ÁFRICA: Incapacidade de integrar a tecnologia nas bibliotecas resulta num menor número de utentes

KAMPALA, 14/12/2011 – Simret Mebrahtu é uma utente que raramente tem recorrido à Biblioteca Nacional do Uganda, no centro de Kampala, nos últimos dois anos. Como estudante, visita a biblioteca de duas em duas semanas para usar a internet pouco dispendiosa caso um dos poucos computadores existentes esteja disponível. Porém, quando estão ocupados não se pode fazer muito, a não ser ler uma enciclopédia e esperar que alguém termine. Há poucos livros na biblioteca que ela acha suficientemente interessantes para ler, explicou.

Tal como a maioria dos utentes das bibliotecas no Uganda que participou num novo estudo de percepção da EIFL, Mebrathu apoia a biblioteca local e encoraja as amigas a visitá-la. Mas também faz eco de uma preocupação mais alargada: as bibliotecas do país não têm a infraestrutura, a tecnologia e os recursos básicos necessários para atraírem novos visitantes e para os convencer a regressarem regularmente.

A EIFL – uma organização sem fins lucrativos que trabalha com bibliotecas em todo o mundo no sentido de encorajar o acesso à informação digital – efectuou os inqéritos na Etiópia, Gana, Quénia, Tanzânia, Uganda e Zimbabué.

Monika Elbert, assessora política sénior, explicou que tinha chegado à conclusão que as bibliotecas no país “estavam seriamente desprovidas de recursos e gozavam de muito pouco apoio político.” Contudo, “em vez de desenvolver ideias e acções não especificadas,” a EIFL decidiu fazer um inquérito sobre os principais intervenientes para aprender como se podia melhorar os sistemas das bibliotecas, afirmou durante uma entrevista à IPS.

Elbert e outros membros da organização apresentaram os seus resultados durante um workshop em Kampala.

O resultado mais interessante, explicou a gestora de impacto do Programa de Inovação da Biblioteca Pública da EIFL, Ugne Lipeikaite, foi o “o fosso existente entre a opinião dos utentes (da biblioteca) sobre o objectivo da biblioteca e a expectativa dos não-utentes.”

Especificamente, 20 por cento das pessoas que não usam bibliotecas esperavam ter acesso a programas informáticos caso as visitassem. Mas só nove por cento das pessoas que visitam as bibliotecas regularmente é que têm acesso aos programas informáticos de que precisam. Sessenta e três por cento dos utentes classificam os computadores e o restante equipamento nas bibliotecas como mau ou muito mau.

Além disso, o estudo indicou que uma minoria significativa de não utentes esperava encontrar informação sobre assuntos relativos a saúde e agricultura, que nem sempre existe nas bibliotecas do Uganda.

Lipeikaite afirmou que isto podia constituir um grande desafio na tentativa de aumentar o número de utentes das bibliotecas do país. No workshop, todos os participantes disseram “que uma das áreas em que se deve concentrar mais é como atrair os não utentes. Mas então torna-se necessário conhecer as suas expectativas. Se querem aceder a informação relacionada com a saúde ou a agricultura, então as bibliotecas devem perguntar-se se estão a prestar esse serviço.”

Elbert afirmou que outro desafio importante é a falta de infraestruturas – tanto físicas como tecnológicas. A questão do espaço é óbvia na Biblioteca Nacional do Uganda, visitada por Joshua Frederick Okongo, que estuda para os exames da escola secundária. Foi encorajado a visitar a biblioteca pelos amigos, que lhe disseram que era um local sossegado para estudar. Quando chegou, “as pessoas estavam em cima umas das outras” e teve de perguntar à bibliotecária onde se podia sentar.

Apesar disso, tenciona continuar a visitar a biblioteca até terminarem os seus exames, porque é “um local agradável” onde se pode concentrar.

Mas actualmente as bibliotecas têm de ser muito mais que locais silenciosos onde se pode estudar ou retirar um livro, diz Elbert. Se o Uganda quiser aumentar o espaço físico das suas bibliotecas, os decisores políticos também devem melhorar a sua capacidade tecnológica.

“As bibliotecas públicas estão a passar por uma revitalização noutros países porque a necessidade de ter acesso a elas na era digital é óbvia,” acrescentou. E as bibliotecas no Uganda têm o potencial de serem centros de emprego e de formação importantes nas suas comunidades.

Por exemplo, a EIPL apoia um projecto que ligará a biblioteca nacional a duas bibliotecas regionais: uma em Lira, no norte do Uganda, e outra em Masindi, uma cidade na região ocidental do país. O projecto vai recrutar jovens desempregados que poderão utilizar os recursos informáticos para actualizarem os seus currículos e aprenderem conhecimentos básicos. Também ficarão ligados a uma base de dados sobre emprego mantida pela biblioteca nacional que irá enviar mensagens de texto quando um emprego estiver disponível ou quando houver oportunidades na área da educação e formação.

“Esperamos que no final desse projecto muita gente tenha conseguido arranjar emprego,” disse Elbert.

Para aproveitar estas novas oportunidades tecnológicas, os bibliotecários precisam de actualizar os seus conhecimentos. O inquérito da EIFL constantou que actualmente os bibliotecários têm um fraco conhecimento da tecnologia.

E para que tudo isto aconteça, os bibliotecários têm de assumir um papel adicional – o de activistas. Embora o inquérito da EIFL tenha constatado que havia um apoio quase unânime a um maior financiamento às bibliotecas em todas as categorias de intervenientes – utentes, não utentes, bibliotecários e políticos locais e nacionais –os fundos não estão disponíveis. Os bibliotecários e os seus apoiantes terão de fazer mais para envolverem activamente os políticos locais e nacionais no sentido de obterem mais fundos e exigirem actualizações tecnológicas.

Durante o workshop, Elbert afirmou que a EIFL tinha conseguido identificar um grupo de apoiantes que estava ansioso por exercer pressão sobre os funcionários a nível local e nacional. E existe claramente um amplo apoio nacional para um sistema de bibliotecas que os defensores podem aproveitar. Todos os grupos que a EIFL incluiu no inquérito concordaram que as bibliotecas eram essenciais – a nível individual e comunitário.

“Posso dizer que actualmente (o resultado) mais excitante e interessante foi a atitude extremamente positiva face às bibliotecas públicas,” disse Elbert. “Não estávamos à espera disso. Elas existem de forma precária e toda a gente pensa que são basicamente óptimas. Queremos que o sejam ainda mais.”

Andrew Green

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