QUÉNIA: Pastores quenianos olham para o passado para garantir o futuro

NAIROBI, 17/03/2011 – Observando tudo como é seu costume sentado numa uma cadeira no exterior da sua habitação, David Lenamira não tem dificuldade em selecionar as suas ovelhas quando os rapazes que tomam conta dos rebanhos as levam para casa no fim da tarde. Os animais de cor castanho-avermelhado são mais pequenos do que aqueles que pertencem aos rebanhos dos vizinhos mas, apesar de tudo, está orgulhoso deles.

“O sonho de qualquer criador de animais é fazer lucro que, na maioria dos casos, decorre da criação de animais que podem crescer mais rapidamente e têm uma elevada produtividade. Mas a experiência ensinou-me que isso nem sempre é verdade,” afirmou este agricultor de Sirata-oribi, no distrito de Samburu Central, no norte do Quénia. Ao contrário da maior parte dos vizinhos, o rebanho de Lenamira é composto por ovelhas Maasai Vermelhas. A raça mais comum nesta parte semi-árida do país são as Dorpers, uma exótica raça de ovelhas provenientes originalmente da África do Sul. Ovelhas criadas por medida “A raça de ovelhas Dorpers foi desenvolvida especificamente para condições climáticas semi-áridas. Mas, comparadas com as Maasai Vermelhas, as Dorpers têm um corpo mais volumoso, o que indica que precisam de mais rações. As Dorpers também são menos resistentes a pestes e doenças, tendo sido desenvolvidas durante um período mais curto do que as Maasai Vermelhas,” afirma a Drª. Pat Lenyasunya, veterinária especializada em actividades de pastoreio em Samburu. Os pastores nas zonas secas do Quénia dizem que as ovelhas Dorpers se mostram agora menos resistentes quando afectadas pelas secas mais frequentes causadas pelas alterações climáticas. Estas condições evidenciam as qualidades das Maasai Vermelhas de Lenamira. Esta raça indígena do Quénia, de cor castanho-avermelhado, não é muito popular internacionalmente devido à sua pequena estatura e porque tem pelos no corpo em vez de lã. “Vi os meus vizinhos perderem as suas ovelhas Dorpers devido à seca e não quero passar por essa experiência,” diz Lenamira. O seu amigo Kalani Lenguris, da aldeia de Nontoto, ainda sente difuldades após ter perdido 300 ovelhas durante a seca do ano passado. “Perdi quase todas as Dorpers puras durante a seca. As restantes são cruzamentos de raças com as Maasai Vermelhas, mas já estão a ficar muito magras devido à seca que assola o campo neste momento,” disse Lenguris à IPS. Mas as Maasais Vermelhsa estão sob pressão, segundo o Dr. Jacob Wanyama, coordenador da Rede Vida Africana, que trabalha no sentido de defender os direitos e o meio de subsstência dos pastores. “Não é fácil encontrar raças indígenas puras, especialmente de gado, ovelhas e cabras.” “Os poucos animais que sobrevivem têm pelo menos alguns genes de animais exóticos, o que dilui a pureza do material genético indígena original,” explica. “Quando trabalhei como funcionário de extensão agrícola nos anos 80, uma das políticas do governo era a promoção de raças de animais de elevada produção, encorajando-se os pastores a manterem raças exóticas ou a cruzarem raças. Nalgumas alturas, encorajámos os agricultores a castrarem os machos indígenas para que ficassem dependentes de inseminação artificial ou para que os seus progenitores fossem provenientes de raças exóticas.” Naquela altura, diz Wanymana, o aumento da produtividade do gado parecia ser a varinha mágica que iria resolver o problema da probreza. “Não sabíamos então que essa decisão se iria virar contra nós; a maior parte das raças de animais actualmente existentes no Quénia e em muitos outros países africanos não são raças indígenas puras nem animais exóticos puros. A biodiversidade genética pura, especialmente em África, está quase extinta. Pastores salvam ovelhas Numa tentativa para salvaguardar as restantes ovelhas indígenas puras, Lenamira e outros, com o apoio da Rede Vida Africana, formaram um grupo de conservação composto por 60 pastores do distrito, especialistas na criação de Maaasai Vermelhas. Cada um deles possui entre 200 a 500 animais. O grupo de conservação pode ter encontrado alguns aliados num sector inesperado. Os especialistas em genética animal do Instituto Internacional de Investigação sobre Gado (ILRI) em Nairobi descobriram que a raça das Maasai Vermelhas tem características genéticas que as tornam resistentes a parasitas intestinais, um problema grave não só para os pastores quenianos mas também em explorações comerciais na Austrália e Nova Zelândia. O Dr.Okeyo Mwai, um dos principais investigadores do ILRI, afirma que os genes individuais ainda não foram isolados, e que os os cientistas ainda estão muito longe de conseguirem transferir características específicas para outras raças de ovelhas. “Neste momento, a opção mais lógica é fazer reproduzir as Maasai Vermelhas (de forma convencional) com vista a obter maior crescimento, fertilidade e eficácia alimentar,” declara o Dr. Mwai, que diz ainda: “Os cruzamentos com outras espécies mais resistentes visam garantir que esses genes tão importantes não se perdem, mas que são conservados em rebanhos comerciais de forma sustentável, visto que temos de esperar até que as tecnologias genómicas se tornem mais acessíveis e práticas.” O governo do Quénia reconheceu rapidamente que, com excepção dos modestos esforços de grupos como o de Lenamira, os seus tesouros genéticos, como as Maasai Vermelhas, estão ameaçados, e que as raças indígenas necessitam de protecção urgente. Esta percepção levou o governo queniano a criar o Conselho Consultivo Nacional sobre Recursos Genéticos Animais, visando coordenar os agricultores de gado indígena, instituições para a investigação, universidades e todas as outras partes interessadas, numa tentativa para preservar os restantes recursos genéticos. “O Conselho já foi criado. Nesta altura, estamos em vias de elaborar um projecto de lei sobre esta matéria, que será apresentado ao governo durante o mês de Fevereiro de 2011, para depois se transformar em legislação” disse Cleopas Okore, Directora Adjunta do Ministério Para a Indústria Pecuária e Desenvolvimento, e coordenadora do Conselho Consultivo sobre Recursos Genéticos Animais. O isolamento dos genes das Maasai Vermelhas, resistentes aos parasitas, pode levar esta descurada raça de ovelhas a ser considerada um recurso muito importante, proporcionando aos agricultores um mecanismo biológico de controlo de parasitas muito necessário.

Isaiah Esipisu

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