KAMPALA, 17/08/2011 – Nas farmácias do centro de Kampala, homens e mulheres fazem fila para comprar medicamentos que normalmente exigem receita médica, como o Coartem, um medicamento usado para tratar a malária. Edna Nakyanzi tem sintomas de malária e, portanto, comprou o medicamento anti-malária Fansidar sem receita médica. Segundo o Dr. Emmanuel Semugabi, da Clínica Esperança, o Fansidar só deve ser receitado aos doentes depois do tratamento de primeira linha, o Coartem, ter falhado.
Mas Nakyanzi afirma que prefere este medicamento porque tem de ingerir menos doses durante o tratamento.
“Só preciso de tomar três comprimidos de Fansidar antes de ir para a cama e no dia seguinte sinto-me melhor. Mas com o Coartem tenho de tomar muitos comprimidos, o que detesto fazer,” afirmou Nakyanzi. A história de Nakyanzi é bastante comum. No Uganda, os doentes podem comprar com facilidade medicamentos para os quais é preciso normalmente receita médica, uma vez que o governo tem sido pouco firme em travar esta prática ilegal.
Nos termos da Lei das Farmácias e Medicamentos de 1970, é proibida a venda livre de medicamentos sujeitos a receita médica. Aqueles que o fazem podem perder a sua licença farmacêutica e serem detidos. Embora os inspectores da Autoridade Nacional dos Medicamentos estejam mandatados para supervisionar este processo, nunca foram eficazes.
Cada vez mais as pessoas recorrem à auto-medicação para tratar a malária e outras doenças, ou para poupar dinheiro que teriam de gastar em dispendiosos honorários médicos, ou porque não há especialistas de saúde nalgumas áreas.
Thelma, outra promotora da auto-medicação, disse à IPS que estava arrependida por ter gasto o equivalente a 10 doláres numa consulta médica quando recentemente esteve doente, porque os médicos não lhe diagnosticaram o que é que ela tinha.
“Disseram-me que sofria de fadiga devido ao excesso de trabalho, aconselharam-me a descansar e deram-me alguns analgésicos. Imaginem, depois de passar alí perto de duas horas após um dia de trabalho,” disse Thelma.
A Associação Médica do Uganda avisa que esta auto-medicação não regulamentada é responsável pela crescente resistência aos medicamentos no país. “Alguns medicamentos, como os antibióticos, são comprados ao balcão e usados abusivamente, causando problemas graves. Na verdade, estas lacunas na legislação têm de ser examinadas,” afirmou a Drª. Margaret Mungherera, Presidente da Associação Médica do Uganda e um dos membros do Conselho Médico.
Em muitos casos, os doentes usam combinações fortes de medicamentos para doenças menores e, por vezes, os medicamentos são consumidos em doses pouco apropriadas, enquanto que outras vezes são usados os medicamentos errados.
O Dr. Peter Langi, da unidade de controlo da malária no hospital Nacional de Mulago, afirma que a auto-medicação é uma das razões pelas quais a luta contra a malária não tem tido sucesso.
“Quando as pessoas se auto-medicam, não tomam as doses de que precisam para curar a malária, levando alguns indivíduos a desenvolver resistência contra os medicamentos e, a partir daí, a causar a sua eventual morte,” explica Langi.
Um relatório do Ministério da Saúde indica que, nalguns distritos, a resistência ao tratamento da malária é superior a 60 por cento. Contudo, a média nacional de resistência ao tratamento da malária é de 11.7 por cento.
Aggrey Mubaale afirma que tem frequentemente ataques de malária, mas que ingere várias doses de comprimidos anti-malária sem consultar o médico. “Quando ainda estava a estudar, costumava andar com alguns comprimidos anti-malária no caso de serem necessários e ainda faço isso, mesmo depois de ter deixado a escola. Tomar comprimidos anti-malária faz parte de mim,” afirmou Mubaale.
Mungherera explicou que a sua associação tinha feito uma parceria com a Sociedade Farmacêutica do Uganda, a Autoridade Nacional dos Medicamentos e a Associação das Enfermeiras e Parteiras, para encontrar uma solução para este crescente problema. Tencionam inspecionar as farmácias para encontrar aqueles que vendem ao balcão medicamentos sujeitos a receita médica. As pessoas responsáveis por essas prática podem ver as suas licenças canceladas ou até serem presas.
“A maioria das pessoas que avia medicamentos na maior parte das farmácias não tem formação e não insiste na entrega de uma receita médica. Na realidade, algumas dessas pessoas não conseguem ler nem compreender os documentos,” disse Mungherera. Mas isto não quer dizer que todas as farmácias no Uganda vendam livremente medicamentos sujeitos a receita médica. John Mukama, farmacêutico numa farmácia em Kampala, insiste que não vende este tipo de medicamentos sem receita médica.

