Mundo: Persistem os conflitos no Líbano

Beirute, 15/07/2005 – Os libaneses não tiveram ainda a oportunidade de desfrutar da saída das tropas sírias nem a vitória dos grupos anti-sírios nas eleições parlamentares de junho, porque seu país enfrenta um período de convulsão política e econômica sem precedentes desde o fim da guerra civil (1975-1990). Esta semana foi registrado o quinto atentado à bomba desde outubro do ano passado, quase todos contra políticos e jornalistas anti-sírios. Por outro lado, a Síria obstrui a saída de caminhões do Líbano, e o primeiro-ministro libanês designado, Fuad Siniora, poderia renunciar por pressão de poderosos grupos pró-sírios. Todos estes fatos evidenciam as profundas divisões do país depois do fim formal da dominação siria, em março passado.

O objetivo do ataque com bomba da última terça-feira foi o ministro da Defesa, Elias Murr, que também é vice-primeiro-ministro e ex-ministro do Interior. Murr é membro de uma poderosa dinastia que participa do poder político e econômico do país durante anos, e é também genro do presidente pró-sírio, Emile Lahoud. Apesar de sua imagem e ligações pró-sírias, Murr esteve em conflito com o poderoso ex-chefe de segurança siria no Líbano, Dustom Ghazale, desde 2003, observou o analista de segurança Tannous Mouawad. Murr sobreviveu ao atentado que matou duas pessoas em um bairro ao norte da capital Beirute. Até agora, somente tinha havido atentados contra políticos e um jornalista anti-sírio, além de uma série de ataques com bomba contra estabelecimentos comerciais.

A vítima de maior destaque foi o ex-primeiro-ministro Rafiq Hariri, assassinado no centro de Beirute em fevereiro, em um atentado cometido com carro-bomba. Embora a Síria tenha negado qualquer ligação com este atentado, o assassinato de Hariri desatou fortes protestos no Líbano que, combinados com a pressão internacional, desembocaram na retirada das tropas sírias do país. A Síria ajudou a por fim à guerra civil do Líbano, mas deixou em seu território vários milhares de soldados uma vez terminado o conflito.

Segundo Mowawad, o ataque contra Murr não foi apenas um ajuste de contas, mas uma tentativa de intimidar seus parentes mais próximos, especialmente o presidente Lahoud, o ativo mais importante que a Síria tem no sistema político libanês. Siniora, primeiro-ministro designado pela coalizão anti-Síria que controla o parlamento depois das eleições do mês passado, apresentou ao presidente pró-sírio, na terça-feira, uma proposta de gabinete de 30 membros, mas o líder cristão anti-sírio Michel Aoun e grupos muçulmanos xiitas se opuseram. Aparentemente, Lahoud também rejeitou a lista e Siniora a retirou nesta quinta-feira, dizendo que procuraria formar um novo gabinete com pessoas não vinculadas aos partidos políticos com representação parlamentar.

Siniora pertence ao bloco de Saad Hariri, filho do ex-primeiro-ministro assassinado. A impressão de que a Síria obstrui a formação do novo governo se fortaleceu nas últimas duas semanas de bloqueio político, nas quais Siniora cedeu a quase todas as demandas dos aliados reais ou supostos da Síria. Este país condenou o ataque a Murr e todos os atentados anteriores, mas muitos libaneses apontam para Damasco. Agora, à tensão política soma-se um elemento de pressão econômica, porque por mais de uma semana a Síria aplicou rígidos controles ao tráfego que sai do Líbano. Centenas de caminhões, muitos carregados com produtos perecíveis, tiveram de permanecer dias em pontos fronteiriços de passagem, em trâmites que normalmente levam poucas horas.

A fronteira com a Síria é a única saída do Líbano por terra, porque a fronteira com Israel está fechada. A cada ano, o Líbano exporta mercadorias em valor superior a US$ 500 milhões para a Síria e o resto do mundo árabe através do território sírio, informou a Associação de Industriais Libaneses. Representantes da indústria acusaram a Síria de utilizar a pressão econômica com fins políticos. "Este é um jogo político dos sírios para influir na formação do novo governo", afirmou Mouhedienne Jammal, coordenador das cooperativas agrícolas e industriais do Líbano. (IPS/Envolverde)

Ferry Biedermann

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