Havana, 15/07/2005 – Opositores consideraram "desproporcional" a resposta do governo de Cuba a umas poucas manifestações de dissidentes que tentaram lembrar a afundamento há 11 anos de uma embarcação com emigrantes não autorizados. "Foi uma exibição de força por parte do governo", disse à IPS o ativista Elizardo Sánchez, da Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional, sem reconhecimento legal no país, ao se referir aos acontecimentos de quarta-feira em dois pontos do centro de Havana. Segundo o ativista, algumas dezenas de manifestantes "apanharam" de membros das Brigadas de Resposta Rápida, integradas por civis defensores do governo de Fidel Castro, que costumam intervir em lugar da polícia para impedir qualquer conotação "contra-revolucionária".
Os dissidentes lançaram flores no mar em memória de 40 pessoas que morreram no dia 13 de julho de 1994 quando afundou o rebocador "13 de Marzo", no qual tentavam fugir para os Estados Unidos sem autorização das autoridades cubanas. A embarcação, que havia sido roubada do porto e tinha mais de 60 pessoas a bordo, naufragou depois de ser atingida por outra das que saíram em sua perseguição. Segundo as autoridades, a colisão foi acidental, mas grupos de oposição insistiram em afirmar que foi intencional. Unidades navais de guarda-fronteiras chegaram ao local depois do afundamento e colaboraram no resgate dos sobreviventes. De acordo com a organização de direitos humanos Anistia Internacional, morreram afogadas 40 pessoas, incluindo mulheres e crianças.
Na quarta-feira, oposicionistas gritaram algumas palavras de ordem contra o governo, mas logo foram violentamente dispersados por centenas de brigadistas e moradores do lugar. Vários manifestantes ficaram feridos e cerca de 10 foram detidos pela polícia. Como é habitual, a imprensa estatal cubana ignorou estes fatos, enquanto algumas agências internacionais de notícias foram avisadas pelos manifestantes sobre horários e locais de reunião. Em anos anteriores, opositores e familiares das vítimas do naufrágio se manifestaram para recordar o ocorrido, mas sem incidentes. Sánchez afirmou que nas últimas semanas surgiram mostras de descontentamento popular em todo o país, preferencialmente à noite e durante as interrupções no fornecimento de energia elétrica.
"Trata-se mais de manifestações isoladas, desconexas e espontâneas, mais em protesto pelas penúrias (econômicas) do que com fins políticos", disse Sánchez à IPS. O ativista enumerou a colocação de cartazes com dizeres contra o regime em locais públicos, quebra de vitrines no comércio do Estado, e pedras jogadas contra rádio-patrulhas e ônibus. "Há certa inquietação social e política agravada pelo impacto do furacão Dennis, na semana passada", disse Sánchez, estimando que a evacuação de mais de um milhão de pessoas "ultrapassou" a capacidade do governo para garantir sua atenção. Dennis afetou quase todo o país e surpreendeu seus 11,2 milhões de habitantes, afetados pelos prolongados cortes no fornecimento de energia que pioraram a partir de maio e junho, pelos trabalhos de manutenção das centrais termelétricas e contínuas avarias nos equipamentos.
Nos piores momentos vividos na década passada, quando cortes de energia podiam durar mais de 12 horas, o governo de Fidel Castro evitou a mistura explosiva das altas temperaturas de julho e agosto (no verão boreal), com as interrupções no serviço de eletricidade. Os irritantes apagões somam-se às dificuldades no transporte, outro grande problema sem solução á vista, e ao encarecimento do custo de vida, apesar das recentes altas nos salários. O ano de 1994 foi um dos mais tensos da crise econômica sofrida por Cuba depois do desaparecimento do bloco socialista e da dissolução da União Soviética em 1991, da qual dependia em grande parte a economia cubana.
Menos de um mês depois do naufrágio do "13 de Marzo", o Malecón de Havana foi palco dos distúrbios de 5 de agosto. Nesse dia, centenas de pessoas começaram desde cedo a se dirigir para essa avenida que margeia a costa norte da capital, convocadas por emissoras anticastristas baseadas nos Estados Unidos, segundo as quais em Miami estava sendo preparada uma pequena frota de iates particulares para retirar quem quisesse deixar Cuba. A Rádio Martí, financiada por Washington, desmentiu a notícia no final da manhã, mas centenas de pessoas já esperavam na zona de chegada dos iates prometidos. Segundo testemunhas, nesse cenário começaram os primeiros protestos contra o governo, que incluíram apedrejamento de estabelecimentos comerciais.
Simpatizantes do governo, sobretudo operários da construção do contingente Blas Roca, interceptaram os manifestantes, dando início a uma briga de rua com vários feridos e sem intervenção policial. Somente às 13 horas a polícia interveio. Mas os manifestantes não se retiraram totalmente, recobraram as forças e protagonizaram novos choques, desta vez com forças policiais. No meio da tarde, Fidel Castro chegou ao local e percorreu a pé boa parte do cenário de brigas, provocando movimentação entre os últimos opositores e a reação de seus partidários, que haviam se mobilizado em diferentes pontos da cidade. Cerca de 300 pessoas foram detidas nessa oportunidade. Nessa mesma noite, pela televisão Castro culpou o governo norte-americano e reclamou que deixasse de instigar a emigração ilegal, ameaçando eliminar os obstáculos para uma saída em massa de cubanos, não desejada por Havana nem por Washington. (IPS/Envolverde)

