Washington, 21/07/2005 – O acordo assinado esta semana pelo presidente norte-americano, George W. Bush, e o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, para a venda de avançada tecnologia nuclear dos Estados Unidos para a Índia confirma uma guinada política de Washington com conseqüências mundiais e regionais, de acordo com especialistas. Por um lado, o governo Bush parece ter voltado as costas para uma estratégia de 30 anos para dissuadir os países signatários do Tratado de Não-proliferação Nuclear de adquirir armas atômicas, bem como a tradicional inclinação dos Estados Unidos para o Paquistão, rival da Índia, para promover um equilíbrio de poderes na Ásia meridional.
Embora Washington tenha aceitado em março vender para o Paquistão avançados aviões de combate por muito tempo reclamados por seu governo, Islamabad anunciou na segunda-feira que adiaria uma visita do primeiro-ministro, Shaukat Aziz, à Casa Branca, programada para a próxima semana. Muitos consideraram o adiamento como um protesto. Porém funcionários paquistaneses negaram que estivesse relacionado com o novo acordo. Ao mesmo tempo, esse acordo e mais um pacto bilateral de defesa assinado há três semanas, que torna Nova Délhi elegível para comprar avançados equipamentos militares norte-americanos, marcam uma nova etapa nos esforços de Washington para converter a Índia em um aliado que sirva de contra-peso à China.
Diferentes forças do governo norte-americano, especialmente o Departamento de Defesa, consideram que a China é a maior ameaça a longo prazo para a manutenção da hegemonia dos Estados Unidos na Ásia. Os novos acordos com a Índia "são vistos como mais um componente na estratégia de contenção da China", observou Joseph Cirincione, analista de política externa da Fundação Carnegie para a Paz Internacional, que também considerou "um grande erro" a decisão de Bush de vender combustível e tecnologia nucleares para Nova Délhi. O último acordo "favorece a Índia, mas enfraquece todo objetivo de não-proliferação e tornará muito mais difícil a cooperação internacional necessária para prevenir o aumento de armas atômicas", disse à IPS, acrescentando que agora será muito mais fácil para a Rússia defender suas vendas de equipamentos nucleares para o Irã.
Muitos países que querem ter tecnologia nuclear para uso civil, mas que também se sentem inseguros sem armas atômicas, agora se perguntarão qual é a essência da política norte-americana, já que trata com suavidade os países que possuem essas armas e com força os que não as tem", ressaltou Arjun Majijani, diretor do Instituto de Pesquisas sobre Energia e Meio Ambiente (IEER), com sede no Estado norte-americano de Maryland. O acordo nuclear, assinado durante visita de Singh a Washington, foi o último passo em um cortejo bilateral iniciado pouco depois da desintegração da União Soviética, aliada de Nova Délhi durante a Guerra Fria.
Esse namoro chegou ao seu ponto máximo no final dos anos 90, quando a Casa Branca interveio para acalmar a tensão entre Índia e Paquistão, à beira de uma terceira guerra, e teve uma aceleração depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. A importância da visita do primeiro-ministro indiano ficou clara no tratamento de tapete vermelho que recebeu de Bush, com sessão conjunta no Congresso e banquete formal. Singh não recebeu tudo o que pretendia: Bush não apoiou publicamente a candidatura da Índia a um lugar permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas nem levantou sua oposição à construção de um gasoduto entre esse país e o Irã, passando pelo Paquistão. Entretanto, a imprensa indiana comemorou o acordo nuclear como um passo histórico e uma confirmação da transformação da Índia em uma nova potência mundial.
Nova Délhi, que nunca assinou o Tratado de Não-proliferação, surpreendeu o mundo ao detonar uma bomba atômica em 1974, e novamente em 1998, quando realizou três testes atômicos nucleares subterrâneos que foram seguidos de imediato por testes nucleares do Paquistão, elevando ao máximo a tensão entre ambos. Washington respondeu ao teste de 1974 com a suspensão da cooperação nuclear bilateral e a criação do Grupo de Provedores Nucleares, agora integrado por 44 países, que acertou não transferir tecnologia nuclear "sensível" a países que não assinaram o Tratado de Não-proliferação ou que não aceitassem inspeções completas da Agência Internacional de Energia Atômica. Depois dos testes de 1998, o governo do presidente Bill Clinton (1993-2001) impôs sanções econômicas à Índia, que foram levantadas por Bush depois de 11 de setembro de 2001.
De acordo com especialistas nucleares, o acordo assinado segunda-feira ameaça em particular o Grupo de Provedores Nucleares. "A idéia era não compensar os países que construíram armas nucleares", recordou George Perkovich, outro analista de Carnegie especializado em assuntos da Ásia meridional. "Queremos que outros países nos ajudem a aplicar as regras, mas se nós mesmos as quebramos, eles podem não aplicá-las e fazer o que não queremos que façam", ressaltou, sugerindo que agora a China poderia vender tecnologia nuclear para o Paquistão, que também não integra o Tratado de Não-proliferação. Prevê-se que Bush pedirá ao Grupo de Não-proliferação que modifique suas normas, e também que França e Rússia, dois membros desse grupo, se oporão, disse Cirincione. "Se Bush conseguir que outros mudem as normas, não há objeções, mas se não conseguir e seguir adiante com seus planos estará rompendo normas estabelecidas e haverá graves problemas", advertiu Perkovich. (IPS/Envolverde)

