Ambiente: calor, seca e erosão causados pelo aquecimento afetam a França

Paris, 19/07/2005 – A França deve se preparar para suportar altas temperaturas de verão, secas e erosão, com prejuízos para agricultura, praias, biodiversidade e saúde humana, em razão das mudanças climáticas, advertiram cientistas e ambientalistas. O informe "Como adaptar-se a um clima à deriva?", apresentado ao governo do presidente Jacques Chirac pelo Observatório Nacional sobre o Efeito do Aquecimento Planetário (Inerc), indica que a temperatura na França pode aumentar nove graus até o final deste século. Esse prognóstico excede o pior cenário dos apresentados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), que chega a nove graus, na média mundial.

O IPCC foi instalado pela Organização de Meteorologia Mundial (OIC) e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) para avaliar informação técnica, científica e sócio-econômica nesse campo. A projeção tem por base um estudo sobre o aumento das temperaturas, tanto em todo o mundo quanto na França, em particular. "A temperatura global aumentou 0,6 graus desde 1950, mas subiu um grau somente na França", disse à IPS o presidente do Onerc, Paul Vergès. Uma das conseqüências poderia ser a ocorrência de verões muito mais quentes do que o de 2001, que causou a morte de mais de 15 mil pessoas nesse país. Por outro lado, segundo dados oficiais, mais de um quinto do litoral francês já está afetado pela erosão, particularmente visível nas praias da costa atlântica do sudeste, onde afeta aproximadamente a metade da costa, incluindo conhecidos centros turísticos como Cap Breton, Cap Ferret, Soulac-sur-Mer e Biscarrosse. Segundo estudo feito há dois anos pela Universidade de Bordeaux, a erosão em Biscarrosse engoliu cerca de 60 metros de praias entre 1957 e 2002, dos quais 15 metros foram perdidos desde 1997. Ambientalistas consideram que a erosão nas praias se vincula diretamente com o aquecimento do planeta. Nesse sentido, explicam que o nível do mar aumentou devido à dissolução das geleiras, o que originou mudanças nos padrões das marés, que por sua vez se fortaleceram.

O IPCC calculou que o nível do mar poderia aumentar 44 centímetros até 2100, o que triplicaria o aumento do último século. Autoridades francesas começaram a construir arrecifes artificiais para conter as marés e limitar os danos nas praias. Cadeias de grandes rochas foram instaladas em lugares de grande erosão, mas a medida poderia ser insuficiente. Do mesmo modo, "alguém poderia plantar um par de árvores no deserto com o argumento de que fazer uma floresta seria uma boa idéia", disse à IPS Denis Lacroix, da Ifremer, instituição francesa especializada em recursos marinhos. "Os arrecifes artificiais detêm a maior parte da erosão, mas é extremamente difícil avaliar seu impacto em uma escala maior", acrescentou.

O especialista Roland Paskoff, da Universidade de Lyon, disse que os arrecifes artificiais são como aspirinas: "podem reduzir a febre, mas não curam a doença", explicou à IPS. Tais engenhos devem ser reforçados com medidas mais radiais, afirmou. "Já podemos observar um substancial retrocesso das geleiras nos Alpes franceses", afirmou Paskoff. A evidência de tais mudanças é mais do que uma piada, disse o diretor da organização não-governamental France Nature Environnement, Christophe Aubel. "Obviamente, nos deparamos com uma inquietante mudança climática, que pode provocar o aniquilamento de centenas de milhares de espécies até 2050", disse Aubel á IPS. A elevação da temperatura marítima já causou a extinção de espécies de peixes e outros animais, acrescentou. "A biodiversidade está em particular perigo", ressaltou o especialista. France Nature Environnement publicou, em conjunto com Greenpeace França e o Fundo Mundial para a Natureza, o manual "Mudança climática: Natureza ameaçada na França/Saber mais, como agir". (IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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