Sana’a, Iêmen, 22/03/2011 – Vários altos comandantes do exército do Iêmen declararam seu apoio ao movimento popular que reclama a renúncia do presidente Ali Abdulah Saleh.
O presidente Saleh, no poder desde 1978, afirmou também ontem que a maioria da população o apoia, apesar de seu regime perder apoio de chefes militares e líderes tribais. “Ainda estamos aqui… a grande maioria do povo iemenita está com a segurança, a estabilidade e a lei”, disse o mandatário, segundo a agência estatal de notícias. “Aqueles que querem o caos, a violência, o ódio e a sabotagem são uma pequena minoria”, acrescentou.
Pouco depois dessas declarações, o ministro da Defesa, Mohammad Nasser Ali, afirmou diante das câmeras da TV nacional que as forças armadas apoiam o presidente e o defenderão contra “qualquer golpe contra a democracia. As forças armadas permanecerão fieis ao juramento que fizeram perante Deu, a nação e à direção política conduzida pelo irmão presidente Ali Abdulah Saleh”.
Entretanto, vários chefes militares alinharam-se com o general Saleh e desertaram, como o brigadeiro Hameed Al Koshebi, comandante da brigada 310 do Comando de Amran, no noroeste do país; o brigadeiro Mohammad ali Mohsen, chefe da divisão oriental; o brigadeiro Nasser Eljahori, chefe da brigada 121, e o general Ali Abdulaha Aliewa, conselheiro do líder supremo do exército do Iêmen, entre outros.
Em uma entrevista coletiva, o general Saleh disse: “o Iêmen sofre uma enorme e perigosa crise. A falta de dialogo e a opressão de manifestantes pacíficos levaram a uma crise que cresce dia a dia. Por isso, e porque sinto as emoções dos oficiais e chefes das forças armadas, que são parte do povo e protetores do povo, declaro em seu nome nosso apoio pacífico à revolução juvenil e às suas demandas, e que cumpriremos nosso dever”.
Dezenas de pessoas morreram nos últimos dias pela repressão com armas de foto contra manifestantes na capital, Sana’a. na sexta-feira passada, após nova jornada de violência, vários ministros renunciaram, bem como o embaixador iemenita junto às Nações Unidas, Abdulah Alsaidi.
A ministra de Direitos Humanos, Huda Al-Baan, explicou que sua saída do governo e do partido governante foi em protesto pelo “massacre” de manifestantes, segundo disse em um comunicado divulgado na noite do último sábado. O embaixador do Iêmen na Arábia Saudita, Mohammad Al Ahwal, também alinhou-se com os manifestantes, ontem, ao exigir a saída do presidente Saleh.
Também ontem, os embaixadores destacados no Líbano, na Síria, Jordânia, Kuwait, Egito e China renunciaram aos seus cargos e alguns deles também deixaram o partido do governo. O editor-chefe do jornal Yemen Post, Hakim al Masmari, disse à rede de televisão Al Jazeera que as renúncias desta segunda-feira representam o fim de Saleh. “É oficial, agora, que 60% do exército aliaram-se aos manifestantes”.
“O fato de Ali Mohsen Saleh ter feito este anúncio é um claro sinal para o presidente de que o jogo acabou e deve renunciar”, disse Masmari. “É a queda do exército iemenita. Até a meia-noite esperamos que 90% dos militares tenham se colocado ao lado de Mohsen Saleh. Segundo nossas fontes, o presidente sabia que isto ocorreria e espera que o general permita que se retire sem mais humilhação”, acrescentou.
Entretanto, o jornalista destacou que o general Saleh não é uma figura aceitável. “Ele nãos era admitido pelos jovens. Isto não é o começo de um regime militar não Iêmen, e o governo de transição deverá ser civil”, afirmou. O general “também é muito corrupto e não é respeitado no Iêmen, mas é que abrirá a porta para a queda do regime”, acrescentou.
No domingo passado, o mandatário destituiu todo seu gabinete após um mês de manifestações reclamando sua renúncia e reformas política. O presidente solicitou ao gabinete que atuasse como governo provisório até a formação de nova administração.
Acrescentando mais pressão, Hashed, a conferência tribal mais influente do país, solicitou a renúncia de Saleh.
O xeque Sadiq al-Ahmar, líder da Hashed, que inclui a própria tribo do presidente, divulgou um comunicado pedindo ao mandatário que atenda o povo e parta em paz. O texto foi assinado por vários líderes religiosos. Jamila Ali Raja, uma ex-porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Iêmen, disse à Al Jazeera que “se prepara o cenário de uma proteção militar e, ao mesmo tempo, se investira em um governo de transição, de modo que o cenário é semelhante ao do Egito”.
O jovem ativista Gabool al Mutawakil disse à Aj Jazeera que “estamos no meio de dois exércitos, o que se uniu aos manifestantes e o que segue sob a autoridade do presidente Saleh. Há medo de uma guerra civil, mas insistimos em ter uma revolução pacífica”.
A violência empregada para reprimir os protestos foi condenada pelas Nações Unidas e pelos Estados Unidos, que apoiam o regime do Iêmen com centenas de milhões de dólares em ajuda militar para combater o grupo extremista islâmico Al Qaeda, baseada neste país. Os clérigos muçulmanos exortaram os soldados a desobedecerem as ordens de atirar contra os manifestantes e acusaram o presidente Saleh das mortes cometidas sexta-feira. Testemunhas contaram que “capangas” do governo dispararam desde os telhados contra a multidão na praça da Universidade de Sana’a, que há semanas é o epicentro dos protestos.
“As deserções são em todos os lados, e isto é apenas o começo”, disse à Al Jazeera o analista político Abdul Ghani Al Iryani. “Se não conseguirmos algum tipo de reconciliação nacional, estas defecções continuarão até a queda do regime. O presidente está falando com vários grupos políticos, mas não com o mais importantes: os jovens da praça”, acrescentou. “Se ele quiser sair disto terá de atender suas reclamações, incluí-los em um dialogo nacional e aceitar o fato de que boa parte de seus poderes deverão ser transferidos para um governo de unidade”, ressaltou. Envolverde/IPS
*Publicado sobacordo com a Al Jazeera.


