Nova York, 11/08/2005 – O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, prometeu incentivar grandes empresas a doarem mais dinheiro para instituições de caridade religiosas, o que é considerado por observadores como uma manobra para melhorar sua imagem junto à comunidade negra. Em uma reunião a portas fechadas com 17 clérigos negros, Bush disse que planeja uma conferência, em março de 2006, com empresários e líderes de organizações religiosas de serviço social, muitas delas filiadas a igrejas afro-norte-americanas. O governo pretende concentrar sua pressão em grandes fundações corporativas, como as pertencentes à Ford Motor Company, General Motors, IBM, Exxon Mobil e Citigroup, cujas políticas limitam ou proíbem a doação de fundos a grupos baseados na fé. Anualmente, esses tipos de fundações doam cerca de US$ 12 bilhões a diversas instituições.
"Compreendemos a reticência" das empresas, pois o governo tampouco "quer que seu dinheiro sirva para pregar ou fazer proselitismo", explicou o diretor do Escritório de Iniciativas Baseadas na Fé e Comunitárias da Casa Branca, Jim Towey. Entretanto, observadores que costumam criticar a administração Bush duvidam da sinceridade de seu compromisso com a comunidade negra. O governo "embarcou em uma nova estratégia sulista com vistas a ganhar para sua causa a direita cristã afro-norte-americana", disse à IPS Beau Grosscup, professor de Relações Internacionais da Universidade do Estado da Califórnia.
Um terço dos habitantes dos Estados do sul dos Estados Unidos são negros, segundo diversos estudos. Nessa região também constituem uma comunidade intensamente religiosa e, como no resto do país, tradicionalmente inclinada pelo opositor Partido Democrata. "Aposto que o governo não incentivará os líderes corporativos a ajudarem a comunidade muçulmana negra nas áreas urbanas", ironizou Grosscup. "Se quiserem ter um impacto positivo sobre os eleitores afro-norte-americanos, deveriam promover o direito ao voto em nível federal e dedicar, em Estados como a Flórida, a mesma energia e recursos para facilitar o voto dos negros que empregaram em 2000 para desestimulá-lo", acrescentou.
Por diversos erros, as autoridades eleitorais da Flórida impediram, em 2000, milhares de cidadãos desse Estado, a maioria negros, de comparecerem aos locais de votação. Nessas eleições, as chances de um negro ser impedido de votar era dez vezes maior do que para qualquer outro cidadão, segundo um informe publicado no ano seguinte pelo jornal The Washington Post. Cerca de 19 mil pessoas foram erroneamente registradas como criminosas e retiradas das listas de eleitores da Flórida, em uma situação que afetou especialmente os afro-norte-americanos, segundo diversas organizações de direitos civis.
Bush abordou pela primeira vez a questão das doações há quatro anos, quando afirmou, em um discurso na Universidade de Notre Dame, que "o governo federal não fará discriminação contra organizações baseadas na fé, e tampouco as empresas norte-americanas deveriam fazê-lo". Além disso, seu último compromisso se encaixa na crescente atenção que a Casa Branca dá aos líderes religiosos afro-norte-americanos. Aos clérigos negros se credita boa parte do mérito de a proporção do voto afro-norte-americano em favor de Bush ter passado de 9%, em 2000, para 22% no ano passado. Isso permitiu ao governante Partido Republicano obter maior margem de vantagem em Estados importantes como Ohio, Michigan e Flórida.
Eugene Rivers, um clérigo de Boston que participou da reunião da Casa Branca, afirmou que o compromisso de Bush obrigaria os executivos das empresas a considerar a questão da raça na hora de distribuir milhões de dólares em sua estratégia de imagem. "Trata-se de as corporações brancas se converterem em cidadãos corporativos racionais em seu vínculo com os negros, que estão no degrau mais baixo entre todos os grupos sociais", afirmou Rivers. Towey recordou que muitas organizações baseadas na fé têm contas separadas: uma para atividades estritamente religiosas e outra para serviços sociais. Assim, "o dinheiro de uma fundação, de uma corporação ou do governo pode ser empregada somente no serviço social" e não na conta religiosa. Porém, "enquanto nós retiramos as barreiras" governamentais para doações às organizações de origem religiosa, "nas juntas corporativas e fundações, elas ainda existem", acrescentou.
A Câmara de Representantes aprovou várias medidas em benefício das organizações religiosas durante o governo Bush, iniciado em 1991, mas nenhuma delas conseguiu o aval dos senadores. No Senado persiste a preocupação pela manutenção da separação entre Igreja e Estado, bem como pela possível discriminação nos empregos oferecidos pelas organizações religiosas. Entre as leis aprovadas pelos Representantes, e às quais Bush deu seu apoio, figura a autorização para as organizações de caráter religioso contratarem somente pessoas que pertencerem ao mesmo credo da entidade.
A ênfase que o governo coloca no incentivo às doações corporativas é considerada um corolário de seu esforço para aumentar as doações governamentais a agências de serviço social filiadas a diversas igrejas. No entanto, trata-se de uma iniciativa problemática. As empresas resistem por considerarem que os consumidores podem se ofender ao relacionar seus produtos e serviços com religião. As fundações corporativas costumam seguir regras rígidas que lhes permitem doar dinheiro somente a organizações estabelecidas e causas que provoquem pouca reticência, como educação e artes. Porém, numerosas companhias dão apoio a organizações humanitárias de cunho religioso – como Habitat para a Humanidade e Exército de Salvação – que, de todo modo, têm grande credibilidade.
Além do escritório que Towley dirige na Casa Branca, outras dez agências governamentais – incluídas algumas de nível ministerial, como o Departamento de Trabalho e o de Habitação e Desenvolvimento Urbano – instalaram organismos para apoiar grupos de caráter religioso. De acordo com observadores, as doações realizadas a partir desses escritórios foram fundamentais para que a imagem do presidente Bush melhorasse perante os olhos dos pregadores negros em Estados-chave para vencer as eleições de 2004.

