho. Temos de continuar a usar as latrinas que estão à nossa disposição; as latrinas de saneamento ecológico são melhores que as latrinas convencionais e, por isso, temos de aceitá-las,” disse este homem, que trabalha como guarda nocturno na Zona 10, umas das zonas prósperas de Lilongwe.

Deve usar-se água?

Os pobres têm uma escolha limitada. Mas com as alterações climáticas a ameaçarem o abastecimento de água nas cidades, não só no Malawi como em toda a região da África Austral, pode ser necessário um plano abrangente para as zonas urbanas para que os ricos adoptem as sanitas produtoras de fertilizante.

Uma sanita usa entre seis a 11 litros cada vez que a água é usada – as 640.000 pessoas com sorte que têm acesso a sanitas com autoclismo no Malawi constituem uma pressão muito maior nos velhos sistemas de água do que os seus compatriatoas nos bairros de lata. Milhões – centenas de milhões de litros de água – são efectivamente desperdiçados quando se descarrega a água para empurrar resíduos para a rede de esgotos, um processo que, no final, requer tratamento adicional antes de a água ser libertada nas cursos de água do país de forma segura.

Na Zona 43, uma das zonas mais prósperas de Lilongwe, a IPS falou com Richard Gulumba, que usa uma latrina de saneamento ecológico no quintal. Construiu-a tendo em vista as frequentes faltas de água em Lilongwe.

“Mas a minha família e eu ainda temos dificuldade em usar a latrina. Faz-me recordar a vida na aldeia, o que não é desejável. Cresci pobre, não quero recordar as experiências que passei e usar uma latrina é uma das coisas que não quero fazer, agora que posso pagar para ter coisas melhores como uma sanita com autoclismo,” disse Gulumba.

Como acontece com os seus homólogos mais ricos em África, e mesmo no mundo, provavelmente Gulumba não se apercebe dos modelos mais avançados de latrinas com dois compartimentos nos bairros de lata. Embora os preconceitos contra o saneamento a seco sejam bastante generalizados, há casas de banho de luxo sem água desde o México ao Canadá, desde a Suécia à Austrália.

Latrinas elegantes

A companhia sul-africana ECOSAN produz uma unidade independente de saneamento que, de forma inteligente, usa a acção de abrir e fechar a tampa para accionar um parafuso que empurra os resíduos para uma câmara ventilada, onde são transformados em fertilizante sem grandes demoras. A Retrete Natural da Austrália apresenta um sistema com câmaras permutáveis produtoras de fertilizante e uma ventoinha que assegura o fluxo de oxigénio apropriado para acelerar a decomposição.

Dentro de casa: um pedestal “branco quente” com um assento de “carvalho cor de mel”… mesmo os convidados mais exigentes não entram em pânico quando não conseguem encontrar uma maçaneta para fazer a água correr.

Nkhonjera da WaterAid afirma que as latrinas que produzem adubos, que impedem a poluição da água subterrânea, representam a melhor opção para os habitantes dos bairros de lata e comunidades rurais. “Estas áreas são bairros de lata que não têm acesso a água corrente. Não é realista instalar sanitas com autoclismo.”

Se os habitantes mais ricos da África Austral também pensassem na melhor maneira de usar a água disponível, o saneamento a seco podia assumir um lugar de maior proeminência como solução para a crescente escassez de água.

Claire Ngozo

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *