Espanha: Autoridades acusadas de ineficiência no combate a incêndio

Madri, 20/07/2005 – A população espanhola vive em crescente tensão entre a sede provocada por uma persistente seca e o fogo que arrasa milhares de hectares de florestas e mata pessoas. Onze mortos, quatro desaparecidos, milhares de pessoas evacuadas e cerca de 12 mil hectares calcinados, incluindo três de um parque natural sob cuidados especiais, é o resultado de um incêndio provocado por uma fogueira feita para um churrasco no sábado na província de Guadalajara e que ainda não foi extinto. Os mortos eram bombeiros que tentaram apagar o fogo causado, segundo a polícia, pela imprudência de um grupo de excursionistas. De acordo com o guarda Emilio Moreno, os excursionistas decidiram seguir adiante com o churrasco apesar de serem advertidos da proibição de fazer fogo, por causa do forte vento reinante e à presença de muita vegetação seca.

Segundo um estudo do Centro Comum de Investigações da Comissão Européia, a Espanha encabeça a lista dos países da União Européia mais afetados por incêndios, já que nos últimos 20 anos o fogo destruiu 4,3 milhões de hectares de florestas, superfície equivalente à de toda a Suíça. Além disso, o país sofre este ano sua pior seca desde 1947. O nível de chuva caiu para metade da média anual da última década e os rios perderam 41% de suas águas nos últimos 12 meses. Dois fatores colaboram para a situação ruim: a seca de pastagens e florestas, favorecendo a extensão dos incêndios, e a imprevisão de autoridades e cidadãos. Mas também é apontada a imprudência ou má fé de algumas pessoas que fazem fogo em locais abertos por diversas razões.

O incêndio de sábado se estendeu pelos municípios de Riba de Saelices, Santa María del Espino e Villarejo de Medina, localizados no Alto Tejo, região onde nasce o rio Tejo que cruza a Espanha de leste a oeste e chega a Portugal, terminando em Lisboa. Os moradores dos três municípios criticaram duramente o governo central e a comunidade de Castilla-La Mancha, por considerar que as medidas para apagar o fogo foram insuficientes e tardias. A organização não-governamental Ecologistas em Ação exigiu a imediata renúncia da conselheira de Meio Ambiente do governo dessa comunidade, Rosário Arévalo Sánchez.

A ministra de Meio Ambiente, Cristina Narbona, afirmou que "desde o início estavam à mão todos os meios necessários". Narbona atribuiu a extensão do fogo ao forte vento e não à ineficiência nem à falta de meios, e deu como exemplo que nem mesmo aceros impediram o avanço das chamas. O secretário-geral do direitista Partido Popular (de oposição), Angel Acebes, acusou os governos central e de Castilla-La Mancha, ambos socialistas, pela falta de coordenação e pelo descontrole que resultaram na tragédia. O prefeito de Riba de Saelices, José Luis Samper, disse que em seu município "o que não foi, será destruído", pois o fogo continua avançando pelo monte situado nos arredores da zona urbana.

Um relatório divulgado dias antes do incêndio pela filial espanhola do Fundo Mundial para a Natureza (WWF/Adena), destacou a ineficiência governamental, pois ignora-se 40% das causas dos incêndios e menos de 1% dos que infringem as leis são detidos e levados perante a Justiça. A imprudência inclui desde fazer fogueiras em lugares com vegetação seca e jogar ponta de cigarro de veículos em movimento, até queimar dejetos agrícolas em pleno verão. Em qualquer destes casos, baste um golpe de vento para que a faísca se transforme em fogo e este se espalhe. As fogueiras e churrasqueiras provocam cerca de 160 incêndios florestais por ano, afirma a WWF/Adena.

Mas existem incêndios intencionais, provocados por vândalos ou piromaníacos, e em alguns casos, para eliminar florestas de zonas protegidas e entrar com pedido de autorização para construção nesses lugares, antes proibida. Segundo a WWF/Adena, esses motivos são as causas mais repetitivas. Outras são as vinganças. Salvador García, camponês de Guadalajara, disse à IPS que soube de dois ou três casos de caçadores decepcionados que puseram fogo em áreas fechadas de caça. As zonas de caça espanholas são áreas nas quais só podem entrar pessoas autorizadas, geralmente pagando alta soma aos proprietários dos terrenos. Caçadores que viram o preço dessa atividade subir ou que tiveram autorização negada "se vingam colocando fogo", disse García.

A vice-presidente María Teresa Fernández de la Veja presidiu na segunda-feira uma reunião extraordinária com vários ministros e antecipou o reforço das campanhas de divulgação do problema e as instruções ao procurador-geral do Estado para conseguir atuações concretas, tanto no caso do incêndio em Guadalajara quanto em outros que possam ocorrer. Organizações não-governamentais como Greenpeace Espanha exigem que sejam tomadas medidas imediatas, como a proibição de acender fogo inclusive em áreas recreativas e de camping, onde em geral é permitido.

A seca tem outras conseqüências, como a queda da produtividade agropecuária. Segundo o Greenpeace, a Espanha é o terceiro país do mundo no consumo de água por habitante, e esse consumo maior se concentra na agricultura. Cerca de 3,5 milhões de hectares, que representam 18,3% da superfície dedicada à agricultura, são regados artificialmente. Um relatório do Conselho Mundial da Água mostra que em 2002 a Espanha estava em 133º lugar entre 147 países listados pelo uso ineficiente dos recursos hídricos. (IPS/Envolverde)

Tito Drago

Tito Drago es corresponsal de IPS en Madrid. Periodista y consultor especializado en relaciones internacionales, nació en Argentina y vive en España desde 1977, tras su paso por varios países latinoamericanos y europeos. En 1977 abrió la primera corresponsalía de IPS en España y en 1978 se trasladó a la sede mundial de la agencia en Roma para reestructurar la jefatura de redacción. Es escritor y conferencista. Fue presidente del Club Internacional de Prensa de España, del que es presidente honorario desde 1999. También presidió la Asociación de Corresponsales de Prensa Extranjera (ACPE). Entre 1989 y 2008 fue director general de la agencia de comunicación y editora Comunica, de la revista Mercosur y de los libros y los sitios web de las Cumbres Iberoamericanas de Jefes de Estado y de Gobierno. Desde 1992 dirige el portal sobre la Actualidad del Español en el Mundo.

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