St. Augustine, Miami, 23/08/2005 – Nos Estados Unidos, há uma forte onda de protestos contra os subsídios de US$ 12 bilhões incluídos na nova lei energética e contra os esforços da direita religiosa para fazer com que nas escolas seja ensinado o "modelo inteligente" (também conhecido como criacionismo) em oposição à teoria de Charles Darwin sobre a evolução. Nesta nossa Era da Informação as forças maciças da mudança-globalização das economias e da tecnologia querem reformas revolucionárias nos setores da energia e da educação. A industrialização deve passar da utilização dos combustíveis de origem fóssil para o uso de energia renovável, como as do sol, vento, oceanos etc, para enfrentar os problemas da contaminação e da mudança climática.
A educação deve preparar os cidadãos para uma aprendizagem que durará toda a vida, agora que a informação e o conhecimento se converteram em fatores-chave da produção. Daí, ser muito triste o espetáculo de um Congresso dos Estados Unidos que aprovou um projeto de lei destinado a subsidiar as companhias de combustíveis de origem fóssil assinado pelo ex-petroleiro George W. Bush. Os grupos preocupados pelo atual problema energético dizem ser evidente que não foi a "mão invisível" do mercado neste caso que guiou os mercados. Por outro lado, também está clara a rejeição diante das exigências de que nas escolas se questione a teoria evolucionista de Darwin e se ensine, em troca, o criacionismo, ou modelo inteligente, de origem divina.
Tais irracionalidades são o sintoma de que a sociedade norte-americana perde o rumo? Ou o que está em preparação é uma crise política na medida em que as dúvidas sobre a guerra no Iraque aumentam a confusão na profundamente dividida população? Todos esses fatores contam, junto com as pressões dos declinantes, mas ainda poderosos setores do petróleo, carvão energia nuclear, automóvel aço e agronegócio. Em matéria de política educacional, as crianças norte-americanas das próximas gerações se converterão em peões nesses jogos de poder, enquanto suas escolas precisam de reparos, melhores textos escolares, computadores e professores adequadamente pagos.
Em questão de política energética, o verdadeiro modelo inteligente seria o de simplesmente desmantelar os multimilionários subsídios aos combustíveis de origem fóssil, a energia nuclear, os veículos devoradores de combustível e os perdulários processos na indústria, construção e agricultura. Este seria o primeiro grande passo para a obtenção de energia limpa e renovável, para a preservação dos recursos naturais e um modelo produtivo eficiente. Em lugar disso, foram criados subsídios adicionais desnecessários (fundamentalmente para o carvão, petróleo e energia nuclear) no valor de US$ 12 bilhões. E o que é ainda pior, a pequena porcentagem desses subsídios destinados à energia solar e eólica ou a gerada com biomassa ou outras fontes renováveis está simplesmente levando a uma escassez de painéis solares e similares.
As indústrias que os produziam foram prejudicadas ou suprimidas por subsídios perversos durante décadas. Agora, não podem se expandir de maneira suficientemente rápida para atender a demanda. De modo que os preços dos painéis solares e outros equipamentos agora estão muito mais altos. Daí os consumidores estarem pagando três vezes mais por sua energia e pelas conversões necessárias para as novas tecnologias, enquanto os contribuintes são sobrecarregados com desnecessários subsídios. Com um dólar fraco, com a pesada carga da impopular, trágica e cada vez mais paralisada guerra no Iraque, com líderes que cometem indiscrições e uma opinião pública dividida, os Estados Unidos não podem permitir por mais tempo falsos debates sobre o criacionismo, sobre quando começa a vida humana, sobre a pesquisa científica em matéria de células ou sobre quem deveria guiar a "mão invísivel" do mercado. É hora de admitir que são os seres humanos os que criam os mercados, e não algum deus.
A evolução, bem como as opiniões científicas sobre a mudança climática, são incontrovertíveis. Bush admitiu na cúpula do G-8 na Escócia que os seres humanos estão provocando a mudança climática. Lamentavelmente, o presidente incentiva os fundamentalistas norte-americanos a ensinarem o "modelo inteligente" aos estudantes. A população dos Estados Unidos merece uma liderança melhor tanto em matéria governamental quanto econômica. Neste século XXI, o Congresso norte-americano deveria rejeitar o fundamentalismo em todas suas formas. (IPS/Envolverde)
(*) Hazel Henderson, economista, autora de "Beyond Globalisation" e outros livros.

