Londres, 25/08/2005 – Os melhores anos do microcrédito podem chegar ao fim apesar dos esforços da Organização das Nações Unidas para revivê-lo como ferramenta de combate à pobreza, alertam especialistas. A ONU declarou 2005 o ano Internacional do Microcrédito, mas os doadores e as instituições de crédito não parecem responder como era de se esperar, disse Kate Bird, do Overseas Developmente Institute (ODI-Instituto para o Desenvolvimento de Ultramar), um grupo independente com sede em Londres. Bird afirmou que o impulso oferecido pelas Nações Unidas equivale a respiração artificial para o microcrédito. "O mundo em desenvolvimento está cheio de modismos, e esta ferramenta em particular está saindo de moda. Talvez o microfinanciamento tenha caído em descrédito porque se esperava muito dele", afirmou à IPS.
A proclamação de 2005 como Ano Internacional do Microcrédito foi realizada em 1998 pela Assembléia Geral da ONU, com o objetivo de impulsionar os programas de microcrédito em todo o mundo. A Assembléia Geral pediu a todos os que trabalham em programas de erradicação da pobreza que tomassem medidas adicionais para proporcionar créditos e serviços conexos, destinados a fomentar o trabalho por conta própria e as atividades de geração de renda a um número cada vez maior de pessoas que vivem na pobreza. Além disso, convidou os governos, as organizações não-governamentais, o privado e meios de comunicação a destacarem o papel que o microcrédito desempenha na erradicação da pobreza, sua contribuição ao desenvolvimento social e o efeito positivo que tem na vida das pessoas pobres.
A ONU também acredita que esse tipo de serviço financeiro ajudaria a alcançar as Metas de Desenvolvimento do Milênio fixadas pelos Estados-membros em setembro de 2000. Entre as metas estabelecidas figuram reduzir à metade, em relação a 1990, o número de pessoas na pobreza extrema, famintas e sem acesso à água potável, nem meios para custeá-la. Outros objetivos são garantir a educação universal primária, promover a igualdade de gênero, reduzir a mortalidade infantil e combater o HIV/aids, a malária e outras doenças. Analistas financeiros e funcionários das Nações Unidas afirmam que o microfinanciamento, ao canalizar crédito e capital para a população economicamente mais frágil e empobrecida, ajuda atingir essas metas, especialmente a de reduzir a pobreza.
Por volta de 2000 houve um pico de microcréditos, destacou Bird, ex-professora da Faculdade de Políticas Públicas na Universidade de Birmingham. "No final dos anos 90, todos os doadores pareciam muito entusiasmados com os projetos de microcréditos. Mas esperavam demais deles e os associaram muito estreitamente com a redução da pobreza", afirmou. Entretanto, pareciam desconhecer que os "indivíduos mais pobres não se beneficiam dos microcréditos", porque é necessário um mínimo de ativos para poder usufruí-los, explicou a especialista. "As pessoas muito pobres apresentam um risco maior e, além disso, se não podem reembolsar o empréstimo ficam em piores condições que antes", porque suas comunidades as humilham e marginalizam, acrescentou.
Por essas razões, os mais pobres se autoexcluem dos sistemas de microcréditos ou têm experiências ruins com eles e não voltam a procurá-los. "Os doadores descobriram que o microcrédito ajuda os menos pobres entre os pobres", ressaltou Bird. Quanto à administração dos microcréditos, disse que as organizações não-governamentais são o melhor instrumento. "O setor privado não está interessado, especialmente nas áreas rurais, portanto, as ONGs são o veículo pais apropriado", afirmou a especialista. (IPS/Envolverde)

