Belgrado, 26/07/2005 – A presença da Al Qaeda e de grande quantidade de armas nos Balcãs transforma essa região em uma ponte ideal para os terroristas que se dirigem à Europa, embora se trate de um alvo improvável, advertiu o analista militar Zoran Dragisic, da Faculdade de Defesa Civil de Belgrado. "Os terroristas não considerariam essa região como objetivo de um ataque, mas como trampolim para a Europa", disse à IPS. Há fortes sinais que fundamentam esse temor, acrescentou. Em primeiro lugar, as guerras que desde 1991 conduziram à desintegração da antiga Iugoslávia levaram para os Balcãs traficantes de armas de todo o mundo. Hoje, estes países estão inundados de armas e munições de todo tipo e calibre.
Ao mesmo tempo, é inquestionável a presença da organização terrorista Al Qaeda, responsabilizada pelos principais atentados ocorridos em todo o planeta desde o final dos anos 90. "A Al Qaeda enviou seus seguidores para combaterem ombro a ombro com os muçulmanos da Bósnia entre 1992 e 1995", recordou Dragisic. Em vários países e territórios da antiga Iugoslávia, como Bósnia-Herzegovina e a província sérvia de Kosovo, predomina a população muçulmana. "Também há evidência de que em 1997 e 1998 a Al Qaeda investiu até US$ 700 milhões no levante" de grupos separatistas representativos dos albaneses de Kosovo, hoje administrada pela Organização das Nações Unidas, acrescentou o especialista.
A guerra terminou, mas Dragisic e outros analistas consideram que o tráfico de armas e o treinamento ilegal de combatentes continuam em toda a região, especialmente na Bósnia-Herzegovina e em Kosovo, ao sul da Sérvia. A revolta armada de organizações albanesas de maioria muçulmana em Kosovo contra a repressão de Belgrado, governada na época por Slobodan Milosevic, determinou em 1999 o bombardeio da Sérvia pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). A preocupação do Ocidente pela presença de células terroristas nos Balcãs chegou a tal nível que o diretor da Agência Central de Inteligência (CIA) visitou Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegovina, no início deste mês.
"Parte da investigação sobre os atentados em Londres, no último dia 7, se refere à busca de vínculos entre radicais islâmicos na Bósnia-Herzegovina e em Kosovo com grupos terroristas internacionais", disse o analista militar britânico Paulo Beaver. Em anos de conflito, o Exército para a Libertação de Kosovo (KLA) e organizações muçulmanas desenvolveram estreitos vínculos com grupos de narcotraficantes e contrabandistas de armas radicados no norte da Albânia, assegurou Beaver. "Essa cooperação não cessou, e a isso se deveu a visita de Goss a Sarajevo e Tirana. Ali manifestou sua grande preocupação pela cooperação com grupos islâmicos radicais", destacou o especialista.
Setores da Bósnia-Herzegovina são suspeitos de manter vínculos com movimentos islâmicos, disse à IPS um diplomata ocidental. "Durante a guerra, a Bósnia-Herzegovina foi usada como local de "lavagem de identidades". Militantes islâmicos se dirigiam para lá para colocar um pé na porta da Europa", assegurou. O negócio de lavagem de identidades era bem conhecido na Bósnia-Herzegovina. Combatentes islâmicos oriundos do Oriente Médio, norte da África ou Afeganistão iam para lá, com freqüência usando nomes falsos. A brigada Al Mujahedin, composta por esses combatentes, se converteram em parte do exército bósnio. Muitos se casaram com bósnias e obtiveram novos documentos depois da guerra.
Alguns ainda vivem em comunidades fechadas localizadas no centro da Bósnia-Herzegovina e se recusam a manter contato com a imprensa. O Ministério de Assuntos Civis da Bósnia-Herzegovina informou que pelo menos 900 nomes conseguiram passaporte bósnio dessa maneira desde 1995. Seis deles foram entregues às autoridades dos Estados Unidos e transferidos para a base naval norte-americana de Guantânamo, em Cuba, após os atentados contra Nova York e Washington em 11 de setembro de 2001. Sarajevo proibiu as atividades de dezenas de organizações humanitárias e de assistência financiadas por países muçulmanos, como Arábia Saudita e Indonésia, após identificá-las como entidades de fachada, afirmou um funcionário bósnio. (IPS/Envolverde)

