Desenvolvimento: Países menos religiosos são os mais generosos

Washington, 24/08/2005 – Os países com templos mais vazios tendem a ser mais generosos em seu apoio ao desenvolvimento dos países pobres do que aqueles com grande presença nos serviços religiosos. O Índice de Compromisso com o Desenvolvimento, publicado pela mais prestigiosa revista especializada em política internacional dos Estados Unidos, a Foreign Policy, inclui Dinamarca, Holanda, Suécia, Austrália e Noruega entre as nações mais ricas dispostas a cooperar com os pobres. Os países que menos cooperam, da lista de 21 nações do Norte industrial, são Itália, Irlanda, Grécia e Japão, segundo a pesquisa, um projeto conjunto da Foreign Policy e do não-governamental Center for Global Development (CGD) que publica suas conclusões anualmente.

Os autores do Índice observam que os US$ 12 bilhões em fundos privados e públicos de assistência dos países ricos às nações afetadas pelo tsunami de dezembro na Ásia e o acordo pelo alívio da dívida externa anunciado este ano melhoraram o rendimento da cooperação. Ao mesmo tempo, consideraram que esses dois passos têm um alcance limitado, pois o estudo também considera outros fatores que influenciam na complexa relação Norte-Sul, como as barreiras comerciais. O estudo indica, por exemplo, que o Tesouro dos Estados Unidos impôs no ano passado quase US$ 2 bilhões em tarifas alfandegárias a importações dos quatro países mais prejudicados pelo tsunami (Índia, Indonésia, Sri Lanka e Tailândia), enquanto os fundos de alívio para essas mesmas nações aprovados pelo Congresso norte-americano somaram US$ 800 milhões.

"Se os países ricos realmente querem melhorar a vida dos cidadãos dos países afetados pelo tsunami deveriam por fim a esses impostos e a outras barreiras protecionistas no contexto da atual Rodada de Doha de negociações multilaterais de comércio", segundo a revista. A Foreign Policy indicou que a medida que mais ajudou a melhorar as cifras do Índice este ano foi a queda, em 1º de janeiro, do regime de cotas têxteis que regia as importações de Estados Unidos, Canadá e União Européia, produto de negociações multilaterais. O Índice se baseia em sete fatores de política externa das nações ricas que influem sobre o bem-estar dos países pobres e aos quais são destinadas diferentes pontuações: assistência, investimento, migração, meio ambiente, segurança, tecnologia e comércio.

Os países considerados são Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Grécia, Finlândia, França, Irlanda, Itália, Japão, Noruega, Nova Zelândia, Portugal e Suíça. Os autores do relatório compararam seus resultados com os da Investigação Mundial sobre Valores, que estabelece as mudanças sociais e culturais em todo o mundo. Com essa metodologia, constaram que os países doadores mais sensíveis ao desenvolvimento do Sul também tendem a ser os que registram menor presença nos serviços religiosos. Apenas 3% dos habitantes da Dinamarca, país que recebeu a melhor qualificação no Índice, vão aos templos ao menos uma vez por semana, na menor proporção entre os 21 países ricos analisados.

Com 14% da sua população indo semanalmente aos serviços religiosos, a Holanda fica com o segundo lugar, seguida da Suécia com 10% em terceiro, da Noruega em quinto e Finlândia em sexto. Por outro lado, o país mais religioso dos 21, a Irlanda (uma nação católica onde quase dois terços da população vai à igreja pelo menos uma vez na semana ) fica em 19º lugar do Índice, enquanto os dois países que a seguem, Estados Unidos e Itália, ocupam os postos 12º e 18º. "Se costuma dizer que se deve amar ao próximo como a si mesmo", segundo o informe da Foreign Policy, mas "onde há mais pregação, há menos prática".

O maior peso do índice é o grau de proteção dos países doadores aos seus mercados frente aos produtos do Sul através de tarifas alfandegárias, cotas e subsídios. Também pondera as importações dos países pobres. Além disso, cada item de pontuação se compõe de várias categorias. Em matéria de assistência, por exemplo, o Índice considera não somente a ajuda oficial ao desenvolvimento como a porcentagem do produto nacional bruto, e ainda em que medida essa ajuda está vinculada com a compra de bens e serviços do país pobre pelo doador, a proporção recebida em pagamento de dívidas e fundos privados humanitários. Enquanto os Estados Unidos são o país mais generoso em termos de doações privadas (seis centavos de dólar por dia, em média), a ajuda oficial ao desenvolvimento foi de apenas 15 centavos diários.

Esse total de 21 centavos é exíguo frente ao principal doador relativo, a Dinamarca, com média de 90 centavos de dólar, dos quais 89 centavos procedentes do governo e apenas um de doações particulares. Em termos de assistência, Dinamarca, Noruega, Suécia e Holanda ficaram na frente dos restantes 17 países analisados por uma ampla margem. Os piores qualificados foram Itália, Estados Unidos, Nova Zelândia e Austrália. Com a exceção do Japão, os que tiveram pior rendimento em matéria de assistência foram os que melhor pontuação conseguiram nos itens comerciais, segundo o estudo. A Nova Zelândia foi considerada dona do mercado mais aberto aos bens procedentes do Sul em desenvolvimento, seguida de Austrália, Canadá e Estados Unidos. A Itália é o país da União Européia com melhor qualificação. Por outro lado, o Japão se coloca como o mercado mais fechado, seguido de Noruega e Suíça.

Quanto à facilitação do fluxo de investimentos para os países pobres e garantir sua destinação à promoção do desenvolvimento os melhores qualificados foram Grã-Bretanha, Canadá, Itália, Holanda, Alemanha e Estados Unidos, enquanto os piores foram Irlanda, Áustria, Nova Zelândia e Grécia. Em matéria de migração, o Índice pondera o fluxo líquido de imigrantes de países pobres para os ricos, a ajuda dada por estes aos refugiados e os que solicitam asilo e a proporção de estudantes do Sul no total da matrícula de estrangeiros. Nesse sentido, os países que figuraram na cabeça da classificação foram Suíça e Áustria, seguidos por Nova Zelândia e Alemanha. No fim da tabela figuram Portugal, Grécia, Japão, Itália e Finlândia. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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