EUA: Religião e ciência em choque

Nova York, 09/08/2005 – O ensino nas escolas dos Estados Unidos de teorias segundo as quais Deus guia a evolução das espécies, bem como a pesquisa com células-tronco, incentivam choques dentro do Partido Republicano e entre cientistas e religiosos de direita. O presidente George W. Bush aderiu à campanha lançada por grupos religiosos conservadores para dar ao chamado "desenho inteligente" tratamento igual ao da teoria da evolução das espécies de Charles Darwin. A esta situação se soma o apoio do líder do governante Partido Republicano no Senado, o cirurgião cardíaco Bill Frist, à concessão de fundos oficiais para pesquisas científicas com células-tronco, às quais os aliados religiosos de Bush se opõem.

A teoria do "desenho inteligente" indica que "um poder supremo" guiou a evolução das espécies. Esta tese se baseia na falta de explicação científica incontestável para grandes saltos evolutivos, como o da adaptação de espécies animais aquáticas à vida terrestre. Tais idéias, rechaçadas pela comunidade científica, se apóiam no creacionismo, teoria fortemente influenciada pelo relato bíblico do Gênesis, e defende que todo ser vivo foi criado por Deus. Alguns de seus defensores acreditam que a Terra foi criada em seis dias, ou em seis "dias cósmicos" – de milhões de anos cada um – ou que o planeta tem apenas dez mil anos de vida.

Bush aderiu a essa campanha da direita religiosa na semana passada. Quase ao mesmo tempo, Frist informou no Senado que deixava de apoiar a negativa presidencial de financiar as pesquisas sobre células-tronco extraídas de embriões criados in vitro. Alguns desses embriões estão legalmente destinados a serem considerados resíduo hospitalar, mas Frist pretende que possam ser usados em experiências custeadas por fundos federais, com autorização dos pais em cada caso. Tais pesquisas poderiam levar a novos tratamentos para uma ampla gama de doenças hoje incuráveis, como o Mal de Parkinson, o Mal de Alzheimer e diversas deficiências de origem neurológica, bem como diabetes.

As células-tronco são também chamadas pluripotenciais, por sua capacidade de tomar a forma de qualquer tecido ou órgão do corpo humano. Segundo Bush, "não existe nada" que possa ser considerado "um embrião que sobrou" do qual se possa extrair células-tronco. Entretanto, em sua mensagem anual ao Congresso em 2004, o tradicional Estado da União, o presidente havia anunciado que o governo lançaria pesquisas com células-tronco, empregando cerca de 60 séries destes organismos cujos embriões já haviam sido destruídos. Esse número, produto de uma superestimativa, caiu para 22. Segundo Frist, essas séries de células-tronco são inúteis ou estão em processo de rápida deterioração.

A Câmara de Representantes – dominada, como o Senado, pelo Partido Republicano – aprovou há pouco um projeto de lei que contradiz o próprio Bush e que ordenaria ao governo financiar pesquisas com células-tronco. No Senado predomina o apoio ao projeto, onde seu principal incentivador é o senador republicano Arlen Specter, que foi submetido a quimioterapia para curar um câncer. O opositor mais extrovertido é outro republicano, Sam Brownback. Contudo, a rejeição de Bush à iniciativa é tão férrea que o presidente conta com poucas opções além de vetá-la, caso seja aprovada. Ainda está para se ver se seus incentivadores poderão obter os 60 votos necessários para derrubar o veto, apesar de afirmarem contar com 55.

A possibilidade de se derrubar o veto, com apoio da maioria do partido do próprio presidente, seria uma grande derrota para o governo e, sem dúvida, desataria a fúria da direita religiosa que o apóia. O mesmo aconteceria se o Congresso decidisse rejeitar a introdução do "desenho inteligente" nos programas de educação, embora sua incorporação deva ser resolvida pelas autoridades dos diversos distritos escolares que regem o ensino nos Estados Unidos. Bush disse que o conceito deve ser ensinado "para que as pessoas entendam de que se trata o debate". O presidente não disse se aceita as idéias creacionistas como alternativa à teoria da seleção natural, mas considerou que "parte da educação é expor as pessoas a diferentes escolas de pensamento".

Entretanto, tal debate coloca frente a frente os cristãos conservadores, que formam uma das bases de apoio do presidente Bush, e quase toda a comunidade científica norte-americana, bem como os que defendem a separação da Igreja e do Estado. O "desenho inteligente" se contradiz com o conceito de "seleção natural", o processo que o precursor da antropologia moderna, Charles Darwin, identificou no século XIX como o motor da evolução. Segundo a teoria da seleção natural, mutações imprevistas prevalecem por tentativa e erro, de modo que as que permitem às espécies vencer os obstáculos que surgem ao seu redor são legadas à sua descendência. Para os darwinistas, a teoria do cientista britânico explica a complexidade da vida, a qual, segundo teóricos identificados com o creacionismo, só pode ser atribuída a um "desenho inteligente".

A maioria dos acadêmicos considera que o conceito de evolução concebido por Darwin e corrigido por seus seguidores não é uma teoria e sim um corpo de fatos científicos já estabelecido e, portando, inquestionável. Nos últimos anos, o ensino de idéias creacionsitas e do "desenho inteligente" foi adotada em distritos escolares de 20 Estados. O Kansas está na dianteira. Bush "defendeu a liberdade de expressão e o direito dos estudantes conhecerem diferentes visões científicas sobre a evolução", disse John West, diretor-associado do Centro para a Ciência e a Cultura do centro de estudos Discovery Institute, principal apoio da teoria do "desenho inteligente". A Associação para o Avanço da Ciência dos Estados Unidos (AAAS) se negou a enviar seus representantes a audiências públicas no Kansas sobre o ensino do "desenho inteligente" nas escolas públicas.

O gerente-geral da AAAS, Alan I. Leshner, considerou que essas audiências, organizadas pelas autoridades educacionais do Estado, constituíam, na realidade, um esforço dos defensores das idéias creacionistas para "atacar e solapar a ciência". "O desenho inteligente carece de base científica e não suporta nenhum critério científico sequer para que seja considerado uma teoria. Para a ciência, uma teoria não é uma "crença": São aceitas ou rejeitadas com base em provas científicas", explicou Leshner à IPS. "O desenho inteligente não pode ser comprovado cientificamente e, portanto, não deveria ser ensinado nas aulas de ciência", acrescentou. Conhecidos líderes religiosos também questionaram a incorporação dessas idéias a programas escolares. O reverendo Bar Lynn, diretor-executivo do Norte-Americanos Unidos pela Separação da Igreja e do Estado, qualificou os comentários de Bush de "desinformados, irresponsáveis e temerários". Os jovens dos Estados Unidos "são mal atendidos por um presidente que confunde religião com ciência", advertiu Lynn. (IPS/Envolverde)

William Fisher

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *