Energia: Gerador termonuclear gera dúvidas

Paris, 13/07/2005 – A euforia depois da decisão de construir na França o Reator Termonuclear Experimental Internacional (ITER) parecer ter evaporado. Ficam dúvidas e temores se é factível e sobre o custo de semelhante projeto. Trata-se de um plano piloto para introduzir uma nova tecnologia nuclear. Com o ITER se tentará a fusão dos isótopos de hidrogênio (o deutério, em abundância na natureza, e o trítio, um isótopo sintético) para produzir hélio com grande liberalização de energia e assim gerar eletricidade. O projeto internacional é financiado por China, Coréia do Sul, Estados Unidos, Japão, Rússia e União Européia, com participação da Agência Internacional de Energia Atômica. Prevê-se que estará funcionando até 2016.

Uma comissão formada por estes cinco países mais a UE decidiu no mês passado que o ITER fosse construído no centro de pesquisa nuclear de Cadarache, na região sudeste francesa de Provence, a 900 quilômetros de Paris. O presidente da França, Jacques Chirac, disse que a decisão foi um "enorme êxito" para seu país, porque o projeto "abre o caminho para uma tecnologia essencial na busca de fontes alternativas de energia para enfrentar o aquecimento global". O aquecimento do planeta é causado pelas atividades humanas, segundo a grande maioria dos cientistas, sobretudo pelo efeito dos gases liberados pela combustão de petróleo, gás e carvão, sendo o dióxido de carbono o principal deles.

A maioria dos jornais franceses comemorou o anúncio, e o Le Parisién afirmou que se trata de "boas notícias para a França, finalmente". No entanto, cientistas e grupos ambientalistas alertaram que o ITER poderia esgotar recursos que deveriam ser destinados ao financiamento de pesquisas na busca de melhores fontes de energia. O projeto em si, afirmaram, não garante sucesso no futuro imediato. O ex-ministro de Ciência e Tecnologia, Claude Allegre, um renomado pesquisador em geoquímica, afirmou que o ITER é apenas "outro projeto de prestígio" para o governo com "poucas possibilidades de êxito". Os estimados US$ 12 bilhões necessários para o reator desviarão recursos de outros projetos de pesquisa "sem dúvida mais urgentes do que o ITER", afirmou.

Apenas a construção do complexo demandará investimento superior a US$ 5 bilhões, e a França se comprometeu a cobrir a metade destes custos. O ITER em Cadarache será apenas um teste. Se a tecnologia demonstrar ser efetiva, seria possível construir o primeiro reator termonuclear de trabalho depois de 2050. O reator necessitará de poderosa tecnologia. As autoridades disseram que a fusão na central se conseguirá somente a uma temperatura de aproximadamente 100 milhões de graus, o que produzirá 500 megawatts de energia. Atingir essa temperatura já é um problema, porque nenhum material conhecido pode resistir a esse calor.

"O anúncio oficial descreve o processo de funcionamento do ITER como colocar a energia das estrelas em uma caixa. O problema é que não sabemos como construir essa caixa", disse o cientista Sébastien Balibar, professor de física nuclear na Escola Normal Superior de Paris. Balibar e seus colegas Yves Pomeau e Jacques Treioner disseram em um estudo publicado no ano passado pelo jornal Le Monde que um reator termonuclear implica três problemas técnicos: produção dos elementos que serão levados á fusão (deutério e Trítio), a resistência a essa fusão e o controle da reação.

Os cientistas disseram que o projeto do ITER somente está interessado neste último problema "e ignora os outros dois, cuja solução, entretanto, é essencial". O presidente da Academia Francesa de Ciências, Edouard Brézin, afirmou que as expectativas a respeito do ITER são extremamente otimistas. "Devemos estar muito confiantes no desenvolvimento científico para acreditar que o uso industrial da fusão nuclear estará pronto em menos de 50 anos", disse à IPS. A pesquisa nessa tecnologia deve continuar, mas "os combustíveis fósseis e o aquecimento global são problemas urgentes, e não temos 50 anos para buscar soluções. Necessitamos de medidas urgentes, e o ITER não deveria roubar os recursos dessas pesquisas", acrescentou.

Por sua vez, Stephane Lhomme, da organização ambientalista francesa Sortir du Nucléaire (Sair do Nuclear), disse à IPS que o reator apresenta uma tecnologia muito perigosa e sem futuro. Lhomme considera provável que o ITER nunca produza energia, o que o converteria em um novo fracasso do governo. O Estado francês investiu quase US$ 9 bilhões no reator nuclear Superphénix antes de fechá-lo em 1998 porque não chegou a gerar um único watt de energia, recordou o cientista. "Claro que o ITER estará conectado à rede francesa de eletricidade, mas apenas com o propósito de receber energia para seu funcionamento", ressaltou. (IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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