Cultura: Wal-Mart ataca novamente no México

México, 26/08/2005 – A multinacional Wal-Mart, que no ano passado abriu uma loja perto das milenares pirâmides mexicanas de Teotihuacan, apesar dos fortes protestos, agora busca repetir a vitória em duas regiões de alta presença cultural indígena. Porém, seus opositores lutarão. "Agora, sim," impediremos que a firma norte-americana "continue atentando contra a cultura mexicana e seus povos", disse à IPS Lorenzo Trujillo, líder da Frente Cívica de Defesa do Vale de Teothuacan, grupo integrado por moradores e comerciantes da zona arqueológica conhecida internacionalmente. "Ocuparemos repartições públicas e faremos o que for preciso para impedir o saque cultural que Wal-Mart pratica", acrescentou o ativista, que enfrenta um processo penal por causa dos protestos que, junto à sua organização, realizou contra a instalação de uma loja dessa companhia a menos de dois quilômetros das pirâmides de Teotihuacan.

Wal-Mart conta no México com 710 lojas, entre restaurantes e locais mercados que vendem diversos produtos, que geram rendas anuais superiores a US$ 13 bilhões. Trujillo informou que já começou a coordenar ações de resistência com organizações camponesas e comerciantes de Pátzcuaro, uma antiga capital dos indígenas purépechas, para deter ação da multinacional e seu plano de levantar nesse lugar mais uma loja. Pátzcuaro tem cerca de 48 mil habitantes, cinco mil deles falam línguas indígenas, e fica às margens de um lago no Estado de Michoacán, a leste da capital mexicana. A região é conhecida por suas celebrações de caráter indígena e pela produção de artesanato.

Trujillo informou que sua organização se integrará a resistência que também despertou na localidade de Juchitán, no Estado de Oaxaca, o anúncio de que Wal-Mart construirá em breve nesse lugar uma de suas lojas. Juchitán é um centro povoado por cerca de 3.500 pessoas, grande parte de origem indígena. No lugar são instalados de forma periódica mercados abertos onde ainda é possível ver práticas pré-hispânicas como a troca. "Não permitiremos que Wal-Mart continue chegando com seu comércio neoliberal a lugares de importância histórica e cultural no México. Não podemos continuar permitindo este saque", afirmou Trujillo.

Assim como aconteceu durante a polêmica pela construção da loja nas proximidades das pirâmides de Teotihuacan, os responsáveis pela empresa no México se negaram a comentar seus planos de expansão diante de consultas específicas feitas pela IPS a respeito das críticas que recebem por parte de ativistas da sociedade civil. Quando Wal-Mart construiu o supermercado em Teotihuacan, com autorização do estatal Instituto Nacional de Arqueologia e História (Inah) e de vários órgãos menores do país, a organização de Trujillo realizou numerosos protestos. Entre eles a ocupação dos escritórios do Inah na capital mexicana, ação pela qual Trujillo foi processado pela Procuradoria-geral da República acusado de crime de despojo e uso da força.

Embora os opositores da loja em Teotihuacan tenham recebido apoio de intelectuais e historiadores, a Wal-Mart acabou abrindo o estabelecimento no final de 2004 e até agora funciona sem interrupção. O supermercado, que ao contrário de outros da multinacional não possui grandes letreiros nem cores chamativas, está perto das pirâmides e dentro da zona urbana de San Juan Teotihuacan. San Juan é um pequeno povoado, onde nos últimos meses alguns comerciantes fecharam seus estabelecimentos por não terem condições de competir com o Wal-Mart. Desde a zona arqueológica de Teotihuacan, cidadela construída no início da era cristã e que atingiu seu esplendor entre os anos 450 e 600, apenas dá para ver parte do edifício da Wal-Mart, pintado com cores ocres.

O conjunto cerimonial de Teotihuacan, que é visitado por mais de dois milhões de pessoas por ano, é formado pelas pirâmides do Sol e da Lua e por templos, plataformas e locais de residência distribuídos dos dois lados da Calçada dos Mortos, de cinco quilômetros de comprimento e largura que varia de 50 metros a cem metros. Segundo Trujillo, "se a lógica e a razão se imporem", algum dia "não muito distante" o supermercado da Wal-Mart que fica perto da zona arqueológica será fechado e demolido. "O tempo nos dará razão", afirmou. O ativista ressaltou que a multinacional estará debaixo de fogo se continuar com seus planos de abrir novas lojas em Pátzcuaro e Juchitán. No entanto, observadores locais do setor empresarial afirmaram que a companhia avançou até agora sem maiores contratempos em seu projeto de expansão nesses lugares. (IPS/Envolverde)

Diego Cevallos

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