CUBA: Em matéria de mudança, nem sempre dois mais dois são quatro

Havana, Cuba,, 17/03/2011 – Muitos cubanos foram às casas de câmbio ao saberem da desvalorização do peso conversível e a criação de uma paridade oficial de um por um com o dólar norte-americano, medida esta que aliviou, mas não resolveu, “o dilema cambiário” no país. A desvalorização, anunciada no dia 14, significa um passo importante para o saneamento financeiro interno, mas o governo decidiu manter a taxação de 10% na transação da moeda norte-americana, o que afeta a maioria das famílias cubanas.

“A verdade é que, quando ouvi a notícia, só me dei conta de que o câmbio estava um por um. Fui para a Cadeca (casa de câmbio) com minhas economias e ali descobri que já não perco tanto como na semana passada, mas continuo perdendo”, disse à IPS Rolando Morales, aposentado de 64 anos.

De 2005 até agora, a taxa de câmbio por US$ 1 era de 0,92 CUC, a divisa livremente conversível de circulação nacional. Ontem, a cotação do dólar na Cadeca abriu em 0,96 CUC por unidade, após aplicar o desconto que corresponde aos custos operacionais da entidade que fornece o serviço bancário. As autoridades consideram que cerca de 60% da população tem acesso à moeda conversível, por meio do envio por familiares, gorjetas, serviços por contra própria, programas de estímulo salarial ou pagamento feito por entidades estrangeiras radicadas no país. Entretanto, o acesso, em muitos casos, pode ser limitado e esporádico.

Rolando, que trabalhou “toda a vida” na área administrativa de um hospital de Havana, vive de sua pensão e de “um dinheirinho” que “sempre que pode” sua filha envia dos Estados Unidos. Agora, “é preciso ver o que mais se pode fazer porque mesmo com a ajuda da família a situação fica difícil”, acrescentou. Viúvo há um ano, ele divide seu apartamento com um neto que estuda na universidade e “tem a cabeça em qualquer lugar, menos onde está o dinheiro” para manter a economia familiar. “Parece pensar que sua mãe tem obrigação de nos manter por toda a vida”, acrescentou.

Um acordo do Comitê de Política Monetária do Banco Central de Cuba garantiu que a taxa sobre o dólar se mantém “como compensação pelos custos e riscos que origina a manipulação da moeda estrangeira”, devido às sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos contra Cuba há mais de 50 anos. A “taxação” sobre o dólar data de 2004 e foi uma resposta oficial de Havana à política agressiva do então presidente George W. Bush, com a aprovação de um plano que pretendia desestabilizar o governo de Fidel Castro e permitir o chamado “trânsito para a democracia” na ilha.

Segundo o Banco Central, a desvalorização do CUC deverá ser “um estímulo para a atividade exportadora” e, junto com outras condições econômicas como o necessário aumento da eficiência, “favorecerá a criação de condições mais propícias nas relações financeiras externas”. Além disso, a medida poderá estimular o turismo, sobretudo o procedente da América Latina e dos Estados Unidos, país que acaba de ampliar os aeroportos onde são permitidos voos diretos para a ilha, uma opção que beneficia principalmente a comunidade cubana nesse país, cerca de 1,5 milhão de pessoas.

Também terá impacto importante na população da ilha, que recebe anualmente cerca de US$ 1 bilhão em remessas, e naquelas pessoas que começam a optar pelo estabelecimento de pequenos negócios privados após a ampliação das oportunidades de trabalho por conta própria, decretada em 2010. No entanto, o câmbio entre CUC e dólar é apenas uma aresta no labirinto financeiro cubano. O CUC continua equivalendo a 25 pesos moeda nacional, uma taxa que desestimula a produção ao afetar o valor real do salário médio, de 448 pesos no final de 2010.

A eliminação da dualidade monetária – uma intenção expressada pelo presidente Raúl Castro desde que chegou ao poder em julho de 2006, após a saída de cena de seu irmão Fidel Castro – é uma medida necessária, que exigirá tempo pela grande variedade de mecanismos econômicos e financeiros que estão envolvidos. Ao mesmo tempo, o economista Pavel Vidal, especialista do Centro de Estudos da Economia Cubana, afirmou em um documento inédito, ao qual a IPS teve acesso, que a eliminação da dualidade monetária não acabaria por si só com as desigualdades, acentuadas desde o começo da crise econômica da década de 1990.

A capacidade de compra da moeda nacional preocupa ainda mais diante do cenário de desaparecimento gradativo da “libreta”, sistema de distribuição regular e subsidiada de alimentos que, embora insuficiente desde o começo dos anos 1990, garante o acesso a uma parte da cesta básica. “Dizem que se passará de uma política de subsídio para todos para subsídio diferenciado para diferentes grupos populacionais, mas a realidade é que poucos têm claro como isso vai funcionar”, disse Rolando, preocupado porque já há produtos, como sabão e detergente, que “saíram da ‘libreta’”.

Segundo Pavel, a eliminação paulatina da “libreta” tem “um impacto nas famílias de baixa renda que deveria ser coberto pela política social o mais rápido possível”, considerando que salários, aposentadorias e pensões não são ajustados para compensar o aumento de preços que a medida representa. “A política social cubana tem diante de si grandes desafios já que se enfrenta um cenário diferente, caracterizado por novos grupos vulneráveis que surgem do aumento do desemprego e da eliminação do sistema de subsídios generalizados”, afirmou Pavel em seu texto analítico. Envolverde/IPS

Dalia Acosta

Dalia Acosta ha sido corresponsal de IPS en Cuba por muchos años. Se graduó en 1987 de la licenciatura en periodismo internacional en el Instituto Estatal de Relaciones Internacionales de Moscú. Trabajó un año en el diario cubano Granma y otros seis en Juventud Rebelde, donde incursionó en el periodismo de investigación sobre mujer, minorías, sida y derechos sexuales. En 1990 recibió el Premio de Periodismo Tina Modotti, y en 1992 el Premio Nacional de Periodismo por un reportaje sobre la comunidad rockera de su país. Empezó a colaborar con IPS en 1990 como parte de un proyecto de comunicación con el Fondo de Población de las Naciones Unidas (UNFPA). Desde 1995 se desempeña como corresponsal en La Habana, y entre 1991 y 2010 trabajó también para el Servicio de Noticias de la Mujer de Latinoamérica y el Caribe (SEMLac).

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