Londres, 14/07/2005 – A declaração divulgada pelo G-8 no último dia 8 apresenta muitos pontos fracos, profundas divisões, falta de ambição e, sobretudo, o fracasso em exercer a liderança mundial por parte de oito presidentes e primeiros-ministros. Seus pontos fracos aumentaram enormemente, suas divisões se aprofundaram e suas ambições quanto à mudança climática e o continente africano foram radicalmente reduzidas ao nível da apatia e das companhias petrolíferas norte-americanas e dos grandes contribuintes. A pergunta que devemos fazer é estes homens merecem a honra de serem chamados "líderes mundiais"?
Primeiro devemos examinar seus pontos fracos. O governo de George W. Bush, apoiado pelas companhias de petróleo, finge não ver o perigo do aquecimento global do planeta (por certo que insistiu em eliminar a primeira fase de uma declaração que se referia ao "aquecimento da terra"). Ao fazer tal coisa, Bush e seu governo colocam em perigo o planeta e o futuro de todos seus habitantes. Outros presidentes e primeiros-ministros mais conscientes do perigo resistiram e isolaram Bush. No entanto, capitularam ao divulgar uma pobre declaração, mais fraca ainda do que pronunciamentos anteriores do G-8 sobre mudança climática que incluíam, significativamente, Bush pai.
O G-8, no momento em que os cientistas de todo o mundo estão aterrorizados diante do aquecimento mundial, não chegou a nenhum compromisso concreto para reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa. Em lugar disso, os integrantes do G-8 colocaram suas assinaturas em frases sem sentido concreto – "abordar a mudança climática, promover uma energia limpa e alcançar um desenvolvimento sustentável" – que denotam falta de visão, de coerência, de coragem e de ambição.
O segundo ponto fraco tem a ver com a economia mundial. Muitos analistas estão alertando sobre perigosos desequilíbrios e instabilidade na economia mundial. Eles se referem concretamente às ameaças que surgem da, historicamente sem precedentes, expansão do endividamento externo dos Estados Unidos e ao crescimento de enormes e improdutivas reservas dos bancos centrais daqueles países que estão financiando o déficit norte-americano, ou seja, Japão, China e Índia. Os analistas também advertem sobre os riscos que representa a transferência de capitais de países pobres, onde são escassos, para países ricos, onde existem em abundância, com Estados Unidos e Reino Unido.
Outros alertam sobre os perigos do encarecimento do petróleo, da crescente demanda de combustível fósseis e sua escassez. Sobretudo, observam que o desemprego em algumas partes do mundo rico é tão alto – se não mais alto – quanto no período que levou à Grande Depressão, enquanto em muitos países pobres é muito maior do que durante a década de 30. Nenhuma destas ameaças e crises parece ter tirado o sono do grupo dos oito governantes que se reuniu em Gleneagles (Escócia). Sua declaração sobre a economia global resume complacência e autoconfiança. Os oito discutiram e nos disseram que "a perspectiva para o crescimento da economia global… é a de que continue sendo vigoroso". Apesar das ameaças deflacionárias sugeridas pelos "mercados abertos" de capitais e de bens que giram vertiginosamente e sem controles, eles "reafirmaram seu compromisso de abrir mais amplamente os mercados…" e reduzir "os subsídios domésticos que distorcem o comércio… para uma data final crível". Isso é tudo.
Mas é na relação com a África que esses oito homens deixam mais exposta a fraqueza de sua liderança. Estava em discussão a proposta de aumentar a ajuda para esse continente em US$ 50 bilhões em 2006 para enfrentar a praga da aids, recompensar pelo passado despojo de ativos e bens africanos e fazer frente ao empobrecimento africano. Em lugar disso, depois de uma longa declaração exortando os líderes africanos a realizarem "bom governo" e "promover o crescimento", os oitos não prometeram novas contribuições em dinheiro em 2006. Simplesmente reiteraram velhos compromissos de aumentar a ajuda à África no valor de US$ 25 bilhões no prazo de cinco anos.
Como lembrou uma ONG do Reino Unido, apenas US$ 10 bilhões deste compromisso constituiriam uma contribuição nova em 2010, ou seja, muito menos do que os US$ 50 bilhões adicionais para 2006 pelos quais o movimento social "Fazer com que a pobreza seja história" fez campanha. A Cúpula de Gleneagles de 2005 mostrou o perigoso vazio existente na liderança mundial. Será provavelmente lembrada por futuras gerações como uma reunião de oito homens ineficazes que, às custas de seus contribuintes, se isolaram em remotas colinas da Escócia das realidades da instabilidade econômica, climática e política. (IPS/Envolverde)
(*) Ann Pettifor, diretora do Advocacy International e editora do Real Word Economic Outlook, Macmillan, Londres (pettiforann@yahoo.co.uk).

