Desenvolvimento: Direito a água é ameaçado na Cúpula Mundial

Estocolmo, 24/08/2005 – O plano de ação que mandatários do mundo todo adotarão na Cúpula Mundial de setembro, na sede da Organização das Nações Unidas, em Nova York, apenas toca no direito à água potável e ao saneamento, lamentou o Instituto Mundial da Água de Estocolmo (SIWI). Entretanto, as estatísticas são terríveis: uma pessoa em cada cinco vive sem acesso à água potável, e duas em cada cinco não possuem sequer saneamento básico. Pior ainda, cerca de 4.500 crianças morrem por dia vítimas de diarréia, e em qualquer momento, quase a metade da população do mundo em desenvolvimento sofre uma ou mais enfermidades vinculadas com a má distribuição da água com o a falta de saneamento, ou ainda com a má gestão dos recursos hídricos, segundo o SIWI.

Porém nada disto consta, no momento, no plano que deverá ser adotado pela Cúpula Mundial que acontecerá nos dias 14, 15 e 16 de setembro, apesar de reduzir pela metade a porcentagem de pessoas que carecem de acesso á água potável seja uma das metas do milênio fixadas pelos Estados-membros da ONU para 2015. O documento negociado pelos membros das Nações Unidas, de 38 páginas, dá pouca importância à água potável como meio para combater doenças e erradicar a pobreza, lamentou Anders Berntell, diretor-executivo do SIWI.

"A água só é mencionada em um pequeno trecho, e mesmo assim não diz nada de novo", afirmou Berntell para mais de 1.400 especialistas em água e representantes de organizações não-governamentais que estão reunidos em um simpósio na capital sueca desde segunda-feira, durante a Semana Mundial da Água. "É óbvio que se necessita de mais pressão de todos os que estão aqui reunidos", afirmou. A Semana Mundial da Água é um fórum anual dirigido à comunidade internacional encarregada da gestão dos recursos hídricos. Além disso, o Simpósio de Estocolmo sobre a Água inclui sessões temáticas, debates, palestras científicas, seminários organizados por diversas organizações internacionais, exposições e entrega de prêmios.

A única referência à água no projeto de plano de ação da Cúpula Mundial pede apoio para os países em desenvolvimento em seus esforços para proporcionar água potável e saneamento básico universal, de acordo com a Declaração do Milênio (2000) e do Plano de Ação de Johannesburgo, adotado na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, realizada nessa cidade sul-africana em setembro de 2002. O parágrafo de referência também exorta no sentido de acelerar os planos de gestão nacional de recursos hídricos e o lançamento de um programa de ação com apoio técnico e financeiro, com vistas a cumprir a meta de reduzir pela metade a porcentagem de pessoas sem acesso à água potável nem saneamento básico antes de 2015.

Representantes dos países-membros da ONU estão reunidos em Nova York desde segunda-feira para revisar o projeto de plano de ação da Cúpula Mundial, que também foi criticado pelo Grupo dos 77 (formado por 132 países em desenvolvimento) e pelos Estados Unidos, embora por diferentes motivos. A ministra do Meio Ambiente da Suécia, Lena Sommestad, também expressou insatisfação com o projeto de plano de ação e sua leve referência á água, e anunciou que a delegação de seu país pressionará na ONU para que seja dada prioridade a este assunto. "Um dos que nos ajudará nisto" é o novo presidente da Assembléia Geral, o embaixador sueco Jan Eliasson, ex-subsecretário da ONU para Assuntos Humanitários, afirmou Berntell.

Em uma entrevista publicada no começo do mês no jornal The New York Times, Eliasson recordou que a água ainda é um luxo para mais de dois bilhões de pessoas em todo o mundo. "Vi como se distribuía água potável na Somália, Moçambique e no Sudão. Vi uma mãe recebendo uma garrafa de água enquanto carregava seu filho nos braços, sorrindo, sabendo que sua única alternativa é caminhar três ou quatro quilômetros, e isso para conseguir água contaminada", declarou Eliasson. Berntell disse que o problema da água deveria permear as negociações sobre comércio e agricultura, e a Cúpula Mundial deveria criar um fórum internacional apropriado para fazê-lo. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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