Cabul, 26/08/2005 – Depois de 25 anos de guerra e regimes autoritários, o Afeganistão se prepara para eleger o parlamento e os conselhos provinciais em todo o país, no próximo dia 18 de setembro. O JEMB, órgão misto afegão-ONU que organiza as eleições divulgou recentemente alguns dados impressionantes sobre suas características: 5.800 candidatos, 26 mil seções, 150 mil cabines, 40 milhões de cédulas (muito mais do que as necessárias porque os cidadãos poderão votar em qualquer ponto de sua própria província), 135 mil urnas, 140 mil garrafas de tinta indelével.
O transporte interno ficará por conta de 17 aviões cargueiros, nove helicópteros, centenas de caminhões e duas mil mulas. Foram recrutados 160 mil escrutinadores, seis mil coordenadores, 60 mil agentes de segurança e sete mil observadores locais. As tropas da Força Internacional para a Segurança (Usaf) já passam de 10 mil unidades e as da coalizão lideradas pelos Estados Unidos já somam 28 mil. A isto se acrescenta o problema dos nômades em contínuo deslocamento – 130 mil já se registraram – e o dos centros de votação para os refugiados que regressam do Paquistão e do Irã. Pode-se dizer que se trata da máquina eleitoral mais complexa jamais organizada, com uma combinação de instrumentos que vão desde a idade da pedra até as tecnologias mais modernas.
Como acontece de maneira cada vez mais freqüente nessa parte do mundo, a situação das mulheres é reveladora de uma realidade em movimento. Dos 12 milhões de habitantes que se registraram para votar 44% são mulheres, o que implica um aumento de 35% em relação às eleições presidenciais de outubro passado. Entre os 5.800 candidatos há 600 mulheres. Em Cabul entrevistei muitas candidatas, entre elas minha amiga Sima Simar, presidente da Comissão Independente para os Direitos Humanos que em 1998 teve que se cobrir com a burka para poder participar de um congresso internacional em Bruxelas. Também encontrei a ministra para os Assuntos Femininos, Masooda Jalal, que quando lhe dizem que lugar de mulher é em casa responde: "Tem razão, nosso lugar está na Casa da Nação, que é o Parlamento".
Entretanto, a campanha eleitoral é muito difícil para as mulheres por causa da secular discriminação. Muitos afirmam que a participação feminina na vida pública contraria o islamismo, e em muitas áreas rurais elas não podem sair de casa se não estiverem acompanhadas de um homem. São obrigadas a enfrentar intimidações, ameaças e até destruição de seus cartazes – porque não devem mostrar seus rostos – ou os obstáculos para ter acesso a lugares proibidos para mulheres. Basta pensar na contradição das candidatas que discursam em público para convencê-lo de suas intenções, mas que não podem mostrar seus rostos, escondidos sob uma burka.
Quando entrevistei Azizurrahman Rafiee, diretora do Fórum para a Sociedade Civil, ela me diz: "Você não me reconhece porque quando fui presa pelos talibãs, em 1997, eu usava uma barba até a cintura". Rafiee trabalhava para uma ONG e fez de tudo para me livrar da ordem de prisão decretada pelo regime Talibã a fim de impedir-me de fazer campanha em favor das reprimidas mulheres afegãs.
Um candidato a deputado, o professor de física e matemática Ustad Muqim Khan avalia favoravelmente os avanços para uma democracia e o estado de direito, e afirma que em seu país é necessário implantar um sistema multipartidário. No entanto, se mostra pessimista porque teme que as distorções de hoje se perpetuem nas instituições de amanhã. Em sua região, Badakhshan, a situação logística é dificílima. Às graves carências de infra-estrutura, em particular de estradas utilizáveis, se somou há mais de um mês uma inundação que destruiu 75% das pontes. Se não forem reparadas antes das eleições, calcula-se que 30% do eleitorado não poderão votar.
Todo processo eleitoral está caracterizado pela fragilidade. Embora entre os fatores positivos do ponto de vista da legitimidade tenha sido valorizado pelo alto número de eleitores que se registraram, especialmente entre as mulheres, me preocupam os riscos de fraudes em vários níveis e das mais diversas formas de intimidação, com alguns casos muito graves, como o assassinato de três candidatos.
Do ponto de vista da segurança, o que mais me alarma não é o aspecto estritamente militar, o da luta contra o terrorismo e o debate sobre se o Talibã pode ganhar ou perder a guerra, mas o risco de atentados de alta e baixa intensidade dirigidos a prejudicar o processo ao estabelecer com objetivo privilegiado o aparato eleitoral. É preocupante comprovar a quantidade de esconderijos repletos de explosivos que foram descobertos e, se também considerarmos a porosidade da fronteira com o Paquistão, onde circula de tudo, não se pode excluir a possibilidade de atentados em grande escala.
Apesar de tudo, é fascinante contemplar como este processo está se desenvolvendo em meio a tantos questões políticas, culturais e de organização. Além dos resultados, se tratará de um êxito somente se os afegãos adquirirem a consciência de seu valor e de sua necessidade fundamental para o futuro do país, e se reconhecerem que o processo em seu conjunto é um fator positivo com relação à inércia política, ao estado de guerra permanente e ao sentido de frustração pelo presente e de pessimismo para o futuro.(IPS/Envolverde)
(*) Emma Bonino é parlamentar européia e chefe da missão de observadores da União Européia para as eleições no Afeganistão.

