Estados Unidos: Retorno do realismo à política externa

Washington, 22/08/2005 – Ao que parece, o grupo "realista" volta a conduzir a política externa dos Estados Unidos graças ao "colapso da doutrina Bush", segundo muitos especialistas em relações internacionais. Um dos que chegou a essa conclusão é Gideon Rose, editor da revista especializada em política externa mais influente do país, a Foreign Affairs, em uma coluna publicada pelo jornal The New York Times. Uma assinatura assim costuma rubricar a oficialização de uma tendência. "Sete meses depois do início do segundo mandato de Bush é claro que, apesar das promessas feitas em sua posse, a política externa norte-americana tomou um giro decididamente pragmático", escreve Gideon.

As mudanças de pessoal no governo, a ressurreição do Departamento de Estado como jogador dominante e a saída de destacados neoconservadores do Pentágono, como Paul Wolfowitz – assumiu a presidência do Banco Mundial – e Douglas Feith, ajudam a explicar a mudança. Mas "a verdadeira história real é ainda mais simples?, segundo Rose. "A doutrina Bush entrou em colapso e a administração precisou, em conseqüência, abraçar o realismo, a perene cura da política externa norte-americana" quando sofre a "ressaca" do "idealismo entusiasta". Rose considera que se trata do último giro no ciclo histórico depois da Segunda Guerra Mundial, em que os períodos de "aventureirismo idealista" se alternam com outros de realismo cauteloso.

O segundo governo de Bush não abandonará, ao que parece, as metas gerais do primeiro, mas procurará estabelecer "um rumo mais calmo e medido" para esses objetivos. Os funcionários de Washington "ainda acreditam no poder norte-americano e na propagação global do capitalismo liberal e democrático", afirmou. "Mas buscam uma autoridade legítima mais do que um simples domínio material, estão a favor da análise custo-benefício, mais do que nas provas ideológicas definitivas, e privilegiam os bons resultados acima das boas intenções?, concluiu.

Os realistas, grupo que dominou no último meio século na política externa dos Estados Unidos, mas que foi relegado pelos neoconservadores no primeiro mandato de Bush, preferem a ação multilateral e priorizam o fortalecimento das alianças tradicionais de Washington, especialmente a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Por outro lado, os neoconservadores são hostis, em particular, aos processos multilaterais em geral e à Organização das Nações Unidas. Seus postulados sobre política externa rechaçam o pragmatismo e formulam os conflitos em termos morais. A maioria é de judeus de direita, muito ligados ao conservador partido Likud, no poder em Israel. São políticos, analistas e acadêmicos belicistas, e defendem que a política antiterror de Washington aponte contra todos os grupos e países que consideram ameaças aos interesses israelenses. A corrente foi criada nos anos 60 por democratas de esquerda e trotskistas descontentes com a fraca aproximação de Washington com os países árabes.

Os realistas e seus companheiros de viagem europeus haviam previsto em reiteradas oportunidades nos anos 90 o fim das forças unilateralistas e neoconservadores até os atentados que causaram três mil mortos em Nova York e Washington em 11 de setembro de 2001. Mas muitos observadores acreditam que agora o equilíbrio de poder dentro do governo norte-americano começou a favorecer, decisivamente, o grupo realista. "Creio que Gideon está essencialmente certo", disse Sherle Schwenninger, analista de política externa do centro acadêmico World Policy Institute (WPI). "Os períodos de hiper-realismo – neste caso, de neo-imperialismo – são seguidos por períodos de maior sobriedade em sentido comum".

Schwenninger também concorda que, embora as mudanças de pessoal no governo tenham reduzido a capacidade de manobra dos elementos mais ideologistas, boa parte da mudança "é puramente ditada pela realidade de que os Estados Unidos exageraram no Iraque e não têm boas opções nem no Irã nem na Coréia do Norte. Têm muitas intenções, tanto financeiras quanto militares", afirmou. Também chegou a essa conclusão Anatol Lieven, da New American Foundation, que expôs em um ciclo semelhante o que Gideon escreveu em seu livro "América Right or Wrong: An anatomy of american nationalism" (Estados Unidos no acerto ou no erro: uma anatomia do nacionalismo norte-americano).

"O sistema norte-americano, depois de tudo, não é insano, e isso é certo inclusive na administração Bush", disse Lieven à IPS. "Se o preço da guerra é restaurar o recrutamento obrigatório – cuja conseqüência segura é a perda das eleições – serão cautelosos. Não têm soldados nem dinheiro", disse o especialista. Enquanto isso, a retórica pró-democrática, em particular no tocante ao Iraque e Oriente Médio, continua dominando o discurso oficial, em particular o de Bush e o da secretária de Estado, Condoleeza Rice. Mas o domínio realista é muito claro, em particular se forem analisados os últimos movimentos em torno dos dois membros destacados do "eixo do mal".

O apoio norte-americano, embora reticente, das gestões da Alemanha, França e Grã-Bretanha para chegar a um acordo com o Irã sobre o programa de desenvolvimento nuclear marcou uma mudança nesse sentido. Também o fez o tipo de postura de Washington no diálogo com a Coréia do Norte, um processo que encontrou resistência no vice-presidente Dick Cheney. Do mesmo modo, o governo tentou aplacar o sentimento antichinês no Congresso e fechar as feridas dos dois países europeus contrários à guerra no Iraque, como Alemanha e França, aos quais o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, chamou depreciativamente de "velha Europa". Assim ficou claro que Washington não é imune ao tradicional equilíbrio de poder político e deve considerar os interesses de outras nações.

Esta percepção no Departamento de Estado é promovida pelo subsecretário Roberto Zoellick, pelo subsecretário para a política, Nicholas Burns, e o conselheiro Philip Zelikow, todos eles realistas. Tampouco se pode subestimar a influência da nova chefe de diplomacia pública do Departamento de Estado e confidente de Bush, Karen Hughes. Por outro lado, Rumsfeld, apesar de sua irresistível tendência a fazer soar as botas quando se trata do Irã, aproximou-se do campo realista, talvez apenas para impedir um motim de generais escandalizados com o pesadelo iraquiano, que lhes faz lembrar o Vietnã. Uma mostra disso foi seu apoio às iniciativas militares de mudar a denominação da "guerra mundial contra o terror" pela mais moderada "guerra mundial contra o extremismo violento".

"Se estás encarregado das forças armadas dos Estados Unidos, há certas realidades que deves considerar", escreveu Lieven, se referindo ao humor dos chefes militares. Mas embora Rose pinte o ressurgimento realista como um processo inevitável e natural, outros especialistas não estão dispostos a minimizar o atual poder dos falcões, que poderiam abrir as asas com um novo ataque terrorista contra os Estados Unidos ou um colapso nas negociações com a Coréia do Norte ou o Irã. Este último continua sendo considerado o inimigo público número um pelos neoconservadores e pelos nacionalistas agressivos liderados por Cheney.

"O vice-presidente Cheney não necessariamente perdeu no Irã", advertiu Schwenninger. "Pôde calcular que, na medida em que os Estados Unidos colaborarem, Alemanha, França e Grã-Bretanha fracassarão nas negociações e demonstraremos, assim, aos europeus que um enfoque brando não funciona". Por este ponto de vista, Cheney e os falcões teriam acertado uma retirada tática para garantir maior apoio na imposição de sanções que desestabilizariam o governo iraniano ou na justificativa de um ataque militar norte-americano ou israelense, no final de 2006 ou em 2007. "Quando algo justificar suas atitudes intervencionistas", disse Lieven, "estarão preparados para aproveitar a situação, como fizeram depois do 11 de setembro". (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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